terça-feira, março 31, 2026

O Cadáver que Caminha: a ascensão do machismo zumbi em 'Por Dentro da Machosfera'


O documentário Netflix “Louis Theroux: Por dentro da Machosfera” (Louis Theroux: Inside the Manosphere, 2026), revela um ecossistema digital que é, ao mesmo tempo, um refúgio de ressentimento e um laboratório de novas formas de dominação. Para entender a profundidade desse fenômeno, a chave não está apenas no machismo clássico, mas em como ele se funde à pós-meritocracia do novo ecossistema digital neoliberal. Esqueça o patriarca conservador de eras vitorianas ou o "macho provedor" do século XX. O que habita as profundezas do ecossistema digital atual não é o velho machismo de nossos avós, mas uma mutação futurista, cínica e profundamente ressentida. No documentário, o jornalista britânico Louis Theroux mergulha em uma subcultura de influenciadores red pill e incels para revelar que a misoginia contemporânea é, na verdade, um "Machismo Zumbi".

Em toda a discussão atual sobre machismo e misoginia associados ao crescimento de influencers red pills e Incels e a escalada política refletida na polarização ideológica, há um mal-entendido: essas figuras online formadas por homens ressentidos contra as mulheres ou decididos a reduzi-las a objetos num harém de consumismo e ostentação não representam mais o machismo clássico. Aquele machismo derivado da família patriarcal de eras vitorianas ou da primeira metade do século XX.

O machismo, dentro daquilo que o jornalista e documentarista britânico Louis Theroux define como “machosfera” no atual ecossistema digital, nada tem a ver com o velho machismo do passado. Mas uma mutação futurista e cínica.

O documentário Netflix Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera (Louis Theroux: Inside the Manosphere, 2026) pode ser lido apenas como uma denúncia contra uma subcultura masculina com ideias extremistas - e sua narrativa explorando aspectos bizarros e até involuntariamente cômicos de influencers, machões empedernidos, ajuda nisso. Uma subcultura que preza pela supremacia masculina contra a qual só nos resta a indignação moral.

Mas Theroux vai mais além dessa leitura moralista e preguiçosa. Ele opta por um caminho mais interessante: em vez do confronto direto e indignado diante das falas misóginas dos entrevistados, prefere questionar gradualmente, permitindo não só que o espectador compreenda por conta própria, mas, principalmente, faça os entrevistados caírem em contradições.

Theroux solta a corda para os influencers se enforcarem nela.

Louis Theroux utiliza sua marca registrada — a curiosidade aparentemente ingênua — para desarmar figuras como influenciadores da alt-right e "educadores" de masculinidade tóxica. O que ele encontra não é apenas ódio gratuito, mas um sistema de crenças estruturado.



No documentário, vemos homens que se sentem "deserdados" pela modernidade. Eles acreditam que o avanço dos direitos das mulheres e a justiça social destruíram uma ordem natural onde eles teriam garantias de status, sexo e poder. É aqui que o machismo deixa de ser apenas um preconceito individual e se torna uma ideologia de sobrevivência em um mundo que eles consideram "quebrado".

Uma espécie de machismo zumbi, um machismo renitente e extemporâneo.

Uma ideologia que, embora social e historicamente "morta" (ou seja, não possui mais uma função produtiva ou um contrato social funcional), continua a caminhar, infectar e consumir o tecido social através da repetição de impulsos automáticos.

Diferente do machismo tradicional — que, embora opressor, era parte de uma estrutura de "provedor e protetor" — o Machismo Zumbi é desprovido de alma e de propósito social, restando apenas a fome por domínio e a estética da força. Impulsionado pelos algoritmos das Big Techs que monetizam muito mais com o ódio e intolerância do que com o amor e solidariedade.

No machismo clássico, havia uma troca (ainda que desigual): o homem oferecia provisão e estabilidade em troca de submissão. Na era do capitalismo neoliberal de precarização e “bullshit Jobs”, esse contrato rasgou. A economia não garante mais que o "esforço masculino" resulte em sustento para uma família, e as mulheres conquistaram autonomia.



Esses homens da “Machosfera” (como os entrevistados por Theroux) emulam os comportamentos de dominação do passado, mas sem o ônus da responsabilidade. Eles querem o privilégio do patriarca sem os deveres do provedor. É um machismo que sobrevive apenas como performance de poder, uma carcaça que se recusa a ser enterrada.

O machismo zumbi é instagramável, ostentatório. Como Theroux nos mostra entrevistando aspirantes a influencers macho alfa, um machismo renitente que oprime mais do que as mulheres. Também os homens comuns, cujas imagens de ostentação de luxo e suposto poder nas redes sociais, oprimem jovens “nem-nem” (nem trabalham e nem estudam) sem perspectivas de sucesso financeiro.

E ao invés de se mobilizarem politicamente contra quem banca esse Capitalismo, preferem imaginar conspirações de empoderamento feminino para oprimir os homens.

O Documentário

Confrontando as estrelas da internet que propagam sua ideologia misógina da "pílula vermelha" (uma expressão tirada do filme Matrix, referindo-se a como elas ajudam seus seguidores a enxergarem através das supostas mentiras da mídia tradicional, revelando a verdade sobre a sociedade e como ela está empenhada em oprimir os homens) Theroux encontra maneiras de desmascará-las.

