sexta-feira, janeiro 30, 2026

'Frankenstein' de Guillermo del Toro: um drama necropolítico e gnóstico


Se no século XIX o horror literário de “Frankenstein”, de Mary Shelley, residia na audácia de desafiar a Deus através da eletricidade, na visão de Guillermo del Toro para o século XXI em "Frankenstein" (2025, indicado ao Oscar de Melhor Filme), o verdadeiro terror é a negligência afetiva. Ao traçar um paralelo entre a desilusão da Criatura e o niilismo de filmes como “Prometheus” (2012), del Toro transita do 'conhecimento proibido' para a 'paternidade tóxica'. Nesta nova adaptação, o mito de Shelley é despido de seu caráter puramente científico para revelar uma parábola visceral sobre traumas herdados, necropolítica e a busca por propósito em um mundo que nos cria, mas se recusa a nos amar. Dessa maneira, a releitura de del Toro mantém o drama existencial gnóstico mais amplo da própria humanidade: fomos jogados nesse cosmos em uma situação frágil e vulnerável e sob os desígnios arbitrários do Criador tentamos encontrar algum propósito na existência.

Certamente o leitor deve lembrar do filme Prometheus (2012), de Ridley Scott, em que arqueólogos espaciais procuram os chamados “engenheiros” que criaram a humanidade num recôndito perdido do Universo. Mas não encontram nem deuses e nem seres benevolentes e sábios. Mas Demiurgos enlouquecidos às voltas com uma tecnologia que se voltou contra eles em uma lua fria perdida no meio do nada.

Também o leitor deve lembrar que um dos pontos mais emblemáticos do filme foi quando o androide David descobre que o propósito de os humanos o terem criado é tão vazio quando o dos “engenheiros” terem criado a humanidade:

David: Lamento que os "engenheiros" estejam todos mortos, Dr. Holloway.
Dr. Holloway: Você acha que perdemos o nosso tempo vindo aqui?
David: Qual o objetivo que os trouxe aqui?  O que esperavam conseguir? 
Dr. Holloway: conhecer o nosso Criador... obter respostas... Por que razão nos fizeram.
David: Por que acha que a sua espécie me fez?
Dr. Holloway: os fizemos porque podíamos.
David: Você percebe o quão decepcionante seria ouvir a mesma coisa do seu criador?

               A mesma decepção tem a Criatura feita com pedaços de cadáveres e ressuscitado através do galvanismo do século XIX (a ideia de que a eletricidade poderia reanimar a carne), ao ser rejeitado pelo seu próprio criador Victor Frankenstein – o arrogante e ateu médico anatomista que pretende desafiar a morte apenas como um desafio à falha fundamental da Criação.

               Tal como uma depressão pós-parto, Victor não sabe o que fazer com a Criatura depois que provou a si mesmo sua tese: o homem deve fazer tudo aquilo que tem o poder e o conhecimento de fazer. Porém, a obra original de Mary Shelley “Frankenstein ou o Prometeu Moderno” trazia um alerta para essa ambição de que só porque um homem pode fazer algo não significa que ele deva.

Embora o filme Frankenstein (2025), de Guillermo del Toro mantenha forte inspiração na obra de 1818 e em sua imagética clássica, ele não busca uma fidelidade literal, mas sim emocional e filosófica.

Como apontam críticas, del Toro “canta Shelley em outra tonalidade”, preservando a essência do romance (a decepção da Criatura que se tornou sem propósito para o criador), mas reinterpretando suas perguntas para o presente. O diretor reforça questões que já estavam no texto original — criação, responsabilidade, abandono — mas acentua camadas psicológicas e afetivas típicas da contemporaneidade, sobretudo relacionadas à paternidade tóxica, trauma e perdão.



A adaptação de Frankenstein realizada por Guillermo del Toro insere-se em uma tradição longa e multifacetada de reinterpretações do romance publicado por Mary Shelley em 1818. Entretanto, diferentemente de muitas leituras cinematográficas anteriores, que frequentemente privilegiaram o horror científico ou a monstruosidade física, o filme de del Toro propõe uma inflexão sensível, afetiva e politicamente contemporânea do mito. Ao fazê-lo, estabelece um diálogo profundo entre a matriz literária do século XIX e os anseios, temores e debates éticos característicos do século XXI.

Um dos eixos centrais da atualização proposta por del Toro consiste na “desmonstrificação” da Criatura. Enquanto parte do imaginário popular do século XX cristalizou o monstro como figura bruta e silenciosa, o filme recupera sua dimensão intelectual e sensível, já presente no romance, mas agora reconfigurada pelo prisma contemporâneo da empatia e da crítica à desumanização.

O Frankenstein figurado por del Toro é menos sobre "ciência indo longe demais" e mais sobre a falta de amor. No século XIX, o perigo era o conhecimento proibido; no século XXI, o perigo é a criação de seres (digitais ou biológicos) desprovidos de alma e responsabilidade afetiva. Del Toro nos lembra que o verdadeiro monstro nunca é quem está na maca, mas quem segura o bisturi e depois vira as costas.

