sexta-feira, fevereiro 27, 2026

'Você é o Universo': no século XXI, o cosmos vira cenário da angústia existencial



Se no auge da Guerra Fria o espaço era o território da conquista e do triunfo da engenhosidade humana, o cinema do século XXI parece ter transformado o cosmos no cenário definitivo da angústia existencial. Entre o vazio do Universo infinito e a liberdade aterradora do indivíduo finito descrita pelo filósofo Kierkegaard, surge o filme ucraniano “Você é o Universo” (Ty – Kosmos, 2024). Mais do que uma ficção científica de baixo orçamento, a obra de Pavlo Ostrikov utiliza a explosão literal da Terra para espelhar as cicatrizes reais de uma Ucrânia em guerra e a solidão hiperconectada da era pós-pandêmica, provando que a busca pelo 'outro' é a única bússola possível diante do abismo.

Um dos sintomas da atual sensibilidade pós-moderna é a nossa relação com as imensidões infinitas do espaço.

No futurismo modernista (que encontrou o seu ápice na ficção científica no cinema durante a corrida espacial à Lua Guerra Fria) o espaço era representado como um território vazio à espera da conquista da humanidade – eventualmente até poderíamos nos deparar com aliens hostis. Mas a coragem e engenhosidade humanas superariam qualquer coisa.

Mas tudo mudou. Aquele futuro não se realizou. Restando ou a nostalgia daqueles futuros (o retrofuturismo na música eletrônica e no cinema), ou uma postura existencialista ansiosa e angustiada de seres finitos diante de um universo infinito e eterno.

É quando as ideias do existencialismo cristão de Sren Kierkegaard chegam ao cinema em filmes como o sci-fi Passengers (2016) ou a comédia dramática Valor Sentimental (2025).

Ideias provenientes principalmente do seu livro “O Conceito de Ansiedade”.

Kierkeegard usa o exemplo de um homem à beira do precipício. Quando o homem olha para baixo ele sente o medo da queda. Mas ao mesmo tempo, sente um grande impulso de se atirar para o fundo do abismo. Esse sentimento paradoxal deriva da nossa ansiedade pela descoberta de que somos livres para escolher saltar ou não saltar. O mero fato de sabermos que temos a liberdade de escolha por sermos seres finitos diante da eternidade do Universo desperta ao mesmo tempo a solidão da completa liberdade. Isso criaria tanto a possibilidade do autoconhecimento como da ansiedade neurótica – a angústia, que impede a evolução da ansiedade normal em autoconhecimento.



Mais um exemplo de como o espaço abandonou as representações épicas para se transformar num vazio existencial é o filme ucraniano Você é o Universo (Ty – Kosmos, 2024) de Pavlo Ostrikov.

Histórias sobre astronautas solitários vagando pelo espaço já foram contadas inúmeras vezes. Hollywood produziu algumas, incluindo dois sucessos de bilheteria recentes: Gravidade (2013), de Alfonso Cuarón, e Perdido em Marte (2015), de Ridley Scott. 

Mas o que distingue Você é o Universo é que o astronauta não está apenas solitário: ele é o último da espécie humana, depois que viu pela janela da sua nave, através de um brilho ofuscante, o distante planeta Terra explodir – e a onda de impacto o alcançar em questão de horas e também matá-lo.

Você é o Universo é uma daquelas obras raras que prova que o gênero de ficção científica não precisa de orçamentos de bilhões de dólares para tocar no âmago da condição humana.

Lançado em 2024, o filme carrega um peso simbólico colossal por ter sido produzido e finalizado enquanto a Ucrânia enfrentava o início da guerra contra a Rússia.

Embora o roteiro tenha sido escrito antes da invasão de 2022, é impossível assisti-lo sem ver as cicatrizes do conflito atual. E como o risco existencial colocado para os ucranianos nessa guerra é simbolizado pelo filme dentro de uma reflexão mais universal, envolvendo a própria espécie humana.

A Terra se foi. Da mesma maneira para muitos ucranianos o lar foi perdido, suas cidades e casas foram literalmente apagadas do mapa. O sentimento de "não ter para onde voltar" é o motor emocional da obra.


Restando apenas olhar para o imenso aparente vazio cósmico do Universo. Criando a paradoxal e angustiante sensação de liberdade diante do abismo descrita por Kierkegaard – a angústia de estar finalmente livre – “é só depois de perder tudo que você está livre para fazer qualquer coisa”, dizia o “filósofo pop” Tyler Durden no filme O Clube da Luta.

Essa é a sensibilidade pós-moderna espacial explorada por U Are The Universe.

O Filme

O filme acompanha Andriy (Volodymyr Kravchuk), um caminhoneiro espacial ucraniano, em uma missão de quatro anos de ida e volta para descartar o lixo nuclear da Terra na lua Calisto, de Júpiter.

