terça-feira, setembro 08, 2026

Em 'Coyote vs Acme' a anarquia dos Looney Tunes transforma-se em conto moral



O eterno sofredor dos desenhos animados cansou de ser esmagado por bigornas e rochas, eletrocutado e feito de palhaço: ele decidiu processar o sistema. Salvo de um polêmico engavetamento motivado por deduções fiscais corporativas — uma ironia digna da própria trama —, o aguardado filme híbrido de animação e live-action “Coyote vs. Acme” (2026) chega aos cinemas para subverter uma tradição. Inspirado em um artigo da The New Yorker de 1990, o longa choca as gags anárquicas dos Looney Tunes com a sobriedade dos dramas de tribunal, transformando décadas da clássica "irresponsabilidade feliz" da Warner em um conto moral de resistência contra abusos corporativos. Em vez do mero cinismo animado, o azarado Willy Coiote renasce agora com a nobreza de um herói de Frank Capra.

Em 1990 era publicado na revista The New Yorker um espirituoso artigo de Ian Frazer intitulado “Coyote vs. Acme” no qual o Coiote (o azarado personagem das animações da Looney Tunes) processa a Acme por danos morais e existenciais.

Desde que a história da obsessão de Willy Coiote pela veloz avestruz Papa Léguas foi para as telas no curta “Fast and Furry-ous” em 1949 pelos estúdios da Warner Bros, uma questão não sai da cabeça de uma geração que cresceu assistindo a desenhos animados pela TV: por que o Coiote continua usando produtos tão pouco confiáveis da Acme?

São inúmeras tentativas frustradas envolvendo sapatos-foguete, ímãs, misseis e outras inumeráveis bugigangas que falham espetacularmente: explodem, implodem, eletrocutam e martirizam o pobre coiote que sempre sai com a cara chamuscada, se esborracha no fundo de um abismo, bigornas esmagam sua cabeça, o corpo vira sanfona ou é pego por um míssil que o joga violentamente contra uma montanha. Enquanto o Papa Léguas sai ileso, lépido e veloz, fazendo “bip-bip”. Como fosse um escárnio diante do rosto sempre atônito do pobre coiote.

Por que o Willy Coiote continua comprando produtos Acme? Ora, porque a Acme é uma corporação gigante que detém o monopólio na vida dos desenhos animados.

O verdadeiro herói não é, claro, aquele pássaro presunçoso que fica bipando. É seu perseguidor perpetuamente frustrado, o Coiote, que, sozinho no mais árido dos desertos, suporta a futilidade infinita de um personagem de Beckett - aliás, o personagem foi criado na mesma época que Esperando Godot.



Pois esse artigo da The New Yorker, de 1990, vai inspirar a diversão metalinguística do filme Coyote Vs. Acme (2026). O curioso é que esse filme híbrido de animação e live-action só chegou ao cinema agora, depois de uma controversa estratégia de adiamento e ameaça de engavetamento do projeto concluído – numa manobra que seria típica da própria Acme, o filme finalizado estava engavetado numa estratégia de obter uma dedução fiscal.

Combinando atores reais com animação, Coyote vs. Acme pega a obra de Frazier é uma paródia do clássico thriller jurídico — pense em O Veredito ou Erin Brockovich — mas imersa na anarquia surreal dos Looney Tunes.

É essa anarquia inspirada nas gags absurdas dos filmes mudos slapstick do começo do século XX que fez os Looney Tunes se diferenciarem das animações sentimentais e moralistas da Disney. Coyote, Perna Longa, Gaguinho e tantos outros inesquecíveis personagens faziam parte de um universo de irresponsabilidade feliz. Tudo era non sense e nunca pretendia passar uma “moral da história”.

E nesse aspecto, pelo menos, Coyote vs. Acme quebra a tradição. O filme celebra a disposição do Coiote em continuar lutando, mesmo diante de constantes fracassos. 

Nesta versão híbrida, essa tradição é ressignificada, promovendo uma transição do cinismo anárquico para o idealismo moral dos filmes de Frank Capra ou a ideologia motivacional do mérito-empreendedorismo desse século.

O Filme

O roteiro afiado de Samy Burch se desenrola em um mundo que lembra o magistral Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), onde personagens de desenho animado e pessoas reais convivem lado a lado. 

A história começa quando o irritado Willy Coiote decide entrar com uma ação judicial e contrata um advogado de Albuquerque, Kevin Avery (Will Forte). Infelizmente, o desleixado Avery se revela uma alma melancólica que tem tanto medo do fracasso que só aceita casos pequenos e os resolve por uma ninharia.



