Em um cenário onde o subgênero de zumbis parecia criativamente esgotado, o diretor sul-coreano Yeon Sang-ho encontra um novo e assustador fôlego em Colony (2026) ao fundir o clássico tema local da vingança com as ansiedades da nossa era digital. Trocando o tradicional monstro acéfalo por uma horda interligada por fungos que espelha as redes sociais e o comportamento algorítmico moderno, o longa transforma a inteligência de enxame no próximo estágio do terror biológico. Mais do que uma carnificina urbana, o filme constrói uma alegoria trágica sobre a solidão e a falha na comunicação humana, culminando em uma sacada genial e irônica: a de que a única arma capaz de colapsar uma consciência coletiva imbatível é a inoculação de uma desinformação letal — uma verdadeira "fake news" biológica.
Com a abundância
atual de filmes sobre zumbis, fica difícil encontrar uma nova abordagem para a
fórmula: já tivemos zumbis rápidos, zumbis lentos, zumbis apaixonados.
Só no ano
passado, vimos um zumbi chapado com um pênis enorme, em Extermínio: O Templo
dos Ossos. Mas Yeon Sang-ho , diretor do frenético filme de zumbis da
década passada, "Invasão Zumbi", tenta uma nova abordagem com seu
mais recente trabalho, Colony (2026): E se os zumbis pudessem trocar
informações entre si através de uma espécie de consciência coletiva? E se
eles pudessem aprender e evoluir?
A premissa é
perfeita para todo tipo de carnificina acrobática, especialmente com Sang-ho,
que criou um caos deliciosamente claustrofóbico de destruição urbana em Extermínio,
pronto para ser explorado. Mas a premissa de uma mente coletiva zumbi baseada
em mofo não é exatamente inovadora (olá, The Last of Us).
Mas Sang-ho junta-se
a essa recorrência atual de produções, popularizada por obras como The Last
of Us e The Girl with All the Gifts, com o tema de fungos que criam
uma vasta rede de comunicações entre mortos-vivos, associando-o a um tema bem
conhecido da produção audiovisual sul-coreana: o tema da vingança. Não apenas
como um motor narrativo de ação, mas como um mecanismo de crítica estrutural
aguda às falhas da sociedade e do sistema de justiça (como evidenciado na Trilogia
da Vingança de Park Chan-wook ou na série A Lição).
Em Colony
(2026), o diretor Yeon Sang-ho eleva essa tradição a uma escala apocalíptica. O
cientista Seo Young-chul (Koo Kyo-hwan) orquestra um ataque bioterrorista como
uma retaliação punitiva contra uma sociedade que ele julga estar doente e
fundamentalmente em crise. Ele converte o luto pela perda de seu pai em uma
vingança niilista global, forçando na humanidade uma "evolução"
violenta (ele acha que os zumbis seriam o próximo estágio da evolução humana)
que apaga a individualidade que ele culpa por seu sofrimento – uma consciência
coletiva zumbi (uma inteligência de enxame, como formigas) criaria a
transparência necessária para acabar com as mentiras e mal-entendidos de
comunicação.
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Na ficção
recente, o fungo deixou de ser apenas decomposição para simbolizar sistemas,
redes de inteligência paralela e conexões simbióticas. Isso desloca o zumbi da
imagem de "monstro acéfalo" para a de um sistema de rede altamente
adaptável, fundindo o horror biológico com ansiedades modernas sobre redes
neurais artificiais e ecologia.
Mas, o filme
utiliza a inteligência de enxame (swarm intelligence) dos infectados
como uma alegoria direta à nossa relação com a internet, as redes sociais e os
smartphones.
Os zumbis no
filme compartilham dados sensoriais em tempo real através do micélio,
permitindo que, se um deles aprende a contornar um obstáculo, toda a horda é
instantaneamente atualizada.
Isso espelha
o comportamento humano hiperconectado: a disseminação algorítmica de
informações e a sincronização das reações coletivas na rede. Yeon Sang-ho traça
um paralelo sombrio no qual a humanidade contemporânea já opera como uma horda
reativa, onde a conexão ininterrupta produz homogeneidade de pensamento e
conformidade cega, muitas vezes confundida com empatia.
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Essa é exatamente
essa a novidade que Colony acrescente à saga dos zumbis no cinema e
audiovisual: os zumbis não são mais a horda antítese da civilização. Com essa
inesperada consciência (ou inteligência) coletiva, os zumbis passam a espelhar
as “machines learning” das engenharias das inteligências artificiais e a crição
das bolhas algorítmicas das redes sociais.
