terça-feira, julho 16, 2024

Os tiros contra Donald Trump não aconteceram


Foi visível a perplexidade inicial do jornalismo corporativo diante dos disparos contra Donald Trump em um comício na Pensilvânia, tanto pela conveniência dos tiros à sua campanha quanto pela flagrante complacência do serviço secreto na segurança. Que posteriormente a mídia normalizou como “milagre” que supostamente teria salvo a vida do ex-presidente. Essa perplexidade e mal-estar são típicos quando estamos diante de não-acontecimentos, que sequer a mídia pode discutir a hipótese: põe em risco a própria matéria-prima da notícia: o acontecimento. É tudo coisa de “chapéus de alumínio”, têm que dizer para salvaguardar a própria profissão. Porém, o resultado, a mais-valia semiótica da fotografia perfeita, mais uma vez revela didaticamente as características de um não-acontecimento: timing, sincronismos, anomalias e chantagem midiática.

Por que esse episódio de tiros que passaram zumbindo pela orelha do ex-presidente Donald Trump em evento político no estado da Pensilvânia, EUA, traz à memória desse humilde blogueiro o célebre episódio do goleiro chileno Rojas e a “fogueteira do Maracanã”?

Para aqueles que não se recordam, no dia 3 de setembro de 1989, em jogo pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1990, o Brasil vencia o Chile no Maracanã. Até que aos 24 minutos do segundo tempo a torcedora Rosenery Mello lançou um sinalizador em direção à área do goleiro chileno Rojas. Percebendo a oportunidade, o goleiro desabou em campo e foi rolando em direção à fumaça. 

Rojas surgiu ensanguentado e foi retirado às pressas por seus companheiros de equipe. De imediato os chilenos deixaram o Maracanã alegando falta de segurança. O medo de uma possível não participação na Copa rondou os brasileiros por alguns dias. Porém, a farsa acabou sendo descoberta: na verdade o sinalizador que teria ‘atingido’ Rojas caiu cerca de um metro de distância do arqueiro. 

No meio da fumaça, Rojas tirou uma lâmina que deixou escondido em sua luva e se cortou. A situação já havia sido premeditada. Só estava esperando o melhor momento para isso, que calhou com o rojão disparado por aquela que passou a ser chamada de “a fogueteira do Maracanã”. Virou celebridade e até posou nua para a revista Playboy... 

Uma false flag esportiva. Por isso, facilmente desmontada pela mídia. Porque uma false flag restrita à esfera esportiva não põe em risco a própria matéria-prima da indústria das notícias: o acontecimento. Dessa maneira, o caso da “fogueteira do Maracanã” entrou para o folclore futebolístico.



Porém, a coisa fica mais perigosa, ameaçando colocar em xeque a máquina noticiosa da grande mídia, quando uma suspeita de false flag irrompe no campo das hard news da política e da economia. Por isso, deve ser combatida como “teoria da conspiração” de gente que usa chapéu de alumínio.

O problema é que muitas “teorias da conspiração” sempre são confirmadas a posteriori. Como, por exemplo, o incidente do Golfo de Tonquim: false flag envolvendo as forças navais dos EUA na costa vietnamita em 1964 - incidente que induziu o Congresso a apoiar a declaração de guerra, iniciando a Guerra do Vietnã. Por décadas o incidente foi considerado “teoria da conspiração”.

Ou a participação do Departamento de Estado norte-americano no processo da Operação Lava Jato. Na época, tal tese era rotulada como “teoria da conspiração” até no meio midiático progressista.

O fato é que se a possibilidade da existência de operações false flags ou “não-acontecimentos” forem aceitas não mais a posteriori, mas a priori no campo das hard news, a integridade da matéria-prima das notícias pode ficar comprometida: os próprios acontecimentos podem ser falsos, na medida em que já aparecem nas lentes da mídia como simulações.

“Não-acontecimento” é um dos conceitos mais prolíficos e polêmicos do falecido pensador francês Jean Baudrillard (1929-2007). Diferenciam-se dos acontecimentos históricos (“reais”) porque são eventos imediatamente destinados ao contágio através das imagens midiáticas.

Desde o início, são acontecimentos telegênicos, midiatizáveis, simulam ser espontâneos mas têm a marca da catástrofe virtual – atentados que são deflagrados pontualmente para criar ondas de ressonância no contínuo midiático atmosférico.

Mais uma vez nos defrontamos com a suspeita do não-acontecimento: o suposto atentado contra o vida de Donald Trump, ex-presidente e atual candidato às eleições presidenciais, em um comício na Pensilvânia. 

