Assistir
a Toy Story 5 é a oportunidade de finalmente entender o ponto nevrálgico
da Hollywood contemporânea: a incapacidade de lidar com problemas sistêmicos
sem reduzi-los a dilemas morais individuais.
A mais
recente adição a uma franquia da Pixar que muitos esperavam que terminasse com
o terceiro filme, apropriadamente comovente, está de volta, com uma abordagem
diferente do medo do abandono sentido pelos humanos que envelhecem,
representado por essas figuras sencientes em forma de brinquedos infantis.
Dessa
vez, o medo dos brinquedos (em sua divertida vida secreta quando os humanos não
estão olhando para eles) não é o abandono pelo envelhecimento das crianças – de
resto, a projeção do próprio sentimento de “ninho vazio dos pais”, isto é, o
momento que os pais que temem: o dia em que seus filhos não precisarão mais
deles ou não os desejarão mais.
Agora a
ameaça é muito mais pervasiva: substituiu o inevitável amadurecimento
cronológico pela acelerada atualização tecnológica – o brincar e o fazer de
conta substituídos pela guerra biomecânica pela atenção: o tempo algorítmico
das telas que hipnotizam as atenções infantis.
Com
isso a franquia tenta atualizar a sua relevância, mas acaba esbarrando no
próprio moralismo: a armadilha moralista de reduzir toda a questão do sequestro
das atenções infantis pelas telas e gadgets a “escolhas conscientes”, “más
companhias” e a falta de limites parentais.
O longa
opta pelo caminho esse caminho mais confortável: ao culpar as "más
companhias" e a falta de limites parentais, Toy Story 5. Ao focar no
esforço homérico de Jessie para afastar Bonnie das amigas "viciadas em
tela", o roteiro reduz o vício digital a uma questão de influência social
ou fraqueza de caráter.
O filme
ignora voluntariamente a arquitetura de engajamento dos gadgets.
Não há menção ao fato de que as plataformas são desenhadas por neurocientistas
para sequestrar a dopamina infantil. Na narrativa de Toy Story 5, o tablet
Lilypad (o vilão da história) é apenas um brinquedo ruim, e não uma máquina de
extração de mais-valia atencional.
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Toda a
história acompanha a clássica narrativa “movie chase” (filme de perseguição), a
quintessência do cinema norte-americano: a jornada da vaqueira Jessie em uma
trama complexa de, com a ajuda de Buzz Lightyear (e um pelotão rebelde de
Buzzes aprimorados computacionalmente), encontrar a melhor amiga para a sua
dona, Bonnie – uma criança que ficou hipnotizada pelo tablet Lilypad, fazendo
jogos on line com novos amigos tóxicos.
Jessie
quer encontrar uma garota incrível chamada Blaze, uma verdadeira amante de
cavalos e entusiasta de brinquedos que mora em uma fazenda e poderia ser uma
ótima melhor amiga para Bonnie.
Porém, há
um tema muito subaproveitado em Toy Story 5, que acabou em segundo plano
devido a agenda moralista hollywoodiana: a atrofia do imaginário infantil pelo
hiper-realismo das telas.
O filme
apenas tangencia com a morte da capacidade cognitiva humana de criar realidades
imaginárias a partir do vazio. O brinquedo tradicional (o plástico rígido
de Woody ou Buzz) é imperfeito; ele exige o erro, o silêncio e o
preenchimento criativo da criança. A boneca de pano só ganha vida se o
imaginário infantil trabalhar para suprir sua imobilidade.
Lembrando os insights do pensador alemão Walter Benjamin.
Nas
telas e nos jogos de plataforma online, não há espaço vazio. O realismo
gráfico e a física perfeitamente programada entregam o mundo pronto. A
criança não precisa projetar o "faz de conta", pois a tela já faz o
conta por ela. O imaginário atrofia por hipertrofia do estímulo.
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Em
vários momentos do longa, aparecem linhas de diálogo com o tema do “faz de
conta” infantil em contraponto ao vício pelas telas. E até reforçado pelas
sequências em que os brinquedos se transfiguram em seres imaginários quando
Bonnie e Blaze brincam com os brinquedos no quarto.
Mas
tudo é de passagem, como sequências para preencher lacunas narrativas.
O Filme
Estamos
de volta ao mundo dos brinquedos e suas existências secretas, levando vidas
independentes de forma hilária quando as crianças não estão olhando: Jessie, a
vaqueira (Joan Cusack), ainda pertence à garota chamada Bonnie (Scarlett
Spears) do quarto filme, junto com vários outros brinquedos, incluindo o fiel
Buzz Lightyear (Tim Allen), o astronauta que é timidamente apaixonado por
Jessie.
Enquanto
isso, o lendário parceiro de Buzz, o caubói Woody (Tom Hanks) – cuja antiga
rivalidade com Buzz se baseava no fato, hoje praticamente esquecido, de que
histórias de ficção científica substituíram os faroestes na cultura pop
americana – vive longe deles, em uma espécie de existência selvagem ao ar
livre, longe do controle humano, com outros brinquedos, e tem um relacionamento
amoroso com Bo Peep (Annie Potts).
