Substituindo a "dinossauro mania" dos anos 90, os unicórnios se consolidaram no século XXI não apenas como símbolos de bilionárias startups financeiras, mas como representações de uma positividade tóxica que mascara o hipercapitalismo predatório. Essa transição cultural é o alvo da bizarra comédia de terror "Buddy" (2026), do diretor Casper Kelly. Ao transformar a nostalgia dos antigos e eufóricos programas infantis de TV em um pesadelo surreal e labiríntico, o longa utiliza seu autoritário mascote laranja para expor a barbárie, a padronização e o controle ocultos sob a fachada colorida do mundo corporativo contemporâneo.
Os unicórnios
estão chegando no século XXI. Se nos anos 90 a dinossauro mania dominou, desde Jurassic
Park, agora os unicórnios se espalham como símbolos da cultura pop ao mundo cinza
da financeirização - clique aqui.
Como esse Cinegnose
afirmou quando analisamos o filme Death of a Unicorn (2025): se em 1993
tínhamos dinossauros (cujas estrelas mortais em tiranossauros e velociraptors),
agora em 2025 tivemos os míticos e diáfanos unicórnios. Igualmente capazes de
perpetrar massacres em uma rica propriedade em algum tipo de reserva selvagem
nas Montanhas Rochosas.
Essa invasão
não é acidental: o unicórnio moderno reflete o zeitgeist da
financeirização global e a proliferação das chamadas startups
"unicórnio" (empresas avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares). Essa
criatura mágica e colorida funciona como uma cortina de fumaça ideológica: uma
positividade inabalável e irracional que mascara o hipercapitalismo predatório,
a exploração bilionária e a instabilidade do mercado.
No filme Buddy
(2026) dirigido
por Casper Kelly (famoso pelo curta viral Too Many Cooks), o fato de o vilão
ser um unicórnio laranja antropomorfizado não é um mero detalhe. Buddy
representa exatamente essa positividade tóxica e artificial.
Ele é o
apresentador de um programa de TV ao estilo dos anos 80 e 90 que exige amor
incondicional e sorrisos constantes de suas crianças. Quando uma criança
desobedece, a "mágica" quebra, revelando a violência latente sob a
superfície.
![]() |
A maioria das
pessoas que cresceram e se tornaram adultas nos anos 80 e 90 provavelmente se
deparou com um daqueles programas de TV infantis excessivamente alegres, com
bichinhos de pelúcia, vários personagens secundários simpáticos e um grupo de
crianças cantando em harmonia e fazendo tarefas diárias com um sorriso no
rosto. Na verdade, estou falando principalmente de "Barney e Seus
Amigos" (e seu dinossauro roxo), um pouco de Vila Sésamo, Pee-wee's
Playhouse e Teletubbies.
Esses são os
programas que não só eram presença constante em nossas vidas depois da escola,
como também estão no cerne da estranha e hilária comédia de terror
"Buddy", que os satiriza alegremente com finais brilhantemente
sombrios e repletos de sangue.
Buddy é,
portanto, o reflexo perfeito do unicórnio corporativo moderno apontado por este
Cinegnose: uma embalagem fofa, nostálgica e hipercolorida projetada para
oprimir, padronizar comportamentos e esconder a barbárie de sua própria
engrenagem.
O filme Buddy
é uma das obras mais instigantes do recente subgênero de mascot horror.
Misturando sátira, terror e metalinguagem, o filme disseca a estética da
televisão infantil com uma acidez ímpar.
![]() |
Ao mesmo
tempo, Buddy é um filme alegremente bizarro e estranho. Um “weird movie”
- filme estranho no sentido freudiano de “das Unheimliche”, “o estranho”
- a sensação de medo ou espanto que surge quando algo que nos é familiar e
antigo se torna de repente estranho e ameaçador.
O filme não só
apresenta elementos excêntricos, mas também subverte ativamente a estrutura
narrativa convencional, utilizando a lógica dos sonhos, o surrealismo e a
desorientação do espectador.
O Filme
Buddy
transforma a aura reconfortante desses programas infantis do século passado em
algo com contornos de seita. A musiquinha tema do filme ("You love
Buddy, yes you do!"), cantada no ritmo de Brilha Brilha Estrelinha,
passa de ingênua a assustadoramente coercitiva.
