Em 1990 era
publicado na revista The New Yorker um espirituoso artigo de Ian Frazer intitulado
“Coyote vs. Acme” no qual o Coiote (o azarado personagem das animações da
Looney Tunes) processa a Acme por danos morais e existenciais.
Desde que a
história da obsessão de Willy Coiote pela veloz avestruz Papa Léguas foi para
as telas no curta “Fast and Furry-ous” em 1949 pelos estúdios da Warner Bros, uma
questão não sai da cabeça de uma geração que cresceu assistindo a desenhos
animados pela TV: por que o Coiote continua usando produtos tão pouco
confiáveis da Acme?
São inúmeras
tentativas frustradas envolvendo sapatos-foguete, ímãs, misseis e outras
inumeráveis bugigangas que falham espetacularmente: explodem, implodem,
eletrocutam e martirizam o pobre coiote que sempre sai com a cara chamuscada, se
esborracha no fundo de um abismo, bigornas esmagam sua cabeça, o corpo vira
sanfona ou é pego por um míssil que o joga violentamente contra uma montanha. Enquanto
o Papa Léguas sai ileso, lépido e veloz, fazendo “bip-bip”. Como fosse um
escárnio diante do rosto sempre atônito do pobre coiote.
Por que o Willy
Coiote continua comprando produtos Acme? Ora, porque a Acme é uma corporação
gigante que detém o monopólio na vida dos desenhos animados.
O verdadeiro herói
não é, claro, aquele pássaro presunçoso que fica bipando. É seu perseguidor
perpetuamente frustrado, o Coiote, que, sozinho no mais árido dos desertos,
suporta a futilidade infinita de um personagem de Beckett - aliás, o personagem
foi criado na mesma época que Esperando Godot.
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Pois esse
artigo da The New Yorker, de 1990, vai inspirar a diversão
metalinguística do filme Coyote Vs. Acme (2026). O curioso é que esse
filme híbrido de animação e live-action só chegou ao cinema agora, depois de uma
controversa estratégia de adiamento e ameaça de engavetamento do projeto
concluído – numa manobra que seria típica da própria Acme, o filme finalizado estava
engavetado numa estratégia de obter uma dedução fiscal.
Combinando
atores reais com animação, Coyote vs. Acme pega a obra de
Frazier é uma paródia do clássico thriller jurídico — pense em O
Veredito ou Erin Brockovich — mas imersa na anarquia
surreal dos Looney Tunes.
É essa
anarquia inspirada nas gags absurdas dos filmes mudos slapstick do começo do século
XX que fez os Looney Tunes se diferenciarem das animações sentimentais e
moralistas da Disney. Coyote, Perna Longa, Gaguinho e tantos outros
inesquecíveis personagens faziam parte de um universo de irresponsabilidade
feliz. Tudo era non sense e nunca pretendia passar uma “moral da história”.
E nesse
aspecto, pelo menos, Coyote vs. Acme quebra a tradição. O
filme celebra a disposição do Coiote em continuar lutando, mesmo diante de
constantes fracassos.
Nesta versão
híbrida, essa tradição é ressignificada, promovendo uma transição do cinismo
anárquico para o idealismo moral dos filmes de Frank Capra ou a ideologia
motivacional do mérito-empreendedorismo desse século.
O Filme
O roteiro
afiado de Samy Burch se desenrola em um mundo que lembra o magistral Uma
Cilada para Roger Rabbit (1988), onde personagens de desenho animado e
pessoas reais convivem lado a lado.
A história
começa quando o irritado Willy Coiote decide entrar com uma ação judicial e
contrata um advogado de Albuquerque, Kevin Avery (Will Forte). Infelizmente, o
desleixado Avery se revela uma alma melancólica que tem tanto medo do fracasso
que só aceita casos pequenos e os resolve por uma ninharia.
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Qualquer
semelhança com o advogado Saul Goodman, de Breaking Bed, não é mera
coincidência – ele prefere fazer acordos, ganhar uma ninharia, do que enfrentar
tribunais. Por isso, fazer um acordo com a Acme está no seu radar – mas não no
do Willy Coiote.
Por sorte, a
estagiária de Avery, Paige (Lana Condor), é uma idealista. Ela o incentiva a
entrar com um processo gigantesco contra a Acme, a empresa mais poderosa do
mundo. A Acme é comandada pelo fanfarrão Frangolino e representada pelo
advogado implacável e agressivo Buddy Crane (John Cena), cujo corpo malhado parece
estar prestes a explodir de seu terno.
