Se você já sofreu de insônia nas madrugadas dos anos 80 e 90, zapeando por canais dominados por infomerciais absurdos e vendas agressivas, prepare-se para ver essa memória afetiva se transformar em um pesadelo cósmico. Essa é a premissa de Buffet Infinity (2025), uma pérola de estranheza e bizarrice do terror analógico dirigida pelo canadense Simon Glassman. Misturando comédia de humor negro, estética de fita VHS e found footage, o longa subverte a saudosa cultura do "zapping" para narrar o fim do mundo através de comerciais locais de baixo orçamento — entregando uma sátira caótica e desorientadora onde o verdadeiro monstro é o consumismo em estágio terminal.
Este filme é
para cinéfilos aventureiros e curiosos em descobrir na cinematografia atual verdadeiras
pérolas de estranheza. Alguma produção underground inesperadamente bizarra.
Certamente
para resgatar a aquela sensação estranha de se perder num labirinto de canais
zapeando de madrugada nos anos 80 e 90 – um labirinto formado por canais que passavam
as madrugadas apresentando em looping peças de infomerciais: aqueles comerciais
que disfarçavam a venda de um produto sob o formato de um programa de
auditório, documentário ou talk-show.
Utilizavam
demonstrações exageradas, depoimentos de clientes e um forte apelo à urgência
(como o famoso "Ligue nos próximos 10 minutos e ganhe o dobro!")
para vender produtos diretamente ao telespectador.
Eles moldaram
a bizarra cultura do zapping (o ato de trocar constantemente de canal
pelo controle remoto) dentro do Fenômeno das "Madrugadas Vazias"
Nos anos 1990
e 2000, as emissoras de TV não tinham programação própria para preencher as 24
horas do dia. Elas começaram a vender as madrugadas e as manhãs de fim de
semana para empresas de infomerciais (como a icônica Polishop no Brasil).
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Isso criou um
cenário onde o telespectador com insônia entrava em um ciclo infinito de zapping.
Ao mudar de canal para fugir de um infomercial de facas que cortam canos de
metal, ele caía em outro que vendia travesseiros tecnológicos ou aparelhos de
ginástica milagrosos.
A cultura do zapping
foi alimentada pela bizarrice dessas produções. Os infomerciais criaram uma
estética própria baseada em problemas exagerados, soluções mágicas e repetição
extrema – a mesma demonstração exaustiva era repetida a cada 5
minutos para capturar quem acabou de mudar de canal.
Isso criava no
efeito zapping em uma forma de entretenimento involuntária. E, na
atualidade, uma forma de, por aassim dizer, “terror analógico”.
Como a
produção canadense Buffet Infinity (2025), dirigido por Simon Glassman: um
marco bizarro e profundamente experimental no subgênero do terror analógico
(analog horror).
A cultura
atual da “rolagem infinita” em redes digitais talvez seja a que mais se
aproxima da cacofonia produzida pelo efeito zapping no controle remoto e TV.
Porém, a cacofonia da rolagem digital é regida pelos algoritmos que conhecem
nossos gostos e hábitos. De certa forma, nos protegendo da1uelas descobertas
bizarras de conteúdos no meio da madrugada na TV.
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Misturando
comédia de humor negro, found footage de "zapping" televisivo e uma
forte sátira ao consumismo, o filme abandona as narrativas tradicionais para
contar a história do fim do mundo através da lente distorcida de comerciais de
TV local e transmissões de madrugada de baixo orçamento.
Originalmente
concebido como um curta-metragem para o YouTube produzido durante a pandemia de
Covid-19, mas antes de Glassman perceber o potencial para um longa-metragem, Buffet
Infinity é apresentado como uma série de gravações de comerciais locais da
fictícia cidade canadense de Westridge County, em Alberta.
À medida que
percorremos as imagens em estilo VHS, uma rivalidade bizarra entre dois
restaurantes vizinhos logo se transforma em um pesadelo cósmico, com uma
misteriosa cratera ameaçando engolir toda a comunidade – um negócio local de
cada vez.
O Filme
A estrutura
de Buffet Infinity não segue a jornada de um herói convencional, mas sim
a rápida e perturbadora deterioração de uma pequena cidade. Tudo o que o
espectador vê é transmitido por uma televisão de tubo (CRT), saltando de um
canal para outro. Inicialmente, somos bombardeados por propagandas de estética
duvidosa dos anos 80 e 90, mas logo essas inserções começam a esconder
mensagens sinistras.