O Filme
Durante uma
prestigiosa conferência de biotecnologia no Edifício Dongwoo-ri, no centro de
Seul, o cientista Seo Young-chul deflagra um ataque bioterrorista premeditado
ao liberar uma cepa mutante de micélio zumbi. Antes que a infecção se espalhe
pelas saídas de ar, ele injeta em si mesmo a única dose da vacina existente. As
autoridades colocam o arranha-céu inteiro sob rígida quarentena, deixando um
pequeno grupo de sobreviventes presos lá dentro.
Entre eles
estão a professora de biotecnologia Kwon Se-jeong (Jun Ji-hyun), que acaba de
perder o emprego, e o segurança do prédio Choi Hyun-seok (Ji Chang-wook),
desesperado para proteger a vida de sua irmã, que é cadeirante.
Conforme os
sobreviventes tentam escalar os andares rumo ao resgate no telhado, eles
percebem que a infecção difere dos zumbis tradicionais. Através do micélio, os
infectados compartilham dados em tempo real, evoluindo a cada confronto e
adotando táticas predatórias em conjunto. A situação se agrava terrivelmente
quando Se-jeong (Jun Ji-hyun) descobre que Young-chul, imune devido à vacina,
consegue enxergar pelos olhos da horda, atuando como o nó de comando alfa e
manipulando os zumbis para encurralar os sobreviventes.
No terceiro
ato, Se-jeong percebe que a força dos zumbis (sua conectividade inquebrável)
também é sua fraqueza. Ela veste um casaco impregnado de fundos retirados de um
infectado morto, fazendo a horda reconhecê-la como "uma de nós".
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Quando
Young-chul ordena o ataque maciço, ela joga o casaco sobre um dos próprios
zumbis, forçando o enxame a atacar aquilo que identifica como sendo parte de
si. Isso desencadeia um "moinho de formigas" (ant mill), uma
espiral mortal onde a rede inteira entra num feedback loop irreversível,
andando em círculos circulares suicidas até que o excesso de dados causa um
colapso em seu sistema neurológico coletivo.
A Ironia da Inoculação de "Fake News"
Uma das
grandes sacadas estratégicas do filme ocorre quando os humanos usam o
"perfeito" sistema de comunicação zumbi contra a própria horda.
Sabendo que o
enxame aprende e obedece via comandos compartilhados, a professora de
biotecnologia Kwon Se-jeong introduz um sinal falso no sistema. Essa
"desinformação biológica" causa uma falha na lógica do micélio,
forçando os infectados a atacarem a si mesmos por não conseguirem processar o
paradoxo. A ironia central é palpável: o ponto fraco de uma rede coletiva
imbatível é a desinformação.
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Assim como
"fake news" envenenam e colapsam o discurso político e as redes
sociais humanas através de loops de ênfase algorítmica, o sinal falso
sobrecarrega os zumbis até a paralisação.
Aqui começa essa
espécie e espelhamento que o filme faz entre a a consciência coletiva zumbi e a
Internet. Um espalhamento através da metáfora dos fungos resultantes da engenharia
de uma Bio Tech.
O que traz
uma ironia que, também, espelha o próprio destino da Internet.
A motivação
central do bioterrorista Young-chul nasce de uma tragédia íntima: o suicídio de
seu pai, causado pela ineficiência e pelas ambiguidades da comunicação humana.
Para o vilão,
a linguagem verbal e emocional da humanidade é falha, cheia de ruídos, mentiras
e mal-entendidos que isolam as pessoas em sua própria solidão. Ele enxerga a
consciência coletiva zumbi não como uma maldição, mas como a cura definitiva. Através
da rede criado pelos fungos, a comunicação torna-se perfeitamente transparente
— não há espaço para mentir, se esconder ou ser mal interpretado.
A ironia
trágica do cientista é tentar consertar o isolamento humano erradicando a
própria humanidade.
Assim como a
ironia do destino da utopia da World Wide Web do início dos anos 1990: o ideal
da Internet ser uma biblioteca universal disponível gratuitamente para criar uma
verdadeira “inteligência coletiva” (Apud Pierre Levy), acabou no século XXI num
ecossistema informacional tóxico. Contaminado pelas Fake News e Deep Fakes.
Ficha Técnica |
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Título: Colony |
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Diretor: Yeon Sang-ho |
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Roteiro: Choi Kyu-seok, Yeon Sang-ho |
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Elenco: Jun Ji-hyun, Koo Kyo-hwan, Ji Chang-wook |
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Produção: Smilegate, Wow Point |
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Distribuição: Paris Filmes |
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Ano: 2026 |
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País: Coréia do Sul |
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zumbi precarizado e explorado pelo Capitalismo Tardio em 'Nós Somos Zumbis' |
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quinta-feira, setembro 17, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira

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