Logo, Avery,
Paige e Willy Coiote saem em busca de evidências e encontram vários outros
personagens da Warner Bros.: Patolino, Piu-Piu, Gaguinho sem calças e, claro, o
incomparável Pernalonga.
Ao longo do
caminho, a equipe jurídica do Coyote descobre um sinistro projeto da Acme,
batizado em homenagem a Sísifo, o mítico empurrador de pedras cuja história
antecipa a própria futilidade do coiote: aproveitar a imortal resiliência dos
desenhos animados para testar produtos propositalmente defeituosos para
aprimorá-los pra os humanos. Tornando os produtos seguros, sem revelar todo o
sofrimento imposto aos “garotos de testes” das animações.
É claro que
um dos prazeres dos desenhos animados da Warner Bros. era o deleite imaginativo
em subverter as leis da natureza, muitas vezes de forma violenta. O Coiote pode
ser esmagado por um rolo compressor, levantar-se, sacudir a poeira e inflar-se
de volta ao tamanho normal.
"Coiote
vs. Acme" oferece uma série de piadas delirantes como essa, várias
delas excelentes, em que os personagens de carne e osso enfrentam o mesmo
universo maluco dos desenhos animados.
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Mas Willy
Coiote será o único personagem da Looney Tunes a tomar consciência da sua
exploração pelo “Projeto Sísifo”. E descobrir a inutilidade de um Sísifo
rolando interminavelmente uma rocha montanha acima.
Slapstick vs. seriedade dos tribunais
A estrutura
de Coyote vs. Acme constrói sua linguagem no choque entre a estética do slapstick
animado e a sobriedade do drama de tribunal (courtroom drama). O humor
nasce da colisão entre duas lógicas opostas: de um lado, a física ilógica e
anárquica dos Looney Tunes; do outro, a burocracia rígida do mundo real.
O desafio técnico de integrar animação 2D/3D a cenários live-action
exige que a expressividade silenciosa do Coiote funcione não apenas como alívio
cômico, mas como o centro dramático do filme, exigindo uma montagem afinada
para preservar o ritmo clássico das gags visuais sem esvaziar o peso da
narrativa.
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Da anarquia surrealista ao humanismo de Frank Capra
A animação
tradicional da Warner Bros. ganhou identidade ao se opor ao modelo da Disney.
Enquanto a Disney apostava em fábulas moralistas, edificantes e sentimentais,
os curtas de Chuck Jones e Tex Avery celebravam o surrealismo, o absurdo e a
"irresponsabilidade feliz", onde a violência era desprovida de
sequências duradouras ou julgamentos morais. O Coiote original não era uma
vítima; era um perseguidor incansável punido pela própria obstinação e pela
física maluca de seu universo.
Nesta versão
híbrida, essa tradição é ressignificada sem perder sua essência cômica,
promovendo uma transição do cinismo anárquico para o idealismo moral de Frank
Capra:
- Ressignificação do Fracasso: O
trauma físico acumulado ao longo de décadas deixa de ser apenas uma piada
mecânica e ganha peso de prova jurídica. As falhas dos produtos Acme
passam a simbolizar o descaso de uma megacorporação em relação ao
consumidor.
- O Mito do Underdog: A
postura do Coiote espelha a de personagens capraescos como Jefferson Smith
em A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939).
Ele assume a figura do indivíduo comum, injustiçado e vulnerável, que se
recusa a ser silenciado por um poder corporativo desmedido.
A
perseverança do Coiote ganha uma nobreza inédita. A insistência em continuar
tentando — que nos curtas originais beirava a loucura obsessiva — transforma-se
em um ato de resistência e dignidade contra um sistema desenhado para fazê-lo
falhar.
Porém, o filme
termina como as animações clássicas da Disney. O alvo não é o sistema desenhado
para fazer o indivíduo ficar impotente diante das corporações. Mas a
resiliência de um desenho animado como modelo motivacional de sucesso
empreendedor para humanos na live action do mundo real.
Ficha Técnica |
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Título: Coiote Vs. Acme |
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Diretor: Dave Green |
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Roteiro: Samy Burch, James Gunn, Jeremy Slater |
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Elenco: Will Forte, Lana Condor, John Cena |
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Produção: Keylight Pictures, Warner Bros. |
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Distribuição: Paris Filmes |
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Ano: 2026 |
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País: EUA |
terça-feira, setembro 08, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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