sexta-feira, março 20, 2026

O fantasma de Mary Shelley ressignificada assombra o século XXI em "A Noiva!"

 

Se o pós-modernismo do século XX foi uma "colcha de retalhos" de referências estéticas, o século XXI inaugurou a era da ressignificação profunda: o passado agora não é apenas citado, mas recrutado para dar voz às urgências do presente. Como a figura do monstro de Frankenstein em "A Noiva!" (The Bride! 2026). A direção de Maggie Gyllenhaal abraça essa obsessão contemporânea ao transformar a icônica e silenciosa criatura de 1935 ("A Noiva de Frankenstein") em um manifesto punk e visceral sobre autonomia. Entre o fantasma de Mary Shelley e uma Chicago dominada por gângsteres, o longa abandona o papel da "noiva-recompensa" para projetar temas como o burnout da perfeição e a soberania corporal, provando que, na filmografia atual, o clássico de 1818 tornou-se a antessala definitiva para as ansiedades de gênero da nossa era.

Era uma vez o Pós-Moderno (uns dizem que começou no Pós-guerra; outros, que tudo começou na década de 1970 com o fim da contracultura dos anos 1960...), com o seu espírito de pós-história, pilhando referências a estilos, estéticas e produtos culturais do passando. Transformando a cultura pós-moderna numa colcha de retalhos, uma colagem de metalinguagens e autorreferências.

Parece que no século XXI, essa compulsão de fim de século em costurar citações, alusões e referências, deu lugar à obsessão pelas releituras e ressignificações.

Ainda continua a compulsão em pilhar o passado. Mas, agora, revisitando-o para projetar nele as pautas e agendas do século XXI. Como se o passado fosse nada mais do que uma antessala que preparava para as ansiedades culturais desse século.

Um bom exemplo são as releituras do clássico de Mary Shelley, de 1818, "Frankenstein ou o Prometeu Moderno". A filmografia desse século nos ofereceu Pobres Criaturas (2023), uma releitura feminista de Frankenstein a partir das questões de identidade e gênero. E também a versão de Guillermo Del Toro, Frankenstein (2025), pelo ponto de vista da paternidade tóxica, parentalidade e saúde mental.

Projeta-se em Mary Shelley questões, ansiedades e temas desse século como se ela, lá em 1818, de alguma maneira, já antecipasse as mazelas do presente.

Quando sabemos que "Frankenstein" surgiu na mente da jovem escritora por um motivo bem diverso. A obra foi escrita quando Shelley tinha 19 anos após ser desafiada por outra figura emblemática do Romantismo, o poeta Lord Byron (1788- 1824).

Casada com o poeta Percy Shelley, junto com seu marido foi passar férias na mansão de Lord Byron. Em um clima chuvoso e sem poderem sair da casa, lançaram entre si um desafio para escrever um conto que transitasse entre o terror e o fantástico. A ideia veio à mente de Shelley que, incentivada pelo seu marido, estendeu-a até transformá-la em um romance.



Ou seja, uma obra que nasceu em circunstâncias nada panfletárias sobre teses acerca de guerras culturais de lutas de gênero ou identidade.

A Noiva! (The Bride! 2026) talvez seja mais do que isso. É uma releitura de outra releitura: o filme clássico A Noiva de Frankenstein (1935) de James Whale. Uma obra prima do expressionismo e horror gótico onde a noiva aparece apenas nos últimos cinco minutos do filme. Ela é uma "recompensa" criada para acalmar a fúria do Monstro. Sua existência é puramente funcional para o enredo dos homens - uma releitura machista de um clássico do Romantismo.

Ao contrário de A Noiva! Em que ela é o coração do filme: a trama começa onde a versão clássica terminaria, focando no seu desenvolvimento, na descoberta da sua identidade e na recusa em ser definida pelos seus criadores.

Muito mais do que um filme de terror de época; ela constrói um manifesto punk sobre autonomia, desejo e o custo de ser "perfeita" em um mundo desenhado por homens. Esqueça a criatura sibilante de 1935; a Noiva de Jessie Buckley é uma força da natureza que se recusa a ser um acessório doméstico.

Uma feroz releitura feminista ao estilo de Pobres Criaturas, de Lanthimos. E que também convive com a “clássica” colcha de retalhos pastiche do Pós-Moderno do século passado.



Esta nova história sobre a esposa de um monstro é uma comédia sombria barulhenta e violenta, com toques de Rocky Horror Picture Show (1975) e extensas homenagens à sofisticação de cartola e fraque de O Jovem Frankenstein (1974), de Mel Brooks. É também uma aventura gangster pelos loucos anos 20 e 30, com o Sr. e a Sra. Frankenstein reimaginados como uma espécie de Bonnie e Clyde pós-morte.

