sexta-feira, setembro 04, 2026

Crianças, unicórnios e a fachada colorida do mundo corporativo contemporâneo em "Buddy"


Substituindo a "dinossauro mania" dos anos 90, os unicórnios se consolidaram no século XXI não apenas como símbolos de bilionárias startups financeiras, mas como representações de uma positividade tóxica que mascara o hipercapitalismo predatório. Essa transição cultural é o alvo da bizarra comédia de terror "Buddy" (2026), do diretor Casper Kelly. Ao transformar a nostalgia dos antigos e eufóricos programas infantis de TV em um pesadelo surreal e labiríntico, o longa utiliza seu autoritário mascote laranja para expor a barbárie, a padronização e o controle ocultos sob a fachada colorida do mundo corporativo contemporâneo.

Os unicórnios estão chegando no século XXI. Se nos anos 90 a dinossauro mania dominou, desde Jurassic Park, agora os unicórnios se espalham como símbolos da cultura pop ao mundo cinza da financeirização - clique aqui.

Como esse Cinegnose afirmou quando analisamos o filme Death of a Unicorn (2025): se em 1993 tínhamos dinossauros (cujas estrelas mortais em tiranossauros e velociraptors), agora em 2025 tivemos os míticos e diáfanos unicórnios. Igualmente capazes de perpetrar massacres em uma rica propriedade em algum tipo de reserva selvagem nas Montanhas Rochosas.

Essa invasão não é acidental: o unicórnio moderno reflete o zeitgeist da financeirização global e a proliferação das chamadas startups "unicórnio" (empresas avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares). Essa criatura mágica e colorida funciona como uma cortina de fumaça ideológica: uma positividade inabalável e irracional que mascara o hipercapitalismo predatório, a exploração bilionária e a instabilidade do mercado.

No filme Buddy (2026) dirigido por Casper Kelly (famoso pelo curta viral Too Many Cooks), o fato de o vilão ser um unicórnio laranja antropomorfizado não é um mero detalhe. Buddy representa exatamente essa positividade tóxica e artificial.

Ele é o apresentador de um programa de TV ao estilo dos anos 80 e 90 que exige amor incondicional e sorrisos constantes de suas crianças. Quando uma criança desobedece, a "mágica" quebra, revelando a violência latente sob a superfície.




A maioria das pessoas que cresceram e se tornaram adultas nos anos 80 e 90 provavelmente se deparou com um daqueles programas de TV infantis excessivamente alegres, com bichinhos de pelúcia, vários personagens secundários simpáticos e um grupo de crianças cantando em harmonia e fazendo tarefas diárias com um sorriso no rosto. Na verdade, estou falando principalmente de "Barney e Seus Amigos" (e seu dinossauro roxo), um pouco de Vila Sésamo, Pee-wee's Playhouse e Teletubbies.

Esses são os programas que não só eram presença constante em nossas vidas depois da escola, como também estão no cerne da estranha e hilária comédia de terror "Buddy", que os satiriza alegremente com finais brilhantemente sombrios e repletos de sangue. 

Buddy é, portanto, o reflexo perfeito do unicórnio corporativo moderno apontado por este Cinegnose: uma embalagem fofa, nostálgica e hipercolorida projetada para oprimir, padronizar comportamentos e esconder a barbárie de sua própria engrenagem.

O filme Buddy é uma das obras mais instigantes do recente subgênero de mascot horror. Misturando sátira, terror e metalinguagem, o filme disseca a estética da televisão infantil com uma acidez ímpar.




Ao mesmo tempo, Buddy é um filme alegremente bizarro e estranho. Um “weird movie” - filme estranho no sentido freudiano de “das Unheimliche”, “o estranho” - a sensação de medo ou espanto que surge quando algo que nos é familiar e antigo se torna de repente estranho e ameaçador.

O filme não só apresenta elementos excêntricos, mas também subverte ativamente a estrutura narrativa convencional, utilizando a lógica dos sonhos, o surrealismo e a desorientação do espectador.