A pobre
e tímida Bonnie é ostracizada por ser a única criança em quilômetros ao redor
que ainda brinca com brinquedos e não está hipnotizada por um dispositivo
tecnológico. Quando ganha um Lilypad, ela fica inicialmente encantada com a
conexão que ele proporciona a outras meninas, mas logo é atraída para um mundo
de crueldade e bullying online.
Enquanto
isso, Jessie, encontra uma garota incrível chamada Blaze (Mykal-Michelle
Harris), uma entusiasta de brinquedos analógicos que mora em uma fazenda e que poderia
ser uma ótima melhor amiga para Bonnie.
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Surge
uma nova turma de heróis modestos: dispositivos proto-tecnológicos obsoletos
movidos a bateria com telas de LCD, como o Smarty Pants (Conan O'Brien), um
dispositivo para ensinar a crianças como usar o vaso sanitário, cuja função
narrativa talvez seja apresentar a ideia de que a tecnologia talvez não seja de
todo ruim.
O que Walter Benjamin diria sobre Toy Story?
O
crítico e filósofo alemão dedicou ensaios brilhantes aos brinquedos, à infância
e à cultura de massa (especialmente em textos como Brinquedos e Jogos e História
Cultural dos Brinquedos).
Se
aplicarmos a lente de Benjamin a Toy Story 5, percebemos que o filme não
está apenas narrando uma crise contemporânea; ele é, em si, um sintoma da
industrialização total da infância que Benjamin já denunciava na primeira
metade do século XX.
Uma das
teses mais contundentes de Benjamin é a de que o brinquedo industrializado
não nasce da cultura infantil, mas sim da cabeça do adulto. O adulto
projeta no objeto sua própria visão de mundo, suas fantasias de ordem e,
principalmente, seus medos.
Em Toy
Story 5, essa engrenagem fica escancarada. A franquia sempre flertou com a
ideia de que os brinquedos possuem uma "missão" (servir à criança),
mas o quinto filme cruza uma linha perigosa: os brinquedos deixam de ser
parceiros de aventura para se tornarem agentes de vigilância e correção
moral.
A
neurose do controle: quando Jessie se desespera para afastar Bonnie das
amigas "viciadas em tela", ela não está agindo como um brinquedo que
quer ser jogado; ela está agindo como o alter ego de um pai ou mãe de classe
média ansioso com o tempo de tela do filho.
Para
Benjamin, a indústria de brinquedos da modernidade serve para domesticar o
potencial revolucionário da criança. Em vez de a sociedade discutir porque as
cidades não têm mais espaços seguros para o brincar analógico, ou porque a
economia da atenção é desregulamentada, o filme joga a responsabilidade no
microcosmo das "escolhas certas". O brinquedo vira o guardião de uma
moralidade higienista.
Seguindo
o insight de Walter Benjamin, o adulto tenta criar um mundo infantil
fechado e seguro por puro medo do imprevisto. Em Toy Story 5, os
brinquedos viram os "xerifes" dessa segurança, tentando forçar Bonnie
a viver uma infância idealizada e nostálgica que os próprios adultos criaram em
seus roteiros de cinema.
A Atrofia do Imaginário e a Ditadura do Objeto Concluído
Benjamin
faz uma distinção crucial entre o brinquedo artesanal (ou o resíduo) e o
brinquedo industrializado moderno. Para ele, as crianças têm uma atração
natural por restos de materiais — pedaços de madeira, tecidos,
engrenagens quebradas.
Por que
a criança ama o "lixo"? Porque o objeto incompleto possui o maior coeficiente
de irrealidade possível. Uma caixa de papelão pode ser um foguete, um
castelo ou um monstro; ela exige que a imaginação da criança trabalhe em
potência máxima para preencher o vazio material.
O que
acontece quando o brinquedo é "perfeito demais"?
O Brinquedo Totalizante e a tela como fim da linha
Benjamin
criticava os brinquedos alemães de sua época que vinham prontos, cheios de
detalhes realistas, miniaturas perfeitas do mundo burguês (como casinhas de
boneca com talheres de verdade). Ele dizia que esses brinquedos transformavam a
criança em uma consumidora passiva da imaginação do fabricante.
O smartphone
e o jogo de plataforma online são o ápice desse processo de
"conclusão" do objeto que Benjamin temia: a falta de frestas através
das quais o imaginário possa surgir.
Por
exemplo, no videogame hiper-realista, se você atira em uma parede, o
motor gráfico calcula o dano, a poeira e o som exato do impacto. Não há o que
imaginar. A simulação engoliu a possibilidade do erro.
Ficha Técnica |
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Título: Toy Story 5 |
|
Diretor: McKenna Harris,
Andrew Stanton |
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Roteiro: Andrew Stanton,
McKenna Harris |
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Elenco: Tom Hanks, Tim
Allen, Joan Cusack |
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Produção: Pixar Animation
Studios |
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Distribuição: Walt Disney
Studios |
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Ano: 2026 |
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País: EUA |
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sábado, julho 18, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira




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