Mais do que isso, como uma Criatura construída a partir de pedaços de corpos de soldados mortos em campos de batalha, no “monstro” criado por del Toro a feiura não está na sua aparência, mas na metáfora de uma sociedade necropolítica incapaz de integrar a todos, criando um contingente cada vez maior de “invisíveis”, excluídos, refugiados etc.

E que, mesmo assim, no final ainda são “reciclados” dentro da agenda tecnocientífica de uma elite.



O Filme

O roteiro de del Toro é totalmente inspirado no original. O filme começa perto do final do romance, no Ártico, onde criador e criatura trocam de papéis, de caçador e caça, com um navio preso no gelo.

Uma figura monstruosa passa de trenó, embora sua silhueta desafie o que o público certamente imagina. Essa forma cambaleante aparece envolta em trapos, escondendo o rosto até bem mais tarde no filme, quando força sua entrada a bordo da embarcação encalhada no gelo, em busca do Dr. Frankenstein, o homem que lhe deu vida, mas não considerou as consequências.

Na visão de Guillermo del Toro, a lamentável criação de Frankenstein foi amaldiçoada com a vida, não pode ser morta (nem mesmo balas a detêm) e deve enfrentar a mesma crise existencial que todos nós enfrentamos - ninguém pede para nascer, mas, uma vez lançados ao mundo, cada um de nós deve encontrar seu propósito.

Na cabina do capitão da embarcação cuja tripulação tenta impedir que o monstro suba para acertar as contas com o seu criador, Dr. Frankenstein conta a sua versão das desventuras da sua vida.

Quando menino, o extremamente nervoso Victor sofre abusos de seu cruel pai disciplinador (Charles Dance), um renomado médico cujo temperamento colérico inspira Victor a superar o velho – a se rebelar contra Deus, na verdade.

Já como um jovem e brilhante médico, Frankenstein escandaliza a classe médica da Escola Real de Medicina de Edimburgo com sua crença pós-galvânica e ateia de que um ser humano pode ser criado (e a morte enganada) aplicando-se uma carga elétrica a uma grotesca coleção de partes de corpos recolhidas.



O impulsivo Victor é tolerado por seu afetuoso irmão mais novo, William (Felix Kammerer), por cuja noiva, Elizabeth (Mia Goth), Victor se sente atraído, mas que percebe a arrogância e a frieza inerente de Victor.

É o tio de Elizabeth, Harlander (Christoph Waltz), um rico fabricante de armas, quem se oferece para financiar o projeto do homem artificial de Frankenstein, que na verdade consiste em pedaços de cadáveres recuperados do campo de batalha. O resultado é um gigante gentil que a princípio fica fascinado por este admirável mundo novo para o qual Frankenstein o trouxe, mas depois se sente magoado pela fria impaciência de Frankenstein.

Gnosticismo e zeitgeist

A releitura que del Toro faz de Frankenstein ecoa temas do zeitgeist do século XXI, embora mantenha a essência prometeica e gnóstica da obra original de Shelley.

Embora o romance de Shelley apresente tensões familiares — em especial a relação conturbada entre Victor e sua criação —, o filme acentua esse eixo ao explorar com profundidade os vínculos parentais, tanto os biológicos quanto os simbólicos.



Ao retratar os fracassos afetivos entre Victor Frankenstein e seu pai, Del Toro insere explicitamente o mito no contexto contemporâneo de discussões sobre parentalidade, saúde mental e heranças traumáticas. O monstro, nesse registro, deixa de ser apenas resultado da irresponsabilidade científica e torna-se produto de uma cadeia de negligências e violências emocionais. O horror, portanto, desloca-se do laboratório para o lar.

Se no início do século XIX a preocupação central de Shelley dialogava com os avanços científicos da época — galvanismo, estudos anatômicos e a “prometeana” ambição humana em roubar o fogo dos deuses —, no século XXI a narrativa se desloca para dilemas mais existenciais que científicos.

Del Toro redireciona a pergunta original — “até onde pode ir a ciência?” — para outra, mais compatível com o presente: “o que significa criar uma vida sem oferecer cuidado, afeto e reconhecimento?”.

Mas Frankenstein mantém a crítica gnóstica original: como a Criatura, não pedimos para vir a esse mundo. O drama de Victor Frankenstein e a criatura reproduz em escala micro uma condição existencial gnóstica mais ampla da própria humanidade: fomos jogados nesse cosmos em uma situação frágil e vulnerável e sob os desígnios arbitrários do Criador tentamos encontrar algum propósito na existência.


 

Ficha Técnica

Título:  Frankenstein

Direção: Guillermo del Toro

Roteiro: Guillermo del Toro, Mary Shelley

Elenco: Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christoph Waltz, Mia Goth

Produção: DDY, Demilo Films, Bluegrass Films

Distribuição: Netflix

Ano: 2025

País: EUA

 

Postagens Relacionadas

 Após 200 anos, "Frankenstein" continua o Prometeu acorrentado

  Os deuses estão mortos no filme "Prometheus"

Em "Closer To God" o mito de Frankenstein enfrenta a Ciência, Mídia e Religião

Um manifesto ciborgue e a reconfiguração do feminismo em 'Pobres Criaturas'

 

 

Tecnologia do Blogger.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Bluehost Review