Por que suspeita? Não-acontecimentos ou False Flags têm quatro características principais: timing, sincronismo, anomalias e chantagem midiática. Assim como o atentado da Pensilvânia. Que repete quase integralmente o script dos atentados false flag na Europa de 2013 a 2016 (Estocolmo, Paris, Nice, Berlim, Londres, Bruxelas etc.): um lobo solitário que é rapidamente identificado após ser assassinado no local (mortos não falam) com um roteiro tomado de anomalia e sincronismos. 

A única diferença é que não temos o elemento jihadista do fundamentalismo islâmico. Agora o protagonista foi um caipira “red neck” do interior da Pensilvânia.



a) Do Timing – quem ganha?

Em primeiro lugar, o incrível timing do acontecimento: às vésperas da Convenção do Partido Republicano que após os acontecimentos não apenas sancionará a candidatura de Trump, mas o receberá como um mártir que derramou seu sangue pela América. E a oportunidade de ouro para amplificar a narrativa de que o ex-presidente é perseguido politicamente e virar o jogo contra a estratégia de Joe Biden de acusá-lo de ser uma ameaça à democracia dos Estados Unidos. 

Além dos tiros na Pensilvânia aconteceram no exato momento em que seu rival democrata é questionado pela sua capacidade física e cognitiva. De imediato, começaram as comparações: a pronta reação de Trump quando foi atingido de raspão na orelha, demonstrando um vigor físico bem superior a Biden. 

Além das entrevistas posteriores que estão rendendo uma boa mais-valia semiótica. Como, por exemplo, quando a caminho da Convenção republicana disse em entrevista aos repórteres do The Washington Examiner e do New York Post: “Eu deveria estar morto”. “O médico do hospital disse que nunca viu nada parecido com isso, ele chamou de milagre”, completou. E acrescentou que pediu para pegar os sapatos logo após o ataque: “Os agentes me atingiram com tanta força que meus sapatos saíram, e eles estavam apertados”.

Para depois se levantar e ter força para cerrar os punhos e exortar à multidão: “Lutar, lutar!”.



(b) Dos Sincronismos – a foto “Delacroix-Rosenthal”

HOW CONVEEEENIENT! Diria a “Church Lady”, personagem impagável do programa clássico Saturday Night Live protagonizado por Dana Carvey. Tudo perfeito demais, rendendo ainda outras mais-valias semióticas: uma foto que já se tornou um instantâneo histórico pela incrível gestalt semelhante ao quadro “Liberdade Guiando o Povo” do pintor francês Eugène Delacroix.  

Ou ainda a histórica foto de Joe Rosenthal mostrando fuzileiros navais americanos erguendo a bandeira dos EUA na guerra do Pacífico em 1945. Tão perfeita e inspiradora em sua dramaticidade que se suspeita dá autenticidade. Se foi forjada, Trump então produziu um meta simulacro – uma cópia de outra cópia...

 O atentado foi tão conveniente que ainda rendeu outras mais-valias caras à extrema-direita. Dessa vez contra Biden: o chefe do serviço secreto, Kimberly Cheatle, nomeado pelo democrata, era criticado pelo trumpismo pelo foco muito mais na inclusão e cotas de gênero do que na excelência da organização.

Pois a foto inspiradora “Delacroix-Rosenthal” mostra uma agente na parte inferior, desequilibrada, abaixo da linha de Trump que cerra os punhos. Ela parece até mais querer se agarrar em Trump para não cair do que dar apoio e proteger o republicano. 

HOW CONVEEEENIENT! 

Aqui o sincronismo encontra-se com o timing: os tiros no comício da Pensilvânia é praticamente um xeque-mate no adversário Joe Biden: somado às sérias suspeitas quanto a sua capacidade cognitiva, Biden se vê acusado pelo próprio Trump pela retórica da campanha que teria levou diretamente à tentativa de assassinato de Trump. Tim Scott, o senador da Carolina do Sul, por exemplo, disse que a “retórica inflamatória dos democratas coloca vidas em risco”. 


c) Das anomalias – um filme dos irmãos Cohen?

Mas o prato cheio mesmo de mistérios é o das anomalias. Para começar, o atirador Thomas Matthew Croocks, um prototípico trumpista.  

Registrado no Partido Republicano (a notícia de que também “fez doações aos democratas” é a pitada necessária para dar ambiguidade inescrutável aos acontecimentos), Crooks morava com os pais e trabalhava como auxiliar de cozinha numa casa de repouso para idosos. Crooks se formou em 2022 na escola Bethel Park High. Na ocasião, recebeu um prêmio de US$ 500 da National Math and Science Initiative, organização sem fins lucrativos que incentiva o estudo de matemática e ciências, segundo o jornal Pittsburgh Tribune-Review.

