sexta-feira, abril 17, 2026

Os fantasmas do cinema: metalinguagem, Inteligência Artificial e cultura do cancelamento


Do pneu assassino com poderes telepáticos em Rubber (2010) à implosão completa da quarta parede em O Segundo Ato (Le Deuxième Acte, 2025), o diretor francês Quentin Dupieux permanece o mestre absoluto do "no reason". Em seu novo longa, o cineasta leva sua obsessão pela metalinguagem ao ápice, transformando o set de filmagem em uma "boneca russa" narrativa. Através de um jogo constante de "filme dentro do filme", o diretor utiliza o ego dos grandes astros franceses e a frieza da Inteligência Artificial para criar uma sátira mordaz sobre o vazio das narrativas contemporâneas. Ao colocar estrelas como Léa Seydoux e Louis Garrel para interpretar versões satirizadas de si mesmos, Dupieux não apenas questiona a verossimilhança do cinema, mas confronta a indústria com seus novos fantasmas: da ditadura dos algoritmos de IA à cultura do cancelamento das redes sociais.

O diretor francês Quentin Dupieux continua fiel a sua filosofia do “no reason” - um princípio filosófico de que Dupieux começou a construir a partir do surreal filme Rubber (2010), no qual um pneu com poderes telepáticos roda pelo deserto em busca de sangue e vingança.

Desde que filmou a bizarra história desse pneu assassino em série rodando pelo deserto se vingando dos humanos que o descartaram em um lixão, o diretor francês Quentin Dupieux é obcecado pela ideia da desconstrução todas as regras que regem o roteiro de cinema (principalmente a ideia de verossimilhança).

Uma desconstrução principalmente utilizando a metalinguagem ou metacinema. Esse estilo utiliza a própria linguagem cinematográfica para falar sobre si mesma, ou seja, a trama aborda a produção de um filme, bastidores, ou inclui um filme fictício como parte da narrativa.

Metalinguagem não é uma novidade no cinema. Desde o clássico Cantando na Chuva (mostrando os bastidores de Hollywood) passando por 8 ½ de Fellini (um diretor tentando fazer um filme) e A Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen (o personagem sai da tela), até metalinguagens gnósticas que questionam a própria ontologia da realidade (O Segredo da Cabana e Resolution), o cinema vem criando subgêneros metalinguísticos: “found footage”, “filme-dentro-de-um-filme” etc.

Mas Dupieux leva a desconstrução metalinguística às últimas consequências com uma espécie de narrativa em abismo, funcionado como uma boneca russa narrativa, onde cada camada de ficção é removida para revelar uma realidade ainda mais artificial.




É o caso do seu último filme O Segundo Ato (Le Deuxième Acte, 2024, disponível na Prime Video), onde o prolífico diretor (com 13 longas-metragens realizados desde 2007, sendo seis nos últimos quatro anos, começando com sua estreia surreal e impávida, Rubber, e chegando até Yannick e Daaaaali!), o ápice do seu ímpeto desconstrutivista: Dupieux satiriza os egos infalíveis de alguns dos atores mais famosos da França, revelando as faíscas que surgem quando esses egos se chocam no set de filmagem. Além de abordar temas mais contemporâneos, como a ascensão da inteligência artificial como ferramenta de redução de custos no cinema e a chegada tardia da cultura do cancelamento e do movimento #MeToo à indústria cinematográfica francesa.   

Tangenciando com reflexões até ontológicas sobre a natureza das coisas: até que ponto realidade e ficção estão invertidas: vivemos na ficção e nos defrontamos com a realidade nas telas do cinema.

No filme, a fronteira entre o que é "cena" e o que é "vida real" não é apenas borrada; ela é inexistente. Dupieux utiliza o tropo do walk-and-talk (personagens conversando enquanto caminham) para estabelecer uma base ficcional que é constantemente interrompida.

Constantemente os personagens de Léa Seydoux, Louis Garrel, Vincent Lindon e Raphaël Quenard transitam entre seus papéis no "filme dentro do filme" e suas personas como "atores profissionais". O que cria no espectador o Efeito de Estranhamento: quando um ator reclama de uma fala ofensiva ou de um colega de elenco em pleno "set", o espectador perde a âncora do que deve levar a sério. A "realidade" deles também parece performática, sugerindo que, na indústria da imagem, não existe um "eu" autêntico fora da representação.




A metalinguagem é a espinha dorsal da obra. Dupieux não quer que você esqueça, nem por um segundo, que está assistindo a um filme mediante a constante desconstrução do dispositivo: o filme exibe abertamente os trilhos da câmera, o microfone de lapela e as limitações do cenário.

Como se Dupieux quisesse sempre lembrar a natureza fictícia da ficção. Ou mostrar que quando os atores retornam à realidade são tão fictícios quanto seus personagens...

Também por meio da metalinguagem, o diretor ironiza as obsessões atuais do meio: o medo do cancelamento, a vaidade dos grandes astros e a busca por uma "importância" temática que muitas vezes é vazia.

