Desde o existencialismo cristão do filósofo Søren Kierkegaard do século XIX, passando pelos cinemas de Ingmar Bergman, da dinamarquesa onda do Dogma 95 de Lars Von Trier aos filmes de Joachim Trier, a “dor escandinava” vem sendo diligentemente esculpida nas páginas de livros e telonas dos cinemas.
Kierkegaard falava da fé e angústia como dois lados de uma mesma moeda: como ter fé numa totalidade infinita (Deus) que ultrapassa o homem finito e mortal? A fé poderia ser resumida da seguinte maneira: “creio porque é absurdo!”.
A possibilidade do silêncio ou indiferença de Deus perpassa o cinema de Ingmar Bergman - para Bergman, as relações humanas sofrem porque não há uma ordem superior que as valide. A angústia vem da ausência de resposta do divino, o que isola os personagens em seus próprios infernos psíquicos.
Em filmes como Sonata de Outono, as relações (especialmente entre pais e filhos) são definidas por confrontos brutais e verdades não ditas que, quando proferidas, destroem tudo ao redor. Não há possibilidade de mediação (fé, sublimação religiosa, crenças etc.); há apenas o choque direto.
Bergman escavava o indivíduo até encontrar o osso, o trauma e, frequentemente, o vazio, a angústia.
No final de século XXI Lars Von Trier tira a “dor escandinava” do campo da angústia existencial metafísica jogando-o na brutalidade do corpo e do niilismo. Em Anticristo, ele inverte a ideia escandinava de que a natureza é um refúgio. A natureza é descrita como "a igreja de Satã". A dor não vem da ausência de sentido, mas da presença de uma força destrutiva inerente à vida biológica.
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Ele utiliza o choque e a mutilação (como em Anticristo ou A Casa que Jack Construiu) para forçar o espectador a confrontar o sofrimento. A dor escandinava aqui deixa de ser um "pensamento" e torna-se um "grito".
Em Melancolia, Lars von Trier oferece a definição definitiva da dor escandinava para o século XXI: a dor não é um conflito, é um estado de paralisia. A personagem Justine (Kirsten Dunst) está tão imersa na sua depressão que o fim do mundo (a colisão de um planeta contra a Terra) é recebido com alívio. Enquanto os "normais" entram em pânico, o melancólico está em casa, pois o mundo exterior finalmente se equiparou ao seu mundo interior.
Em Valor Sentimental (Affeksjonsverdi, 2025), o norueguês Joachim von Trier atualiza essa “dor escandinava” para o século XXI: a dor não é mais apenas sobre o medo da morte ou de Deus, mas sobre o vazio de sentido em uma sociedade hiperconectada e materialmente satisfeita.
A dor escandinava manifesta-se na incapacidade de sentir algo "real" fora de uma performance cinematográfica ou teatral. Trier faz o cinema escandinavo relevante porque ele se recusa a oferecer finais felizes fáceis, preferindo investigar o que resta do ser humano quando todas as necessidades básicas estão supridas, mas a alma continua faminta.
Enquanto Bergman perguntava "Como posso viver se Deus não existe e a minha mãe não me amou?", Trier pergunta em Valor Sentimental: "Como posso ter uma relação autêntica num mundo onde tudo — até a minha dor — é transformado em espetáculo e performance?".
Em Bergman, a arte era muitas vezes um refúgio ou uma maldição do ego. Em Trier, a arte (o teatro de Nora e o cinema de Gustav) é o único território onde pai e filha conseguem se comunicar. Eles não conseguem ser "reais" um com o outro na mesa de jantar, mas conseguem ser honestos através da leitura de um roteiro de cinema.
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Valor Sentimental consolida o diretor norueguês como o herdeiro contemporâneo da tradição escandinava de dissecação psicológica, mas com uma sensibilidade nitidamente voltada para as ansiedades do século XXI. O filme utiliza a metalinguagem — o cinema dentro do cinema e o teatro dentro do cinema — para explorar como a arte não é apenas um reflexo da vida, mas muitas vezes a única ferramenta de mediação possível para uma identidade fragmentada.
O Filme
Valor Sentimental abre com duas cenas que definem o tema.
No prólogo, somos apresentados a uma casa em que uma criança, em uma redação escolar, reimaginou-a como personagem, questionando se ela é mais feliz quando “sua barriga está cheia de vida” (a casa está cheia de moradores), perguntando-se se sente dor quando sua janela é fechada com força.
Na cena que se segue à abertura, conhecemos uma atriz em meio a um colapso nervoso antes de sua estreia numa peça em um teatro lotado. Em um ataque de pânico, ela tenta fugir nos bastidores antes de irromper em sua versão de " A Gaivota".
