Esqueça o rótulo de mero spin-off: a série “Better Call Saul” (2015-2022, disponível na Netflix) é, na verdade, a conclusão amarga de um experimento sociológico iniciado no deserto de Albuquerque. Enquanto a jornada de Walter White em “Breaking Bad” (2008-2023) foi uma explosão de ego e busca por poder, a transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman oferece uma autópsia visceral da mobilidade social e da sobrevivência. No fogo cruzado entre a burocracia sádica do Estado e a violência crua do crime organizado (mediado pela torre de marfim dos escritórios de advocacia), o estelionato deixa de ser uma mera falha moral para se tornar a única estratégia de resistência dos deserdados que buscam, a qualquer custo, um lugar à mesa.
A série Better
Call Saul (2015-2022) é frequentemente rotulada apenas como um
"prequel" ou “spin off”, mas, sob uma lente sociológica, ela funciona
como uma expansão profunda e muito mais amarga do experimento iniciado em Breaking
Bad (2008-2013). Enquanto a jornada de Walter White é uma explosão de ego e
poder, a de Jimmy McGill é uma autópsia da mobilidade social e da sobrevivência
em um sistema projetado para excluir.
Quando Jesse
Pinkman (Aaron Paul) partiu para o deserto no final do último episódio de Breaking
Bad, há quase 14 anos, deixando para trás um Walter White mortalmente
ferido, ninguém apostaria em Bob Odenkirk, como o ardiloso advogado
Jimmy McGill, em uma prequela que narraria sua transformação de um mero
figurante no ainda mais ambíguo (empático e repugnante) advogado Saul Goodman.
Era mais
provável que a continuação focasse no glamoroso e preguiçoso cozinheiro de
metanfetamina Jesse, partindo para novas aventuras depois da surpreendente fuga
pelo deserto.
Nas
entrevistas, Vince Gilligan (o criador do universo da série) afirmou diversas
vezes que Breaking Bad era um verdadeiro experimento sociológico pela
forma como os espectadores interagiram com Walt White ao longo da série ao
acompanhar suas transformações - a jornada de Walter White, de professor de
química frustrado e à beira da morte com um câncer no pulmão, a “cozinheiro”
produtor de metanfetamina e chefão do tráfico com seu chapéu pork pie.
Mas esse
experimento foi além: ao mostrar como as transformações íntimas de Walt revelaram
a realidade por trás do teatro das aparências sociais, colocando sob suspeita
alguns acontecimentos que muitas vezes figuram na mídia.
![]() |
Quando você souber
de notícias de pessoas que misteriosamente desapareceram sem deixar vestígios
(abduzidas por ETs?) desconfie: como na série, deve ter sido algumas daquelas
pessoas azaradas que apareceram no lugar errado e na hora errada. Assassinadas
por serem testemunhas, são dissolvidas em caldos químicos em laboratórios de
narcotraficantes;
Correntes de
donativos na Internet para causas humanitárias e para o tratamento de pessoas
com doenças exóticas, também desconfie: pode ser uma forma cibernética de
lavagem de dinheiro sujo através de algum laranja.
E mais: se
ouvir falar de uma empresa ou negócio praticamente falido que foi vendido e,
repentinamente, prospera e em pouco tempo começa a abrir filiais, pode ter
certeza: é um instrumento de lavagem de dinheiro. Afinal, como dizia Balzac,
por trás de toda fortuna se esconde um grande crime.
Ao longo de
seis temporadas, Better Call Saul se transformou em um drama
mais profundo e belo sobre a corrupção humana do que sua antecessora.
Transformou-se em algo visualmente mais suntuoso do que Breaking Bad,
sem jamais perder, por um instante sequer, sua destreza verbal e bússola moral
– ou a ausência dela.
Saul Goodman,
como o advogado de causas perdidas para os excluídos de um sistema que os
coloca em um fogo cruzado entre o crime organizado e o sadismo de agentes do
Estado, acabou roubando a cena.
Mais do que
isso: acabou tornando-se na própria síntese desse experimento sociológico de Vince
Gilligan.