Ao quebrar a quarta parede, o filme questiona por que ainda consumimos narrativas tão artificiais e previsíveis.

O Filme

O Segundo Ato começa com um sujeito nervoso e infeliz chamado Stéphane (Manuel Guillot) abrindo seu restaurante no meio do nada, chamado, ironicamente, de "Le Deuxième Acte".

Em seguida, vemos dois jovens caminhando em direção ao restaurante: David (Louis Garrel) e seu amigo Willy (Raphaël Quenard, do filme anterior de Dupieux, Yannick). David tem um encontro marcado com uma mulher linda, cuja dependência o incomoda, então ele leva Willy para seduzi-la e se livrar dela.




Paralela a essa cena, conhecemos essa mulher, Florence (Léa Seydoux), preparando-se para encontrar David, alheia aos planos dele de lhe passar para outro. Está tão confiante de que David é o escolhido que leva o seu pai, Guillaume, (Vincent Lindon) junto para conhecê-lo.

Willy e David não são, na verdade, dois velhos amigos, mas sim atores interpretando-os em um filme. O mesmo acontece com Florence e seu pai, Guillaume, que mal conseguem terminar sua própria cena antes de perderem a paciência com o script romântico meloso que estão fazendo, mas também no cinema em geral. Isso até ele receber um telefonema de seu agente dizendo que o conhecido diretor americano Paul Thomas Anderson quer escalá-lo para seu novo longa-metragem.

Rapidamente a metalinguagem se torna uma piada recorrente em O Segundo Ato — sequências que sugerem a influência que certos diretores de Hollywood ainda exercem sobre os atores franceses, especialmente aqueles frustrados com a própria indústria.

Outros nomes também são mencionados, incluindo o de Mel Gibson durante um hilário discurso de Willy, enquanto os quatro astros franceses parecem interpretar versões apenas ligeiramente exageradas de si mesmos: Seydoux é a estrela mimada e insegura do próprio talento; Garrel, o sedutor malandro que esconde o ego por trás de boas maneiras; Lindon, o veterano experiente sem paciência para amadores; e Quenard, o novato irritantemente engraçado, cuja origem humilde e dicção o diferenciam dos demais.

Eles acabam se encontrando em um restaurante de beira de estrada chamado "The Second Act", onde discutem mais um pouco, oscilando entre seus personagens no filme que está sendo feito e os atores que interpretam no filme sobre o próprio filme. Em certo momento, um garçom nervoso (Manuel Guillot) intervém para servir vinho, e sua incapacidade de servir uma taça sem derramar tudo se torna mais uma piada que logo se torna terrivelmente desagradável.

Ou será que não? Dupieux nos engana mais uma vez, com uma nova reviravolta em que os atores se transformam em outro grupo de atores que não estão mais interpretando a si mesmos.




O diretor invisível e os trilhos infinitos – Alerta de Spoilers à frente

Há também um diretor, na forma de um avatar de IA em um laptop, que aparece para comentar roboticamente o trabalho deles, descontando o pagamento daqueles membros do elenco que não atuaram de forma satisfatória.

Este é talvez o ponto mais cínico e profético de O Segundo Ato. A revelação de que o filme está sendo "dirigido" ou processado por uma Inteligência Artificial/Algoritmo muda completamente a percepção da obra.

O diretor torna-se invisível. Nesta sátira, a figura do diretor (historicamente o "autor" com visão artística) é substituída por uma fria lógica de dados.

“A sua opinião não é levada em conta”, responde constantemente o diretor/IA (figurado na tela de um notebook segurado por um humilde funcionário) ao ser confrontado com os atores que tentam dar uma contribuição artística ‘as cenas.

O algoritmo não busca a verdade emocional, mas sim a conformidade com padrões que geram engajamento ou evitam riscos.

Os atores tornam-se marionetes de um sistema que pode ajustar suas performances em tempo real. Há uma cena angustiante (e hilária) onde o algoritmo dita o tom da cena, eliminando qualquer nuance humana.

E, o que é pior, o diretor/IA avisa que irá descontar na folha de pagamento do ator que, por algum motivo, atrasar o cronograma das filmagens.

A imagem final do filme — os trilhos da câmera se estendendo infinitamente por uma paisagem deserta — é a metáfora perfeita para o cinema ditado por algoritmos:

(1         (1)  Linearidade: Não há desvios, apenas o caminho programado.

(2)   Repetição: A máquina continuará produzindo conteúdo para sempre, mesmo que não haja mais ninguém para "sentir" a obra.

(3)   Vazio: É uma produção tecnicamente perfeita, mas emocionalmente estéril.

 



Ficha Técnica

Título: O Segundo Ato

Direção: Quentin Dupieux

Roteiro: Quentin Dupieux

Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Louis Garrel, Raphael Quenard

Produção: Arte France Cinéma, Canal +

Distribuição: Prime Video

Ano: 2024

País: França

 

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