Ao abrir “A Odisseia” (2026) não pelo texto homérico, mas pelo claustrofóbico ardil do Cavalo de Tróia, Christopher Nolan expõe de imediato a espinha dorsal de sua adaptação: o triunfo da astúcia sobre o destino. Ao converter os deuses gregos em projeções clínicas e neuroses de Odisseu, o diretor mergulha o mito no zeitgeist terapêutico do século XXI, trocando o fatalismo da Tragédia clássica pela autogestão emocional. Contudo, essa tentativa de "psicologizar" o épico produz uma ironia fulminante: longe de apenas modernizar a narrativa, o filme confirma involuntariamente a célebre tese freudomarxista de Theodor Adorno e Max Horkheimer em “A Dialética do Esclarecimento”. Ao subjugar a fé, a honra e o instinto ao cálculo utilitário e à pura gestão de crise, o Odisseu de Nolan reafirma o mito como o berço da razão instrumental — revelando que o sujeito contemporâneo continua, como há milênios, domesticando a própria natureza para servir à fria engrenagem da sobrevivência.
De cara, o
que chama a atenção na A Odisseia (The Odyssey, 2026), a
interpretação de Christopher Nolan para a obra clássica de Homero, fundadora da
literatura ocidental, é começar com a história do Cavalo de Tróia.
Essa história
não é contada na “Odisseia” de Homero, e nem na predecessora, “Ilíada”, também
de Homero. Ela foi tirada de histórias de outros poetas, muito provavelmente da
Eneida de Virgílio, escrita séculos depois de Homero.
E em vez da
imagem padrão do cavalo em pé sobre quatro patas (como um brinquedo de
criança), ele é apresentado parcialmente enterrado em águas rasas em uma praia,
posicionado como se estivesse se erguendo sobre as patas traseiras da areia, e
precisa ser arrastado sobre uma plataforma de toras rolantes. Odisseu, seu
amigo Menelau (Jon Bernthal) e os outros guerreiros gregos estão amontoados lá
dentro, um emaranhado de membros e rostos. Somos informados de que eles
estiveram lá por dias e que vários deles morreram antes da chegada dos
troianos, o que levanta questões de higiene que o filme, felizmente, não
aborda; presumivelmente, o cheiro de carne morta mascarava outros odores.
Na adaptação do
roteiro, Nolan tomou algumas liberdades. Em nome da expansão e da unificação
simultâneas de vários relatos dos feitos de Odisseu, a serviço de um objetivo
maior e mais elusivo: a psicologização do Mito, dentro do zeitgeist do século
XXI, e uma secreta conexão com a interpretação que Theodor Adorno e Max
Horkheimer fizeram da Odisseia no primeiro capítulo do livre “Dialética do
Esclarecimento”.
Em sua
essência, A Odisseia ainda é sobre um guerreiro lendário e rei de Ítaca,
amado marido de sua esposa Penélope (Anne Hathaway), que espera fielmente por
seu retorno enquanto pretendentes desprezíveis comem sua comida, bebem seu
vinho e "corrompem" seus servos, na esperança de que ela finalmente
ceda, escolha um deles e se case novamente. Odisseu é um pai carinhoso para seu
filho Telêmaco (interpretado na fase adulta por Tom Holland).
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O filme narra
como ele e suas tropas deixaram Ítaca para lutar na Guerra de Troia, ficaram
presos naquele atoleiro por dez anos e vagaram por mais uma década por razões
que podem ser culpa dele, resultado dos caprichos dos deuses ou uma mistura de
ambos.
O ardil de
Odisseu vs. a “Lei de Zeus” é um conflito recorrente por toda a jornada de
volta a Ítaca para reencontrar com a esposa Penélope. Desde a artimanha do
Cavalo de Troia como um presente mortal até os diversos truque que o
protagonista utiliza para enganar o destino e os deuses (o episódio do Ciclope,
a bruxa Circe até a armadilha da vingança final em que Odisseu se disfarça de
mendigo para enganar os pretendentes da sua esposa), o ponto central é como ele
subverte a Lei de Zeus e subverte a ira dos deuses. Como Poseidon, enviando
tormentas e rodamoinhos no oceano.
Dessa
maneira, os deuses — como Atena (Zendaya) e a ninfa Calipso (Charlize Theron) —
não operam como forças externas do destino, mas como manifestações das
próprias emoções e traumas de Odisseu. O fatalismo grego cede espaço ao
livre-arbítrio.
A
interpretação de Nolan captura o espírito do século XXI ao psicologizar o
mito. Onde o homem da antiguidade enxergava a vontade dos deuses (daí, a “tragédia”
como condição humana diante do arbítrio dos deuses), o indivíduo contemporâneo
lê mecanismos de defesa, projeções e ansiedades. A linguagem do filme absorve
abertamente o jargão terapêutico atual, refletindo uma era profundamente focada
na autogestão emocional e na codificação clínica do sofrimento.
O que acaba ironicamente
confirmando a interpretação freudomarxista de Adorno e Horkheimer sobre, para
os autores, a obra fundadora do Iluminismo moderno: Odisseu é, originalmente, o
homem da astúcia e do cálculo utilitário. O triunfo da Razão Instrumental - a
razão burguesa exige que o indivíduo seja intercambiável, um mero número ou
ponto de cálculo.
Odisseu
sobrevive ao anular a si mesmo, mostrando que a razão instrumental esvazia o
sujeito de sua singularidade.