Crooks foi membro de um clube de tiros local, o Clairton Sportsmen's Club, por pelo menos um ano. Crooks vestia uma camiseta do Demolition Ranch, um canal do YouTube com milhões de inscritos, conhecido pelo conteúdo sobre armas e artefatos explosivos.

O detalhe é que Croocks era um completo inapto em tiro. No máximo, um wannabe de atirador: quando ainda frequentava a escola, Crooks foi rejeitado pelo time de rifles do ensino médio.

Um colega de classe disse à ABC News que pediram a ele que não retornasse ao time após uma sessão de pré-temporada.

"Ele não apenas não entrou para o time, como foi convidado a não voltar mais, porque, por ser um atirador ruim, era considerado um risco", disse Jameson Myers.

A partir daqui tudo começa a ficar cada vez mais parecido com um roteiro de equívocos de um filme dos irmãos Cohen, como Fargo.

O relato mais bizarro, da agência Associated Press, é que um policial chegou a subir no telhado onde estava o atirador, antes dele disparar contra Trump. Croocks, no entanto, se virou em direção ao policial, que tomou um susto ao vê-lo mirando o fuzil em sua direção. Então caiu de uma altura de mais de dois metros, disse o xerife da cidade de Butler à Associated Press. Depois, Thomas Matthew Crooks, de 20 anos, atirou em Trump – clique aqui.

Enquanto isso, apoiadores perceberam dois minutos antes dos disparos um homem rastejando no telhado da edificação fora do perímetro do comício, a menos de 150 metros do palco onde Trump discursava. Assustados, chamaram a atenção dos agentes do serviço secreto que... nada fizeram.

"Alguém está no topo do telhado", grita uma pessoa. "Lá está ele, bem ali". Uma segunda testemunha afirma na sequência, chamando o policial. "Ele está no telhado! Bem aqui, bem no telhado”, mostra um vídeo que circula nas redes. “Officer!”, gritam alguns tentando alertar policiais. Mas nada acontece.

Um atirador inepto, com uma AR-15 de mira telescópica, dá uma saraivada de tiros, sendo que um deles, caprichosamente, passa a um centímetro da cabeça de Trump, rasgando a pele da orelha, que sangra copiosamente para o lado direito do rosto da vítima. Resultado: dois apoiadores mortos e uma foto perfeita com sangue escorrendo para o lado do rosto que, justamente, está voltado para a lente da câmera do veterano fotógrafo Evan Vucci da Associated Press.

Punhos fechados, o olhar de Trump em contra-plongée para o horizonte (o signo do idealismo), mesmo depois de tomar um tiro e se reerguer, com a bandeira dos EUA tremulando ao fundo – a capa da revista Time consegue fazer o enquadramento perfeito dessa foto de Vucci. A foto de outra foto. 

Quase uma versão de extrema-direita da também célebre foto de Che Guevara tirada por Aberto Korda.



d) Da chantagem midiática – onde estão os acontecimentos?

Mas o que esse humilde blogueiro considera a verdadeira armadilha, que ameaça existencialmente o próprio jornalismo, é a chantagem proposta por esse não-acontecimento. 

A própria grande mídia vem expondo essas anomalias em torno do suposto atentado contra Trump. Aqui e ali vemos analistas demonstrando perplexidade diante do poderíamos chamar de canastrice dos eventos (o toque da camiseta “Demolition Ranch” de Croocks é um típico “easter egg” de um filme).

Há, por assim dizer, um mal-estar de jornalistas pela evidente reposta à pergunta que o evento suscita: “Quem ganha?”. O evento veio como um presente para Trump, um prato cheio de conveniência e oportunidades.

Mas, claro, nenhum jornalista “profissional” pode sequer admitir a hipótese da existência de um não-acontecimento, nem como argumento contraditório. No mundo da caça às fake news, “teorias conspiratórias” só podem ser alucinações de “chapéus de alumínio”.

Por risco existencial, a mídia corporativa não pode sequer admitir como tópico de discussão – aceitar a possibilidade da existência de operações false flag significa pôr em risco o próprio estatuto da realidade da matéria-prima das notícias: os acontecimentos.

Diante dessa chantagem, o jornalismo corporativo opta por corroborar com a retórica de Trump: a incompetência do serviço secreto, comandado por um incompetente nomeado por Joe Biden.

O enorme esparadrapo branco (belo contraste com o rosto laranja) na orelha de Trump na primeira aparição pública na Convenção do Partido Republicano, mais silencioso e contido, é a grande conquista semiótica do estranho mundo das “teorias conspiratórias”.

O ex-goleiro da seleção chilena, Roberto Rojas, deve estar se remoendo de inveja.


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