sábado, abril 25, 2026

'Better Call Saul': uma autópsia visceral da luta de resistência dos deserdados



Esqueça o rótulo de mero spin-off: a série “Better Call Saul” (2015-2022, disponível na Netflix) é, na verdade, a conclusão amarga de um experimento sociológico iniciado no deserto de Albuquerque. Enquanto a jornada de Walter White em “Breaking Bad” (2008-2023) foi uma explosão de ego e busca por poder, a transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman oferece uma autópsia visceral da mobilidade social e da sobrevivência. No fogo cruzado entre a burocracia sádica do Estado e a violência crua do crime organizado (mediado pela torre de marfim dos escritórios de advocacia), o estelionato deixa de ser uma mera falha moral para se tornar a única estratégia de resistência dos deserdados que buscam, a qualquer custo, um lugar à mesa.

A série Better Call Saul (2015-2022) é frequentemente rotulada apenas como um "prequel" ou “spin off”, mas, sob uma lente sociológica, ela funciona como uma expansão profunda e muito mais amarga do experimento iniciado em Breaking Bad (2008-2013). Enquanto a jornada de Walter White é uma explosão de ego e poder, a de Jimmy McGill é uma autópsia da mobilidade social e da sobrevivência em um sistema projetado para excluir.

Quando Jesse Pinkman (Aaron Paul) partiu para o deserto no final do último episódio de Breaking Bad, há quase 14 anos, deixando para trás um Walter White mortalmente ferido, ninguém apostaria em Bob Odenkirk, como o ardiloso advogado Jimmy McGill, em uma prequela que narraria sua transformação de um mero figurante no ainda mais ambíguo (empático e repugnante) advogado Saul Goodman.

Era mais provável que a continuação focasse no glamoroso e preguiçoso cozinheiro de metanfetamina Jesse, partindo para novas aventuras depois da surpreendente fuga pelo deserto.

Nas entrevistas, Vince Gilligan (o criador do universo da série) afirmou diversas vezes que Breaking Bad era um verdadeiro experimento sociológico pela forma como os espectadores interagiram com Walt White ao longo da série ao acompanhar suas transformações - a jornada de Walter White, de professor de química frustrado e à beira da morte com um câncer no pulmão, a “cozinheiro” produtor de metanfetamina e chefão do tráfico com seu chapéu pork pie.

Mas esse experimento foi além: ao mostrar como as transformações íntimas de Walt revelaram a realidade por trás do teatro das aparências sociais, colocando sob suspeita alguns acontecimentos que muitas vezes figuram na mídia.



Quando você souber de notícias de pessoas que misteriosamente desapareceram sem deixar vestígios (abduzidas por ETs?) desconfie: como na série, deve ter sido algumas daquelas pessoas azaradas que apareceram no lugar errado e na hora errada. Assassinadas por serem testemunhas, são dissolvidas em caldos químicos em laboratórios de narcotraficantes;

Correntes de donativos na Internet para causas humanitárias e para o tratamento de pessoas com doenças exóticas, também desconfie: pode ser uma forma cibernética de lavagem de dinheiro sujo através de algum laranja.

E mais: se ouvir falar de uma empresa ou negócio praticamente falido que foi vendido e, repentinamente, prospera e em pouco tempo começa a abrir filiais, pode ter certeza: é um instrumento de lavagem de dinheiro. Afinal, como dizia Balzac, por trás de toda fortuna se esconde um grande crime.

Ao longo de seis temporadas, Better Call Saul se transformou em um drama mais profundo e belo sobre a corrupção humana do que sua antecessora. Transformou-se em algo visualmente mais suntuoso do que Breaking Bad, sem jamais perder, por um instante sequer, sua destreza verbal e bússola moral – ou a ausência dela.

Saul Goodman, como o advogado de causas perdidas para os excluídos de um sistema que os coloca em um fogo cruzado entre o crime organizado e o sadismo de agentes do Estado, acabou roubando a cena.

Mais do que isso: acabou tornando-se na própria síntese desse experimento sociológico de Vince Gilligan.

Se Breaking Bad foi um estudo sobre como as circunstâncias transformam um homem comum em um monstro (o indivíduo contra a moral), Better Call Saul foca em como a estrutura social impede que um homem "marginal" se torne comum.



A série apresenta o estelionato e os pequenos golpes não apenas como falha de caráter, mas como a única linguagem possível para quem transita entre dois verdadeiros moinhos trituradores: o Estado burocrático e o Crime Organizado.

A Série

Durante cinco gloriosos anos, Breaking Bad, foi a série definitiva. Ganhando prêmios a torto e a direito, liderando as paradas de sucesso e recebendo elogios da crítica em todos os lugares, os roteiristas da série sabiam o que estavam fazendo. Mas, como tudo que é bom, chegou ao fim. E, apesar da criação de um spin-off, Breaking Bad acabou. Mesmo que Better Call Saul conte com alguns rostos familiares, é uma série completamente nova.

Apesar de ser uma produção diferente de sua antecessora, Better Call Saul mantém um formato similar. Dos ângulos de câmera amplos à iluminação impecável, a série é um deleite para os olhos. A cinematografia sempre foi um ponto forte de Vince Gilligan, criador da série, e Better Call Saul não é exceção.

O roteiro e a atuação são excelentes, e a trilha sonora é primorosa. Os diálogos são ágeis e espirituosos, exatamente o que se espera de um personagem como Saul Goodman. Apesar da boa dose de humor, a série consegue manter um tom sombrio e provocativo.