O diretor
Casper Kelly parece entender que, para o público adulto de hoje, a felicidade
pasteurizada e os sorrisos fixos da TV dos anos 90 soam inerentemente
opressivos, operando uma lavagem cerebral disfarçada de lições de moral.
A trama
intercala duas realidades. No "mundo real", acompanhamos Grace
(Cristin Milioti), uma mulher obcecada em investigar um programa infantil
esquecido chamado "It's Buddy!", que agora assume o status de lost
media (mídia perdida), sem registros oficiais na TV.
A outra
realidade se passa dentro do programa, onde um grupo de crianças vive
preso num cenário colorido e é forçado a cantar, dançar e venerar Buddy
(dublado por Keegan-Michael Key), um unicórnio laranja que pune severamente
qualquer desvio de comportamento.
A
protagonista desse núcleo interno é uma garotinha chamada Freddy (Delaney
Quinn). Quando Freddy e outras crianças começam a questionar as regras do
programa e fogem do cenário principal, a fachada afável de Buddy se desintegra
em acessos de fúria violenta.
Conforme as
crianças desbravam a "floresta" fora do set, o filme abandona
o formato do programa de TV e se revela um labirinto bizarro. Descobrimos que o
show nunca foi apenas uma transmissão televisiva; Buddy é uma entidade
paranormal que utiliza os próprios aparelhos de TV como poços/portais para
abduzir crianças e pessoas para o seu purgatório de lona e espuma.
O que começa
parecendo um filme tradicional de slasher com mascote rapidamente
desmorona em uma experiência surreal.
Casper Kelly
brinca com o formato: o filme sofre alterações de razão de aspecto (começando
em 4:3 clássico de TVs de tubo e depois se expandindo), muda sua mixagem de som
(do estéreo plano para 5.1) e quebra a quarta parede.
O longa
insere múltiplos falsos finais, subtramas caóticas e abandona o terror
convencional para se tornar um pesadelo fragmentário e existencial. A realidade
dentro e fora da TV entra em colapso, encaixando-se perfeitamente no panteão
dos filmes "estranhos" que priorizam a desconstrução ao invés da
coerência lógica.
![]() |
A referência ao Mágico de Oz
Se Buddy
é um reflexo dessa onda dos unicórnios na cultura pop, ao se referir à cultura
pop nada melhor do que fazer uma alusão explícita ao clássico O Mágico de OZ
(1939) – certamente, dos clássicos, a produção com maior influência na cultura
midiática contemporânea.
A jornada
narrada em Buddy tem ecos propositais de O Mágico de Oz. Segundo
o próprio diretor Casper Kelly, a transição estética no filme — pulando das
paletas e do formato de tela restrito do programa infantil dos anos 90 para um
formato widescreen com uma estética diferente — foi diretamente
inspirada quando Dorothy abre a porta e sai do tom sépia para o technicolor de
Oz.
Além do
truque visual, há um espelhamento narrativo. Quando as crianças tentam escapar
do cenário principal ("Diamond City", um claro aceno à “Cidade das
Esmeraldas” do filme clássico), elas embarcam em uma jornada road-trip
por uma "floresta perigosa" no submundo do estúdio.
Pelo caminho,
interagem com personagens bizarros que funcionam como os companheiros de
Dorothy — como o macabro Charlie the Train e o boneco Willie (dublado por
Michael Shannon) —, numa busca não para voltar para casa, mas para descobrir
quem puxa as cordas por trás da cortina daquele falso mundo mágico.
Ficha Técnica |
|
Título:
Buddy |
|
Diretor:
Caspar Kelly |
|
Roteiro:
Caspar Kelly, Jamie King |
|
Elenco:
Cristian Milioti, Delaney Quinn, Topher Grace |
|
Produção:
Boulderlight Pictures |
|
Distribuição:
Saban Films |
|
Ano: 2026 |
|
País: EUA |
|
|
As
raízes ocultas do filme "O Mágico de Oz"
sexta-feira, setembro 04, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