Se Breaking
Bad foi um estudo sobre como as circunstâncias transformam um homem comum
em um monstro (o indivíduo contra a moral), Better Call Saul foca em
como a estrutura social impede que um homem "marginal" se torne
comum.
![]() |
A série
apresenta o estelionato e os pequenos golpes não apenas como falha de caráter,
mas como a única linguagem possível para quem transita entre dois verdadeiros moinhos
trituradores: o Estado burocrático e o Crime Organizado.
A Série
Durante cinco
gloriosos anos, Breaking Bad, foi a série definitiva. Ganhando prêmios a
torto e a direito, liderando as paradas de sucesso e recebendo elogios da
crítica em todos os lugares, os roteiristas da série sabiam o que estavam
fazendo. Mas, como tudo que é bom, chegou ao fim. E, apesar da criação de um
spin-off, Breaking Bad acabou. Mesmo que Better Call Saul conte
com alguns rostos familiares, é uma série completamente nova.
Apesar de ser
uma produção diferente de sua antecessora, Better Call Saul mantém um
formato similar. Dos ângulos de câmera amplos à iluminação impecável, a série é
um deleite para os olhos. A cinematografia sempre foi um ponto forte de Vince
Gilligan, criador da série, e Better Call Saul não é exceção.
O roteiro e a
atuação são excelentes, e a trilha sonora é primorosa. Os diálogos são ágeis e
espirituosos, exatamente o que se espera de um personagem como Saul Goodman.
Apesar da boa dose de humor, a série consegue manter um tom sombrio e
provocativo.
Os
espectadores provavelmente sabem o que aconteceu com Saul Goodman em Breaking
Bad. O primeiro episódio começa com uma cena em preto e branco de um
Goodman devastado após o incidente com Heisenberg. Saul está morando em Omaha,
trabalhando em uma loja da Cinnabon e apavorado com qualquer pessoa que pareça
minimamente intimidadora. Better Call Saul busca responder à pergunta:
como esse homem chegou a esse ponto?
Sem dúvida, é
divertido ver o compassivo Jimmy McGill se transformar no implacável e sórdido
Saul Goodman, mas o fato de já conhecermos seu destino praticamente elimina
qualquer suspense que possamos sentir. Quando um traficante psicótico aponta
uma arma para sua cabeça, o público sabe que ele não vai puxar o gatilho.
Quando ele é arrastado para o deserto para ser interrogado, o público sabe que
ele conseguirá se safar. Quando ele volta cabisbaixo para seu escritório
apertado nos fundos de um salão de manicure asiático e lamenta a falta de
clientes, o público sabe que ele logo se tornará um advogado rico e
bem-sucedido.
A beleza da
série reside na jornada, e o suspense nas decisões que Saul toma ao longo do
caminho.
![]() |
Mas,
principalmente, quando percebemos que a série é a evolução de um experimento
que vai do macroscópico ao microscópico: enquanto em Breaking Bad o crime
é uma escolha de afirmação de poder, em Better Call Saul: O
"golpe" é uma estratégia de adaptação. Jimmy não quer o império; ele
quer, inicialmente, um lugar à mesa. A série demonstra que, para os
"deserdados" (aqueles sem o pedigree acadêmico ou o sobrenome certo),
a porta da frente está sempre trancada.
O Estado e a Elite (A Barreira Legal)
Personificada
por Chuck McGill (Michael McKean) e a firma HHM, a lei aqui não é um
instrumento de justiça, mas um clube de elite. Para Chuck, ver o irmão Jimmy
com um diploma de Direito é como ver "um chimpanzé com uma
metralhadora".
A lógica
apresentada pela série é essa: o sistema legal é construído para
proteger quem já está dentro. Quando Jimmy tenta seguir as regras, ele é
sabotado pela própria meritocracia de fachada. O "truque" (a
malandragem) torna-se, então, a ferramenta para nivelar o campo de jogo.