Apesar de contar com a ajuda de seu assistente robô Maxim (Leonid Popadko), sempre pronto para contar uma piada infame ao astronauta rabugento, a abordagem despreocupada de Andriy em relação ao trabalho lhe rende a ira de seu chefe no controle espacial na Ucrânia.

Porém, as reclamações de seus superiores acabam se mostrando irrelevantes quando a Terra explode repentinamente, não por uma guerra específica, mas por alguma espécie de colapso total.

Sem saber como lidar com essa nova camada de isolamento (ele é o último da espécie), além daquela que já vivenciada no espaço, ou quais serão seus próximos passos, Andriy tenta se manter entretido. Cria uma espécie de estação de rádio improvisada, ele toca os poucos discos que possui enquanto se vangloria de ter sobrevivido àqueles que, em algum momento, desejaram sua morte.




Sua ostentação de ser a última pessoa viva dura pouco, pois ele recebe uma mensagem de uma francesa chamada Catherine (dublada por Alexia Depicker e interpretada por Daria Plahtiy), que está presa em uma estação espacial distante orbitando uma das luas de Saturno, com uma grave falha – ela está pouco a pouco perdendo altitude.

Não demora muito para que Andriy e Catherine comecem a trocar mensagens, apesar do delay de três horas na comunicação. O que começa como uma conversa para entender melhor suas respectivas situações, aos poucos se transforma em algo mais para o caminhoneiro espacial ucraniano.

À medida que a dupla cria um laço, o filme de Ostrikov pinta um retrato humorístico e comovente da conexão humana.

Ao focar-se exclusivamente em Andriy durante a maior parte do filme, Ostrikov encontra diversas maneiras de dissecar como o isolamento, a tristeza, a esperança e o amor estão todos interligados como um novelo de lã bem apertado.

Desvendar a complexidade das emoções nunca parece uma tarefa árdua, pois o espectador se envolve profundamente tanto com o dilema do caminhoneiro espacial quanto com seu crescente vínculo com Catherine.

Tudo, desde sua irritação cômica com a cadeira de trabalho quebrada até a forma como seu semblante se ilumina ao receber uma nova mensagem da francesa, arranca um sorriso do público. Quando Andriy decide tentar encontrar a estação de Catherine, uma missão repleta de desafios, o público não consegue conter a torcida, mesmo ciente dos riscos envolvidos.


    

O filme inclui divertidas referências a Solaris e 2001: Uma Odisseia no Espaço, entre outros. Faz parte do núcleo emocional que mantém o coração de Você é o Universo pulsando. Através das conversas de Andriy com Catherine, Ostrikov consegue abordar muitos dos prazeres, medos e constrangimentos que acompanham o ato de realmente conhecer alguém. Mesmo quando Catherine não está fisicamente em cena, o público, assim como o caminhoneiro espacial, sente como se a conhecesse bem.

Solidão digital, pandemia e poeira estelar

Para além do tema Kierkeegardiano da angústia do homem finito diante do Universo infinito, Você é o Universo captura perfeitamente três pilares do nosso tempo:

Primeiro, a solidão digital, principalmente explicitada durante o isolamento social na pandemia da Covid. No século XXI, estamos mais conectados e, paradoxalmente, mais solitários. O romance de Andriy e Catherine é a metáfora definitiva das relações via telas e áudios — o desejo por alguém que está a anos-luz (ou apenas a alguns quilômetros de isolamento social) de distância.

Além disso, fica evidente no filme o eco da pandemia. Escrito em 2022, reflete a estética do isolamento e a rotina repetitiva de Andriy ressoam com a experiência global de 2020-2022. O espaço sideral é o "lockdown" definitivo.

E a destruição da Terra no filme também reflete a ansiedade climática e a sensação de que o mundo, como o conhecemos, está em um caminho sem volta.

O filme foge do pessimismo barato. Ele admite que o universo é vasto, frio e indiferente, mas argumenta que o indivíduo é um universo em si mesmo. A química entre o ator Volodymyr Kravchuk e o robô (dublado pelo próprio diretor) traz uma leveza necessária que impede o filme de ser apenas um drama depressivo.

Você é o Universo é um triunfo do cinema independente e um testemunho de que, mesmo quando o seu mundo explode, a busca pelo "outro" é o que nos impede de virar apenas poeira estelar.


  

Ficha Técnica

Título:  Você é o Universo

Direção: Pavlo Ostrikov

Roteiro: Pavlo Ostrikov

Elenco: Volodymyr Kravchuk, Alexia Depicker, Leonid Popadko

Produção: ForeFilms, Stenola Productions

Distribuição: Kinomania

Ano: 2024

País: Ucrânia

 

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