Isso fica muito claro em uma entrevista inicial com Harrison Sullivan, de 23 anos, em Marbella, após fugir de um acidente de carro no Reino Unido (desde as filmagens, ele retornou ao Reino Unido e foi condenado por direção perigosa), conhecido por seus milhões de seguidores como “hstikkytokky”.



Sullivan começou sua vida online como instrutor de fitness antes de expandir para "ensinar garotos a serem garotos de verdade, não maricas ou afeminados".

"É assim que você me vê?", pergunta Theroux, com calma, enquanto começam um treino juntos em uma academia ao ar livre. Há uma breve pausa. "Você acabou de olhar para os meus braços?", ri Theroux, resumindo tanta superficialidade do movimento em uma única pergunta que Sullivan fica sem jeito. Theroux continua perguntando se é dia de treino de pernas. Sullivan, sentindo-se novamente à vontade, mostra a ele sua coxa incrivelmente musculosa. "Pergunta boba, cara", diz ele, caminhando até um aparelho de musculação. "As panturrilhas precisam de treino", comenta Theroux. Até Sullivan ri dessa vez. "Precisam mesmo, precisam."

O documentário vai apresentando conteúdos cada vez mais extremos, criados para gerar cliques e que pode ser monetizado por seus criadores - o prazer que eles sentem em humilhar e abusar mulheres e incentivando seus seguidores a fazerem o mesmo e a não serem "cornos". "Destrua a vida delas", "Eu decido quando quero enfiar meu pau em você, vadia... Mulheres adoram caras assim, que falam a verdade", exorta.

A agressividade é infinita, assim como a hipocrisia. Sullivan diz que sua mãe odeia racismo, homofobia e, principalmente, misoginia, e que levaria um tapa se ela o ouvisse. Ele é dono de uma agência que promove contas do OnlyFans, mas deserdaria uma filha se ela fizesse o mesmo. Deserdaria um filho por ser gay. Theroux o pressiona sobre ambos os assuntos, mas recebe apenas a tradicional enxurrada de argumentos desconexos e justificativas ilógicas que exigiriam muito tempo de tela para serem analisadas e, portanto, são deixadas de lado.



Há algumas aparições, potencialmente muito interessantes, das namoradas e esposas dos homens (na maioria das vezes, os relacionamentos são de "monogamia unilateral", o que significa exatamente o que você imagina), e da mãe de Sullivan.

O hackeamento da realidade

A referência ao filme Matrix é constante no primeiro ato, para explicar o conceito “red pill”. É aqui que fica evidente a conexão entre o machismo zumbi, a precarização do trabalho neoliberal e a monetização da Big Techs nas redes.

Sullivan ostenta sua riqueza, carros esportivos de luxo, charutos, festas e mulheres como uma vitória dele contra a “Matrix”. E o que é a “Matrix”, para ele? O trabalho formal, com patrão, salário, carteira de trabalho e horários pré-estabelecidos. Além de ser escravo das mulheres, também ser escravo do “sistema”, da “Matrix”.

E ele exorta a “pensar fora da caixinha”, no melhor estilo da retórica coaching.

Ele propõe “hackear o sistema”. E o conceito da "Red Pill" (a pílula vermelha de Matrix) é o exemplo perfeito. No documentário, os homens da Machosfera afirmam ter "despertado" para a realidade de que as mulheres controlam o mundo através do sexo e do feminismo.

Eles não querem mais ser "caras legais" (o mérito tradicional da sedução). Eles querem "hackear" a biologia e a psicologia feminina através de técnicas de manipulação, pois acreditam que a meritocracia romântica é uma mentira.

Fica claro como esse sistema de crenças de “pensar fora da caixinha” no final resta funcional ao capitalismo atual pós-meritocrático: diante da precariedade econômica e social, o indivíduo para de tentar "vencer pelas regras" e passa a adotar uma postura de cinismo sistêmico – jogar numa zona cinza onde as fronteiras entre legalidade, criminalidade e contravenção desaparecem na amoralidade do jogo, cassinos online, pirâmides financeiras e o mercado financeiro como uma grande plataforma de apostas.

É quando percebemos como o fenômeno dos influenciadores red pill e alt-right se encaixa com a dinâmica pós-meritocrática no novo ecossistema digital neoliberal.



A Viralidade e o Efeito de Contágio

Assim como uma infecção zumbi, essa forma de machismo se espalha de forma viral e digital.

Ela não é mais transmitida de pai para filho em uma linhagem de tradição (que pressuporia uma continuidade de vida). Ela é transmitida via algoritmos de recomendação para jovens isolados em seus quartos.

O Machismo Zumbi é "infectivo" porque oferece uma explicação simples e agressiva para a dor da precariedade pós-meritocrática: "Você não é um fracassado porque o sistema econômico faliu; você é uma vítima porque as mulheres e os fracos tomaram o seu lugar".

Poderíamos sintetizar essa diferença geracional da seguinte maneira:

 


 

Ficha Técnica

Título: Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera

Direção: Adrian Choa

Roteiro: Adrian Choa, Louis Theroux

Elenco: Louis Theroux, Harrison Sulivan, Kacey May

Produção: Netflix, Mindhouse Productions

Distribuição: Netflix

Ano: 2026

País: EUA

 

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