O Filme

A premissa parte da ideia de que Mary Shelley é um fantasma furioso, expelindo para o submundo sombrio seu desprezo aristocrático pelos homens medíocres que a cercavam em vida, e ansiando por uma mulher viva adequada para se reinserir em um novo corpo feminino.

Shelley aterrissa em Ida (Jessie Buckley), uma mulher durona, porém sensual, que frequenta o bar em Chicago de propriedade do mafioso Sr. Lupino (Zlatko Burić).

Quando o fantasma de Shelley possui o corpo de Ida neste local certa noite, seu corpo se contorce em possessão, balbuciando, se debatendo e fazendo associações livres no sotaque britânico da Sra. Shelley, como uma mistura da menina Regan em O Exorcista (1973).

Lupino manda eliminar Ida, que acaba agredida e rolando pelas escadarias dos fundos de uma boate frequentaada por mafiosos, quebrando pernas e pescoço.

Mas então o próprio monstro de Frankenstein (Christian Bale) aparece comoventemente nos escritórios da cientista Dra. Euphronious (Annette Bening), pedindo lastimosamente por uma companheira para aliviar sua solidão e frustração conjugal. Então ela desenterra Ida e a traz de volta à vida; a Ida morta-viva agora ostenta cabelos crespos, língua preta e marcas pretas como tinta nos lábios.

O monstro de Bale é uma criação muito diferente do galã romântico de Jacob Elordi na versão mais refinada e elegante de Guillermo del Toro. Ele tem cicatrizes na testa, como as dos Monstros; seu rosto está machucado e cheio de hematomas, como o de um boxeador veterano e atordoado; e há algo inicialmente tímido e quase paternal em sua preocupação com Ida. Seu ideal de masculinidade é o astro de filmes musicais Hollywood Ronnie Reed, interpretado por Jake Gyllenhaal, que para quem olha fascinado nas telas de cinema.



Os jovens amantes monstruosos se livram de alguns malfeitores e fogem juntos, perseguidos pelo policial de Chicago Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e sua assistente – e detetive melhor – Myrna Mallow (Penélope Cruz).

De repente, a revolta feminista e visual protopunk de Ida vira uma atitude imitada por outras mulheres nas ruas de Chicago dos anos 1930. Mais um motivo para a polícia ficar no encalço do casal: desordem pública!

O principal em A Noiva! É que Ida não desperta como uma "tábula rasa", mas com vestígios traumáticos de sua vida anterior. O conflito central surge quando Frankenstein espera gratidão e devoção, mas Ida sente apenas estranhamento.

O ponto de virada ocorre quando Ida descobre as circunstâncias de sua "primeira morte" (um feminicídio). Em vez de se submeter ao papel de noiva idealizada, ela incendeia o laboratório — e simbolicamente o contrato social que a criou. Ela foge para as margens da sociedade, transformando-se em uma figura vanguardista que abraça suas cicatrizes em vez de escondê-las, deixando Frankenstein (e a sua criadora) para trás em sua obsolescência masculina.



Uma colagem do século XXI

Na verdade, A Noiva! é uma colagem de temas da atual ansiedade cultural.

De início, o filme expressa a Autonomia Corporal e a "Bioética" do Desejo. No século XXI, o debate sobre o corpo feminino é central (desde o movimento Me Too até as discussões sobre direitos reprodutivos). O filme questiona: quem é o dono do corpo de uma mulher após ele ser "salvo" ou "construído"? A tentativa de Euphronius de "moldar" a personalidade de Ida ecoa a pressão estética extrema e a curadoria de identidade das redes sociais.

Além disso, temos os temas da Identidade Fluida e Pós-Humanismo. Noiva! é uma colagem de partes. No contexto atual, isso dialoga perfeitamente com as identidades não lineares e a ideia de que somos todos "construções". Ida não busca ser uma "mulher real"; ela aceita ser um monstro, subvertendo o conceito de beleza normativa para encontrar poder em sua própria estranheza.

Há uma exaustão visível em Ida. Ela é o protótipo da mulher moderna que deve ser inteligente, bonita, grata e funcional. Ao "quebrar", ela valida o cansaço sistêmico de uma geração que decidiu que ser "imperfeita" é a única forma de ser livre.

É o "burnout" da Perfeição.

Certamente Mary Shelley, nos dias chuvosos de 1818, jamais imaginaria que naquele conto que escreveu num jogo com seus amigos para quebrar a monotonia de dias aborrecidos, duzentos anos depois, seriam encontrados tantos elementos para releituras.


 

Ficha Técnica

Título:  A Noiva!

Direção: Maggie Gyllenhaal

Roteiro: Maggie Gyllenhaal

Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Jake Gyllenhaal e Penélope Cruz 

Produção: Warner Bros, Domain Etertainment

Distribuição: Warner Bros Pictures

Ano: 2026

País: EUA

 

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