Qualquer semelhança com o advogado Saul Goodman, de Breaking Bed, não é mera coincidência – ele prefere fazer acordos, ganhar uma ninharia, do que enfrentar tribunais. Por isso, fazer um acordo com a Acme está no seu radar – mas não no do Willy Coiote.

Por sorte, a estagiária de Avery, Paige (Lana Condor), é uma idealista. Ela o incentiva a entrar com um processo gigantesco contra a Acme, a empresa mais poderosa do mundo. A Acme é comandada pelo fanfarrão Frangolino e representada pelo advogado implacável e agressivo Buddy Crane (John Cena), cujo corpo malhado parece estar prestes a explodir de seu terno.

Logo, Avery, Paige e Willy Coiote saem em busca de evidências e encontram vários outros personagens da Warner Bros.: Patolino, Piu-Piu, Gaguinho sem calças e, claro, o incomparável Pernalonga.

Ao longo do caminho, a equipe jurídica do Coyote descobre um sinistro projeto da Acme, batizado em homenagem a Sísifo, o mítico empurrador de pedras cuja história antecipa a própria futilidade do coiote: aproveitar a imortal resiliência dos desenhos animados para testar produtos propositalmente defeituosos para aprimorá-los pra os humanos. Tornando os produtos seguros, sem revelar todo o sofrimento imposto aos “garotos de testes” das animações.

É claro que um dos prazeres dos desenhos animados da Warner Bros. era o deleite imaginativo em subverter as leis da natureza, muitas vezes de forma violenta. O Coiote pode ser esmagado por um rolo compressor, levantar-se, sacudir a poeira e inflar-se de volta ao tamanho normal. 

"Coiote vs. Acme" oferece uma série de piadas delirantes como essa, várias delas excelentes, em que os personagens de carne e osso enfrentam o mesmo universo maluco dos desenhos animados.



Mas Willy Coiote será o único personagem da Looney Tunes a tomar consciência da sua exploração pelo “Projeto Sísifo”. E descobrir a inutilidade de um Sísifo rolando interminavelmente uma rocha montanha acima.

Slapstick vs. seriedade dos tribunais

A estrutura de Coyote vs. Acme constrói sua linguagem no choque entre a estética do slapstick animado e a sobriedade do drama de tribunal (courtroom drama). O humor nasce da colisão entre duas lógicas opostas: de um lado, a física ilógica e anárquica dos Looney Tunes; do outro, a burocracia rígida do mundo real. O desafio técnico de integrar animação 2D/3D a cenários live-action exige que a expressividade silenciosa do Coiote funcione não apenas como alívio cômico, mas como o centro dramático do filme, exigindo uma montagem afinada para preservar o ritmo clássico das gags visuais sem esvaziar o peso da narrativa.




Da anarquia surrealista ao humanismo de Frank Capra

A animação tradicional da Warner Bros. ganhou identidade ao se opor ao modelo da Disney. Enquanto a Disney apostava em fábulas moralistas, edificantes e sentimentais, os curtas de Chuck Jones e Tex Avery celebravam o surrealismo, o absurdo e a "irresponsabilidade feliz", onde a violência era desprovida de sequências duradouras ou julgamentos morais. O Coiote original não era uma vítima; era um perseguidor incansável punido pela própria obstinação e pela física maluca de seu universo.

Nesta versão híbrida, essa tradição é ressignificada sem perder sua essência cômica, promovendo uma transição do cinismo anárquico para o idealismo moral de Frank Capra:

  • Ressignificação do Fracasso: O trauma físico acumulado ao longo de décadas deixa de ser apenas uma piada mecânica e ganha peso de prova jurídica. As falhas dos produtos Acme passam a simbolizar o descaso de uma megacorporação em relação ao consumidor.
  • O Mito do Underdog: A postura do Coiote espelha a de personagens capraescos como Jefferson Smith em A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939). Ele assume a figura do indivíduo comum, injustiçado e vulnerável, que se recusa a ser silenciado por um poder corporativo desmedido.

A perseverança do Coiote ganha uma nobreza inédita. A insistência em continuar tentando — que nos curtas originais beirava a loucura obsessiva — transforma-se em um ato de resistência e dignidade contra um sistema desenhado para fazê-lo falhar.

Porém, o filme termina como as animações clássicas da Disney. O alvo não é o sistema desenhado para fazer o indivíduo ficar impotente diante das corporações. Mas a resiliência de um desenho animado como modelo motivacional de sucesso empreendedor para humanos na live action do mundo real.


 

Ficha Técnica

Título: Coiote Vs. Acme

Diretor: Dave Green

Roteiro: Samy Burch, James Gunn, Jeremy Slater

Elenco: Will Forte, Lana Condor, John Cena

Produção: Keylight Pictures, Warner Bros.

Distribuição: Paris Filmes

Ano: 2026

País:  EUA

 

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