O documentário Netflix “Louis Theroux: Por dentro da Machosfera” (Louis Theroux: Inside the Manosphere, 2026), revela um ecossistema digital que é, ao mesmo tempo, um refúgio de ressentimento e um laboratório de novas formas de dominação. Para entender a profundidade desse fenômeno, a chave não está apenas no machismo clássico, mas em como ele se funde à pós-meritocracia do novo ecossistema digital neoliberal. Esqueça o patriarca conservador de eras vitorianas ou o "macho provedor" do século XX. O que habita as profundezas do ecossistema digital atual não é o velho machismo de nossos avós, mas uma mutação futurista, cínica e profundamente ressentida. No documentário, o jornalista britânico Louis Theroux mergulha em uma subcultura de influenciadores red pill e incels para revelar que a misoginia contemporânea é, na verdade, um "Machismo Zumbi".
Em toda a discussão atual sobre machismo e misoginia
associados ao crescimento de influencers red pills e Incels e a escalada
política refletida na polarização ideológica, há um mal-entendido: essas
figuras online formadas por homens ressentidos contra as mulheres ou decididos
a reduzi-las a objetos num harém de consumismo e ostentação não representam
mais o machismo clássico. Aquele machismo derivado da família patriarcal de
eras vitorianas ou da primeira metade do século XX.
O machismo, dentro daquilo que o jornalista e
documentarista britânico Louis Theroux define como “machosfera” no atual
ecossistema digital, nada tem a ver com o velho machismo do passado. Mas uma
mutação futurista e cínica.
O documentário Netflix Louis Theroux: Por Dentro
da Machosfera (Louis Theroux: Inside the Manosphere, 2026) pode ser
lido apenas como uma denúncia contra uma subcultura masculina com ideias
extremistas - e sua narrativa explorando aspectos bizarros e até
involuntariamente cômicos de influencers, machões empedernidos, ajuda nisso.
Uma subcultura que preza pela supremacia masculina contra a qual só nos resta a
indignação moral.
Mas Theroux vai mais além dessa leitura moralista e
preguiçosa. Ele opta por um caminho mais interessante: em vez do confronto
direto e indignado diante das falas misóginas dos entrevistados, prefere
questionar gradualmente, permitindo não só que o espectador compreenda por
conta própria, mas, principalmente, faça os entrevistados caírem em
contradições.
Theroux solta a corda para os influencers se
enforcarem nela.
Louis Theroux utiliza sua marca registrada — a
curiosidade aparentemente ingênua — para desarmar figuras como influenciadores
da alt-right e "educadores" de masculinidade tóxica. O que ele
encontra não é apenas ódio gratuito, mas um sistema de crenças estruturado.
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No documentário, vemos homens que se sentem
"deserdados" pela modernidade. Eles acreditam que o avanço dos
direitos das mulheres e a justiça social destruíram uma ordem natural onde eles
teriam garantias de status, sexo e poder. É aqui que o machismo deixa de ser
apenas um preconceito individual e se torna uma ideologia de sobrevivência
em um mundo que eles consideram "quebrado".
Uma espécie de machismo zumbi, um machismo renitente
e extemporâneo.
Uma ideologia que, embora social e historicamente
"morta" (ou seja, não possui mais uma função produtiva ou um contrato
social funcional), continua a caminhar, infectar e consumir o tecido social
através da repetição de impulsos automáticos.
Diferente do machismo tradicional — que, embora
opressor, era parte de uma estrutura de "provedor e protetor" — o
Machismo Zumbi é desprovido de alma e de propósito social, restando apenas a
fome por domínio e a estética da força. Impulsionado pelos algoritmos das Big
Techs que monetizam muito mais com o ódio e intolerância do que com o amor e
solidariedade.
No machismo clássico, havia uma troca (ainda que
desigual): o homem oferecia provisão e estabilidade em troca de submissão. Na
era do capitalismo neoliberal de precarização e “bullshit Jobs”, esse contrato
rasgou. A economia não garante mais que o "esforço masculino" resulte
em sustento para uma família, e as mulheres conquistaram autonomia.
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Esses homens da “Machosfera” (como os entrevistados
por Theroux) emulam os comportamentos de dominação do passado, mas sem o ônus
da responsabilidade. Eles querem o privilégio do patriarca sem os deveres do
provedor. É um machismo que sobrevive apenas como performance de poder,
uma carcaça que se recusa a ser enterrada.
O machismo zumbi é instagramável, ostentatório. Como
Theroux nos mostra entrevistando aspirantes a influencers macho alfa, um
machismo renitente que oprime mais do que as mulheres. Também os homens comuns,
cujas imagens de ostentação de luxo e suposto poder nas redes sociais, oprimem
jovens “nem-nem” (nem trabalham e nem estudam) sem perspectivas de sucesso
financeiro.
E ao invés de se mobilizarem politicamente contra quem
banca esse Capitalismo, preferem imaginar conspirações de empoderamento
feminino para oprimir os homens.
O Documentário
Confrontando as estrelas da internet que propagam
sua ideologia misógina da "pílula vermelha" (uma expressão tirada do
filme Matrix, referindo-se a como elas ajudam seus seguidores a enxergarem
através das supostas mentiras da mídia tradicional, revelando a verdade sobre a
sociedade e como ela está empenhada em oprimir os homens) Theroux encontra
maneiras de desmascará-las.