O Filme

Buddy transforma a aura reconfortante desses programas infantis do século passado em algo com contornos de seita. A musiquinha tema do filme ("You love Buddy, yes you do!"), cantada no ritmo de Brilha Brilha Estrelinha, passa de ingênua a assustadoramente coercitiva.

O diretor Casper Kelly parece entender que, para o público adulto de hoje, a felicidade pasteurizada e os sorrisos fixos da TV dos anos 90 soam inerentemente opressivos, operando uma lavagem cerebral disfarçada de lições de moral.

A trama intercala duas realidades. No "mundo real", acompanhamos Grace (Cristin Milioti), uma mulher obcecada em investigar um programa infantil esquecido chamado "It's Buddy!", que agora assume o status de lost media (mídia perdida), sem registros oficiais na TV.

A outra realidade se passa dentro do programa, onde um grupo de crianças vive preso num cenário colorido e é forçado a cantar, dançar e venerar Buddy (dublado por Keegan-Michael Key), um unicórnio laranja que pune severamente qualquer desvio de comportamento.




A protagonista desse núcleo interno é uma garotinha chamada Freddy (Delaney Quinn). Quando Freddy e outras crianças começam a questionar as regras do programa e fogem do cenário principal, a fachada afável de Buddy se desintegra em acessos de fúria violenta.

Conforme as crianças desbravam a "floresta" fora do set, o filme abandona o formato do programa de TV e se revela um labirinto bizarro. Descobrimos que o show nunca foi apenas uma transmissão televisiva; Buddy é uma entidade paranormal que utiliza os próprios aparelhos de TV como poços/portais para abduzir crianças e pessoas para o seu purgatório de lona e espuma.

O que começa parecendo um filme tradicional de slasher com mascote rapidamente desmorona em uma experiência surreal.

Casper Kelly brinca com o formato: o filme sofre alterações de razão de aspecto (começando em 4:3 clássico de TVs de tubo e depois se expandindo), muda sua mixagem de som (do estéreo plano para 5.1) e quebra a quarta parede.

O longa insere múltiplos falsos finais, subtramas caóticas e abandona o terror convencional para se tornar um pesadelo fragmentário e existencial. A realidade dentro e fora da TV entra em colapso, encaixando-se perfeitamente no panteão dos filmes "estranhos" que priorizam a desconstrução ao invés da coerência lógica.



A referência ao Mágico de Oz

Se Buddy é um reflexo dessa onda dos unicórnios na cultura pop, ao se referir à cultura pop nada melhor do que fazer uma alusão explícita ao clássico O Mágico de OZ (1939) – certamente, dos clássicos, a produção com maior influência na cultura midiática contemporânea.

A jornada narrada em Buddy tem ecos propositais de O Mágico de Oz. Segundo o próprio diretor Casper Kelly, a transição estética no filme — pulando das paletas e do formato de tela restrito do programa infantil dos anos 90 para um formato widescreen com uma estética diferente — foi diretamente inspirada quando Dorothy abre a porta e sai do tom sépia para o technicolor de Oz.

Além do truque visual, há um espelhamento narrativo. Quando as crianças tentam escapar do cenário principal ("Diamond City", um claro aceno à “Cidade das Esmeraldas” do filme clássico), elas embarcam em uma jornada road-trip por uma "floresta perigosa" no submundo do estúdio.

Pelo caminho, interagem com personagens bizarros que funcionam como os companheiros de Dorothy — como o macabro Charlie the Train e o boneco Willie (dublado por Michael Shannon) —, numa busca não para voltar para casa, mas para descobrir quem puxa as cordas por trás da cortina daquele falso mundo mágico.


 

Ficha Técnica

Título: Buddy

Diretor: Caspar Kelly

Roteiro: Caspar Kelly, Jamie King

Elenco: Cristian Milioti, Delaney Quinn, Topher Grace

Produção: Boulderlight Pictures

Distribuição: Saban Films

Ano: 2026

País:  EUA

 

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