O Crime Organizado (A Barreira Violenta)
Do outro
lado, temos o cartel. Para as figuras como Nacho Varga (Michael Mando) ou Mike
Ehrmantraut (Jonathan Banks), o crime não é uma fantasia de poder, mas uma
armadilha de subsistência. Eles ocupam um espaço onde a proteção do Estado não
chega e a violência do crime é a única moeda. Nesse cenário, a inteligência e o
"jeitinho" de Jimmy são o que o tornam o "barata" (como
Lalo Salamanca o descreve): aquele que sobrevive à detonação nuclear que
destrói os gigantes.
Kim Wexler e a Sedução do Abismo
A personagem
de Kim (Rhea Seehorn) é fundamental para essa análise sociológica. Ela
representa a classe trabalhadora que "conseguiu chegar lá" pelo
esforço. No entanto, ela percebe que o sistema que ela defende é frio e muitas
vezes protege os vilões corporativos.
Sua adesão
aos golpes de Jimmy é uma revolta contra a asfixia da perfeição. Para
Kim e Jimmy, enganar um advogado arrogante ou um burocrata prepotente é uma
forma de justiça poética — uma microrrevolução dos excluídos contra um sistema
que os vê como meras engrenagens.
![]() |
O simbolismo eletromagnético de Chuck
A condição de
Chuck McGill, a hipersensibilidade eletromagnética (que o obriga a andar com
uma manta metálica e evitando luzes, baterias e gadgets elétricos), é um dos
dispositivos simbólicos mais ricos de Better Call Saul. Ela não é apenas
uma doença psicossomática; é a manifestação física da incapacidade de Chuck em
processar a modernidade, a moralidade de Jimmy e sua própria decadência
psicológica.
Para Chuck, a
lei não é apenas uma profissão, é uma religião pura e absoluta. Ele vê o mundo
em termos de luz e sombra, ordem e caos.
A eletricidade
funciona na narrativa como o simbolismo do Caos: A eletricidade representa a
energia caótica, invisível e onipresente do mundo moderno — o mesmo tipo de
energia que Jimmy emana. Ao se declarar "alérgico", Chuck está,
simbolicamente, tentando se isolar da "sujeira" moral que ele associa
ao irmão.
Ao
transformar sua casa em uma espécie de gaiola de Faraday, Chuck cria uma
metáfora física para a elite jurídica: isolada, fria, operando à luz de velas
(o passado) e recusando-se a tocar na realidade elétrica (e muitas vezes
mundana) da vida contemporânea.
Utilizando a
lente sociológica proposta por esse humilde blogueiro, Chuck representa a Superestrutura
(as leis, a moral oficial, o prestígio acadêmico). Sua doença surge como uma
falha catastrófica quando essa superestrutura não consegue mais conter a Infraestrutura
(os impulsos humanos, a inveja e a realidade de que Jimmy, apesar de
"sujo", é amado pelas pessoas).
Ao final, Better
Call Saul nos mostra que o "experimento" falhou para o ser
humano, mas funcionou para o sobrevivente. Saul Goodman é o que sobra quando um
homem descobre que a honestidade é um luxo que o Estado não lhe permite e que a
violência é um risco que ele não pode pagar.
Ele se torna
o lubrificante entre as engrenagens: o advogado que conhece os truques para que
os deserdados respirem um pouco mais de tempo no fogo cruzado, mesmo que o
preço seja a sua própria alma.
Ficha Técnica |
|
Título: Better
Call Saul (série) |
|
Criador:
Vincent Gilligan, Peter Gould |
|
Roteiro:
Vincent Gilligan |
|
Elenco:
Bob Odenkirk, Rhea Seehorn, Jonathan Banks |
|
Produção:
High Bridge Productions |
|
Distribuição:
Netflix |
|
Ano:
2015-2022 |
|
País:
EUA |
Postagens Relacionadas |
|
|
sábado, abril 25, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira





Posted in:

![Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nisso? por [Wilson Roberto Vieira Ferreira]](https://m.media-amazon.com/images/I/41OVdKuGcML.jpg)