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O Filme
Em A
Odisseia, de Christopher Nolan, o lendário rei Odisseu (Matt Damon)
enfrenta uma travessia física e mental exaustiva para retornar ao seu reino,
Ítaca, após a Guerra de Troia, e reencontrar sua esposa, Penélope, após anos de
ausência. O que tradicionalmente seria uma aventura marítima ditada pelo
destino transforma-se em um tenso thriller psicológico e político de
sobrevivência.
Isolado e à
beira do colapso, Odisseu confronta os limites de sua própria sanidade. Figuras
como a estrategista Atena (Zendaya) e a sedutora Calipso (Charlize Theron) não
se manifestam como entidades mágicas dos céus, mas como projeções
hiper-realistas e internalizadas de seus próprios traumas, instintos de
autopreservação e delírios. A jornada pelo oceano reflete uma luta para
domesticar os próprios demônios internos através do cálculo racional – o ardil,
inteligência estratégica e cálculo racional.
Ao finalmente
ancorar em Ítaca, o herói não encontra alívio, mas um palácio sitiado por 108
pretendentes que buscam usurpar seu poder, sua riqueza e sua esposa.
No épico
original de Homero, o clímax da jornada é o massacre brutal no grande salão:
Odisseu, auxiliado por Telêmaco e por Atena, tranca as portas e extermina
fisicamente os 108 pretendentes que consumiam suas riquezas. Essa violência
purificadora e mítica, no entanto, geraria no texto antigo uma guerra civil,
interrompida apenas por um deus ex machina (a intervenção mágica da
deusa da sabedoria).
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Em Nolan, testemunhamos
o último ardil de Odisseu: entronar o seu filho como rei enquanto Odisseu e sua
esposa saem num “autoexílio” navegando em direção ao crepúsculo. Numa encenação
pública em ambiente saturado com signos de paz e conciliação, enquanto, nos
bastidores, consolida o poder absoluto e inquestionável do monarca.
O Triunfo Definitivo da Razão Instrumental
Voltando a
Adorno e Horkheimer, esse desfecho é a cristalização do sujeito burguês astuto.
O Odisseu de Nolan entende que o derramamento de sangue é, no fundo,
ineficiente. A paixão vingativa (a natureza mítica, o impulso) é reprimida em
favor do cálculo utilitário (a razão instrumental, o lucro). O "tour"
de relações públicas é a mercantilização da própria honra; a moralidade e a
justiça são reduzidas a puras técnicas de administração de crises e gestão de
imagem.
Para os
expoentes da Escola de Frankfurt, poema épico não é apenas uma aventura
mitológica, mas uma alegoria fundadora da civilização ocidental e o
registro do nascimento da razão instrumental.
Odisseu é
interpretado como o primeiro indivíduo burguês moderno, um sujeito que
utiliza o cálculo e a astúcia para sobreviver e dominar o mundo ao seu redor.
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Também é
irônico como a passagem simbolicamente mais importante da Odisseia (o canto
mortal das sereias) passe rapidamente pelo filme, sem o devido tratamento
dramático – arrancando até um humor involuntário.
O encontro com as sereias é a metáfora mais
célebre do livro “Dialética do Esclarecimento” para explicar a divisão de
classes e a alienação na sociedade capitalista. Para passar pelas sereias em
segurança e ainda assim ouvir seu canto (que representa o prazer, a felicidade e
a arte), Odisseu cria uma estratégia baseada na divisão do trabalho:
- Os marinheiros (O proletariado): Têm os
ouvidos tapados com cera e são instruídos a remar com todas as forças,
olhando apenas para a frente. Eles não podem ouvir o canto nem se
distrair; sua função é apenas o trabalho alienado. A eles é negado o
acesso ao prazer e à cultura.
- Odisseu (A burguesia/O patrão): Ele
está amarrado ao mastro, com os ouvidos destapados. Ele tem o privilégio
de fruir a arte e o prazer, mas está fisicamente imobilizado. Sua fruição
é castrada, separada da ação prática (práxis). Odisseu é o precursor do
consumidor moderno de arte: ele contempla, mas não pode agir.
Ou o precursor
da “vida inautêntica”, o efeito mais deletério da mercantilização da cultura: a
cisão ou contradição entre a teoria e a prática, entre a fala e a ação, entre
as ideias que apoiamos e aquilo que efetivamente nós fazemos.
Por exemplo,
posso ser um avido comprador de vinis e CDs de rock grunge ou indie. Ir a shows
e confraternizar com slogans críticos ao sistema e contra a hipocrisia da
sociedade. Enquanto tenho uma perfeita vida pequeno-burguesa, dessas das
famílias em tons pasteis de comerciais de margarina ou produtos matinais. Para
mim, sonoridade e letras das músicas tornam-se mera “atitude” ou “estilo”.
Não importa
se as letras das músicas denunciem a própria hipocrisia da minha vida. Tudo
vira apenas uma questão de se entreter com músicas “cabeça”, “críticas”.
Ficha Técnica |
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Título: A Odisseia |
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Diretor: Christopher Nolan |
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Roteiro: Christopher Nolan |
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Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway,
Robert Pattinson |
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Produção: Universal Pictures |
|
Distribuição: Universal Pictures International |
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Ano: 2026 |
|
País: EUA |
sexta-feira, setembro 18, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira

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