Aos poucos,
as histórias dos anunciantes se interligam para revelar um apocalipse cósmico
centrado em seitas religiosas, uma invasão interdimensional e um bizarro
"buffet consciente".
Alguns desses anunciantes:
(a) A Seita de Langdon P. Hershey: Um líder de culto excêntrico (interpretado por Dino Primo), nos moldes de L. Ron Hubbard, alerta o público sobre a catástrofe iminente através de sua programação antes de acabar se tornando, ele mesmo, uma vítima de forças alienígenas
(b) A Guerra do Comércio Local: Propagandas de lojas normais se transformam em rituais do fim dos tempos. A disputa entre os mascotes "Capitão Economia" e o maligno "Professor Preço Alto" evolui de uma rivalidade boba para uma guerra violenta. Enquanto isso, a dupla de vendedoras "Becky, a Rainha dos Tapetes" e a "Princesa dos Azulejos" utiliza seu tempo de transmissão para invocar um leviatã direto do Livro do Apocalipse.
(c) A Loja de Penhores de Ahmed: O núcleo que mais se aproxima de um arco de sobrevivência é o de Ahmed, dono de uma loja de penhores. Enquanto o tecido do espaço e do tempo é rasgado ao seu redor, ele decide se trancar na loja, fortificar o local e empunhar sua Glock — preferindo jogar paciência do que lidar ativamente com o fim do mundo. O clímax atinge o ápice quando uma força cósmica possui seu funcionário e uma fenda interdimensional se abre literalmente no corpo do parceiro de Ahmed.
(d) A bizarra guerra comercial entre os restaurantes “Buffet Infinity” e o “molho secreto” do restaurante (supostamente) italiano da Jenny.
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O filme
termina em caos cognitivo total: telas vermelhas de alerta da "Sociedade
Westridge para a Liberdade Religiosa" interrompem a programação, e
anúncios de seguro de vida se tornam psicologicamente torturantes, selando o
destino da cidade.
A genialidade
de Buffet Infinity está na forma como Glassman pega a linguagem familiar
do terror analógico, criando um formato exaustivo e sem precedentes.
Estética “Vaporwave” e surrealismo Adult Swim
A atmosfera
remete à era de ouro das programações noturnas bizarras do Adult Swim e à
estética vaporwave - gênero musical, um estilo de arte visual e um movimento da
internet que surgiu no início da década de 2010. Ele mistura nostalgia dos anos
1980 e 1990 com uma crítica irônica ao consumo e ao capitalismo.
A sensação
tátil da fita VHS, com distorções de áudio e a iluminação azulada e
estroboscópica da tela de CRT, cria um efeito anestesiante e nostálgico. O
filme brinca com a memória afetiva de gerações que cresceram assistindo à TV a
cabo de madrugada, subvertendo esse espaço de distração para inserir um horror
cósmico e alienígena.
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Fragmentação Narrativa e Desorientação
Em vez de
usar sustos fáceis, a tensão em Buffet Infinity nasce de forma metódica
e lentíssima através das camadas dos comerciais.
O terror
analógico funciona melhor quando manipula o mundano, e o diretor faz isso
exigindo que o público aja como detetive de um pesadelo. Os detalhes são
entregues escondidos no meio de peças publicitárias vergonhosas
("cringe") e propositalmente ridículas.
O Consumismo como o Verdadeiro Monstro
Agindo como
um sucessor espiritual do terror cômico A Coisa (The Stuff, de Larry
Cohen), o verdadeiro antagonista de Buffet Infinity é o capitalismo em
estágio terminal. Assistir ao apocalipse enquanto empresas ainda tentam
desesperadamente vender fones de ouvido mostra uma sociedade tão viciada no
consumo que é incapaz de interromper seus comerciais mesmo para lutar pela
própria sobrevivência.
A experiência
visual atua tanto como um ataque sensorial quanto uma sátira sombria. É uma
obra feita para punir e recompensar na mesma medida aqueles dispostos a
decifrar sua programação macabra.
Ficha Técnica |
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Título: Buffet Infinitiy |
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Diretor: Simon Glassman |
|
Roteiro: Allison Bench, Simon Glassman, Elisia
Snyder |
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Elenco: Kevin Singh, Ahmed Ahmed, Brandon Vanderwall |
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Produção: Peterson Polaris |
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Distribuição: Yellow Veil Pictures |
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Ano: 2025 |
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País: Canadá |
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sábado, setembro 12, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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