Isso fica muito claro em uma entrevista inicial com
Harrison Sullivan, de 23 anos, em Marbella, após fugir de um acidente de carro
no Reino Unido (desde as filmagens, ele retornou ao Reino Unido e foi condenado
por direção perigosa), conhecido por seus milhões de seguidores como “hstikkytokky”.
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Sullivan começou sua vida online como instrutor de
fitness antes de expandir para "ensinar garotos a serem garotos de
verdade, não maricas ou afeminados".
"É assim que você me vê?", pergunta
Theroux, com calma, enquanto começam um treino juntos em uma academia ao ar
livre. Há uma breve pausa. "Você acabou de olhar para os meus
braços?", ri Theroux, resumindo tanta superficialidade do movimento em uma
única pergunta que Sullivan fica sem jeito. Theroux continua perguntando se é
dia de treino de pernas. Sullivan, sentindo-se novamente à vontade, mostra a
ele sua coxa incrivelmente musculosa. "Pergunta boba, cara", diz ele,
caminhando até um aparelho de musculação. "As panturrilhas precisam de
treino", comenta Theroux. Até Sullivan ri dessa vez. "Precisam mesmo,
precisam."
O documentário vai apresentando conteúdos cada vez
mais extremos, criados para gerar cliques e que pode ser monetizado por seus
criadores - o prazer que eles sentem em humilhar e abusar mulheres e
incentivando seus seguidores a fazerem o mesmo e a não serem
"cornos". "Destrua a vida delas", "Eu decido quando
quero enfiar meu pau em você, vadia... Mulheres adoram caras assim, que falam a
verdade", exorta.
A agressividade é infinita, assim como a hipocrisia.
Sullivan diz que sua mãe odeia racismo, homofobia e, principalmente, misoginia,
e que levaria um tapa se ela o ouvisse. Ele é dono de uma agência que promove
contas do OnlyFans, mas deserdaria uma filha se ela fizesse o mesmo. Deserdaria
um filho por ser gay. Theroux o pressiona sobre ambos os assuntos, mas recebe
apenas a tradicional enxurrada de argumentos desconexos e justificativas
ilógicas que exigiriam muito tempo de tela para serem analisadas e, portanto,
são deixadas de lado.
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Há algumas aparições, potencialmente muito
interessantes, das namoradas e esposas dos homens (na maioria das vezes, os
relacionamentos são de "monogamia unilateral", o que significa
exatamente o que você imagina), e da mãe de Sullivan.
O hackeamento da realidade
A referência ao filme Matrix é constante no
primeiro ato, para explicar o conceito “red pill”. É aqui que fica evidente a
conexão entre o machismo zumbi, a precarização do trabalho neoliberal e a
monetização da Big Techs nas redes.
Sullivan ostenta sua riqueza, carros esportivos de
luxo, charutos, festas e mulheres como uma vitória dele contra a “Matrix”. E o
que é a “Matrix”, para ele? O trabalho formal, com patrão, salário, carteira de
trabalho e horários pré-estabelecidos. Além de ser escravo das mulheres, também
ser escravo do “sistema”, da “Matrix”.
E ele exorta a “pensar fora da caixinha”, no melhor
estilo da retórica coaching.
Ele propõe “hackear o sistema”. E o conceito da
"Red Pill" (a pílula vermelha de Matrix) é o exemplo perfeito.
No documentário, os homens da Machosfera afirmam ter "despertado"
para a realidade de que as mulheres controlam o mundo através do sexo e do
feminismo.
Eles não querem mais ser "caras legais" (o
mérito tradicional da sedução). Eles querem "hackear" a biologia e a
psicologia feminina através de técnicas de manipulação, pois acreditam que a
meritocracia romântica é uma mentira.
Fica claro como esse sistema de crenças de “pensar
fora da caixinha” no final resta funcional ao capitalismo atual pós-meritocrático:
diante da precariedade econômica e social, o indivíduo para de tentar
"vencer pelas regras" e passa a adotar uma postura de cinismo
sistêmico – jogar numa zona cinza onde as fronteiras entre legalidade,
criminalidade e contravenção desaparecem na amoralidade do jogo, cassinos
online, pirâmides financeiras e o mercado financeiro como uma grande plataforma
de apostas.
É quando percebemos como o fenômeno dos
influenciadores red pill e alt-right se encaixa com a dinâmica
pós-meritocrática no novo ecossistema digital neoliberal.
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A Viralidade e o Efeito de Contágio
Assim como uma infecção zumbi, essa forma de
machismo se espalha de forma viral e digital.
Ela não é mais transmitida de pai para filho em uma
linhagem de tradição (que pressuporia uma continuidade de vida). Ela é
transmitida via algoritmos de recomendação para jovens isolados em seus
quartos.
O Machismo Zumbi é "infectivo" porque
oferece uma explicação simples e agressiva para a dor da precariedade
pós-meritocrática: "Você não é um fracassado porque o sistema econômico
faliu; você é uma vítima porque as mulheres e os fracos tomaram o seu
lugar".
Poderíamos sintetizar essa diferença geracional da
seguinte maneira:
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Ficha
Técnica
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Título: Louis
Theroux: Por Dentro da Machosfera |
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Direção: Adrian Choa |
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Roteiro: Adrian
Choa, Louis Theroux |
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Elenco: Louis
Theroux, Harrison Sulivan, Kacey May |
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Produção: Netflix,
Mindhouse Productions |
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Distribuição: Netflix |
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Ano:
2026 |
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País: EUA |
terça-feira, março 31, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira







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