Os espectadores provavelmente sabem o que aconteceu com Saul Goodman em Breaking Bad. O primeiro episódio começa com uma cena em preto e branco de um Goodman devastado após o incidente com Heisenberg. Saul está morando em Omaha, trabalhando em uma loja da Cinnabon e apavorado com qualquer pessoa que pareça minimamente intimidadora. Better Call Saul busca responder à pergunta: como esse homem chegou a esse ponto?

Sem dúvida, é divertido ver o compassivo Jimmy McGill se transformar no implacável e sórdido Saul Goodman, mas o fato de já conhecermos seu destino praticamente elimina qualquer suspense que possamos sentir. Quando um traficante psicótico aponta uma arma para sua cabeça, o público sabe que ele não vai puxar o gatilho. Quando ele é arrastado para o deserto para ser interrogado, o público sabe que ele conseguirá se safar. Quando ele volta cabisbaixo para seu escritório apertado nos fundos de um salão de manicure asiático e lamenta a falta de clientes, o público sabe que ele logo se tornará um advogado rico e bem-sucedido.

A beleza da série reside na jornada, e o suspense nas decisões que Saul toma ao longo do caminho.



Mas, principalmente, quando percebemos que a série é a evolução de um experimento que vai do macroscópico ao microscópico:  enquanto em Breaking Bad o crime é uma escolha de afirmação de poder, em Better Call Saul: O "golpe" é uma estratégia de adaptação. Jimmy não quer o império; ele quer, inicialmente, um lugar à mesa. A série demonstra que, para os "deserdados" (aqueles sem o pedigree acadêmico ou o sobrenome certo), a porta da frente está sempre trancada.

O Estado e a Elite (A Barreira Legal)

Personificada por Chuck McGill (Michael McKean) e a firma HHM, a lei aqui não é um instrumento de justiça, mas um clube de elite. Para Chuck, ver o irmão Jimmy com um diploma de Direito é como ver "um chimpanzé com uma metralhadora".

A lógica apresentada pela série é essa: o sistema legal é construído para proteger quem já está dentro. Quando Jimmy tenta seguir as regras, ele é sabotado pela própria meritocracia de fachada. O "truque" (a malandragem) torna-se, então, a ferramenta para nivelar o campo de jogo.

O Crime Organizado (A Barreira Violenta)

Do outro lado, temos o cartel. Para as figuras como Nacho Varga (Michael Mando) ou Mike Ehrmantraut (Jonathan Banks), o crime não é uma fantasia de poder, mas uma armadilha de subsistência. Eles ocupam um espaço onde a proteção do Estado não chega e a violência do crime é a única moeda. Nesse cenário, a inteligência e o "jeitinho" de Jimmy são o que o tornam o "barata" (como Lalo Salamanca o descreve): aquele que sobrevive à detonação nuclear que destrói os gigantes.

Kim Wexler e a Sedução do Abismo

A personagem de Kim (Rhea Seehorn) é fundamental para essa análise sociológica. Ela representa a classe trabalhadora que "conseguiu chegar lá" pelo esforço. No entanto, ela percebe que o sistema que ela defende é frio e muitas vezes protege os vilões corporativos.

Sua adesão aos golpes de Jimmy é uma revolta contra a asfixia da perfeição. Para Kim e Jimmy, enganar um advogado arrogante ou um burocrata prepotente é uma forma de justiça poética — uma microrrevolução dos excluídos contra um sistema que os vê como meras engrenagens.



O simbolismo eletromagnético de Chuck

A condição de Chuck McGill, a hipersensibilidade eletromagnética (que o obriga a andar com uma manta metálica e evitando luzes, baterias e gadgets elétricos), é um dos dispositivos simbólicos mais ricos de Better Call Saul. Ela não é apenas uma doença psicossomática; é a manifestação física da incapacidade de Chuck em processar a modernidade, a moralidade de Jimmy e sua própria decadência psicológica.

Para Chuck, a lei não é apenas uma profissão, é uma religião pura e absoluta. Ele vê o mundo em termos de luz e sombra, ordem e caos.

A eletricidade funciona na narrativa como o simbolismo do Caos: A eletricidade representa a energia caótica, invisível e onipresente do mundo moderno — o mesmo tipo de energia que Jimmy emana. Ao se declarar "alérgico", Chuck está, simbolicamente, tentando se isolar da "sujeira" moral que ele associa ao irmão.

Ao transformar sua casa em uma espécie de gaiola de Faraday, Chuck cria uma metáfora física para a elite jurídica: isolada, fria, operando à luz de velas (o passado) e recusando-se a tocar na realidade elétrica (e muitas vezes mundana) da vida contemporânea.

Utilizando a lente sociológica proposta por esse humilde blogueiro, Chuck representa a Superestrutura (as leis, a moral oficial, o prestígio acadêmico). Sua doença surge como uma falha catastrófica quando essa superestrutura não consegue mais conter a Infraestrutura (os impulsos humanos, a inveja e a realidade de que Jimmy, apesar de "sujo", é amado pelas pessoas).

Ao final, Better Call Saul nos mostra que o "experimento" falhou para o ser humano, mas funcionou para o sobrevivente. Saul Goodman é o que sobra quando um homem descobre que a honestidade é um luxo que o Estado não lhe permite e que a violência é um risco que ele não pode pagar.

Ele se torna o lubrificante entre as engrenagens: o advogado que conhece os truques para que os deserdados respirem um pouco mais de tempo no fogo cruzado, mesmo que o preço seja a sua própria alma.


 

 

Ficha Técnica

Título: Better Call Saul (série)

Criador: Vincent Gilligan, Peter Gould

Roteiro: Vincent Gilligan

Elenco: Bob Odenkirk, Rhea Seehorn, Jonathan Banks

Produção: High Bridge Productions

Distribuição: Netflix

Ano: 2015-2022

País: EUA

 

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