De um lado, o lar familiar que representa a memória, a História e a construção da identidade; e do outro o esforço hercúleo da atuação, de performance, o filtro da atuação para tentar alcançar a realidade insuportável e inalcançável.
A atriz em questão se chama Nora (Renate Reinsve), cuja mãe morre no início do filme, trazendo seu pai distante, Gustav (Stellan Skarsgård), de volta. A irmã de Nora, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleas), tem marido e filho; Nora está tendo um caso com seu colega de elenco na peça, casado.
Nenhuma das duas irmãs realmente quer o pai por perto. As feridas que levaram ao afastamento não são totalmente definidas, mas parecem mais profundas para Nora, o que torna ainda mais surpreendente quando seu pai, diretor de cinema, diz que escreveu um novo filme (depois de um recesso de 15 anos) para ela estrelar. Ela sequer se dá ao trabalho de ler o roteiro.
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As primeiras cenas são magistrais - transmite uma história de micro e macro agressões que permeiam a linguagem corporal, a cadência e o tom de voz. O fato de Gustav ter escrito um papel para Nora soa como um gesto de paz. Ela não está disposta a aceitar.
Assim, Gustav parte para o Festival de Cinema de Deauville, onde está sendo exibido um dos seus primeiros trabalhos. Um deles com uma ponta da sua filha Agnes, na infância.
Uma famosa atriz americana chamada Rachel Kemp (Elle Fanning) fica tão comovida com o filme que convida Gustav para jantar com sua comitiva, iniciando uma amizade na praia.
Claro, Rachel aceita o papel escrito para Nora no novo filme de Gustav a ser produzido pela Netflix. Trier explora temas bergmanianos de identidade (há até uma alusão visual direta a Persona), especialmente quando a americana pinta o cabelo para se parecer com a filha do diretor.
Enquanto Gustav trabalha no filme, Nora evita qualquer interação, enquanto Agnes, uma historiadora acadêmica, investiga a verdade sobre a tortura na Segunda Guerra Mundial e o suicídio de sua avó, sobre quem grande parte do filme de Gustav parece tratar.
O grande trunfo de Valor Sentimental em relação ao nosso tempo é a percepção de que, no século XXI, a autenticidade absoluta é uma ilusão.
O filme de Gustav, ao escalar uma estrela de Hollywood (Elle Fanning) para interpretar a mãe de suas filhas, mostra como a cultura contemporânea tenta processar a dor privada através do espetáculo público. A reconciliação entre pai e filha só ocorre quando eles estão "em cena". Quando o diretor grita "Corta!", o silêncio desconfortável retorna, sugerindo que nossa identidade moderna é mantida por fios de performances que damos uns para os outros.
O contraste em relação ao final (com a câmera abrindo, mostrando a artificialidade de um set de filmagem com seus cenários, fios, dispositivos e equipamentos por trás da câmera num exercício de metalinguagem) que mostra a tentativa da reconciliação através da ficção, e a residência da família Borg, funcionando como personagem central.
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Trier utiliza o espaço físico dos cômodos da residência para materializar o conceito de valor sentimental e trauma geracional. O filme abre com a, por assim dizer, “casa-túmulo”, com a narração da redação escolar sobre a casa sugerindo que ela guarda os segredos e as falhas das gerações passadas.
E termina com a casa tornando-se num simulacro de si própria: no cenário para o filme autobiográfico de Gustav. A "Simulação" do Lar: quando Gustav reconstrói cenas do passado para seu filme, ele não está apenas filmando; ele está tentando reabitar um espaço emocional que ele mesmo destruiu ao se tornar um pai ausente pela dedicação integral ao cinema.
Dentro da tradição da “dor escandinava”, Trier abandona o campo teológico da angústia metafísica da finitude e da indiferença de Deus de Ingmar Bergman, ou a angústia paralisante do Dogma 95, para ingressar na performance e artifício (do Teatro ou do Cinema) do século XXI.
Enquanto Bergman frequentemente terminava suas obras no isolamento da psique, Trier sugere que a ficção — por mais artificial que seja — é um espaço de encontro. O filme não resolve o trauma (o final é bem pessimista ao mostrar o set da filmagem, o espaço da reconciliação, como apenas um constructo), mas dá a ele uma forma que pode ser compartilhada. É um cinema que reconhece que somos todos "atores" tentando encontrar um sentido no roteiro confuso da vida moderna.
Ficha Técnica |
Título: Valor Sentimental |
Direção: Joachin Trier |
Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier |
Elenco: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas
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Produção: Mer Film, MK2 Productions |
Distribuição: Retrato Filmes |
Ano: 2025 |
País: Noruega, Alemanha |
quarta-feira, janeiro 07, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





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