No último domingo (19), a Folha de S.Paulo estampava em sua primeira página que o movimento político de Michelle Bolsonaro prometia ser "imparável". A absorção literal e desprovida de ironia de uma hipérbole bolsonarista pelo relato jornalístico é a ponta de um iceberg linguístico profundo. De um lado, a "bolsonarização" do jornalismo contaminou a cobertura de Brasília com o jargão da caserna — onde acordos viram "situações pacificadas" e parlamentares viram "tropas de choque". Do outro, a "onguização" da linguagem higienizou o debate social, substituindo denúncias de exploração por eufemismos burocráticos. Embora venham de polos opostos, ambos os fenômenos erodem a esfera pública ao desarmar a denúncia das desigualdades na base e transformar a política institucional do topo em um mero campo de batalha cognitivo.
Nesse
último domingo (19/07), o jornal Folha de São Paulo estampou na primeira
página o seguinte título de chamada para matéria: “Movimento de Michelle
promete ser imparável”.
Não
obstante a aparente ironia do título (para tanto, deveria estar entre aspas),
já que Michelle criou um movimento político chamado de “imparável” depois que
saiu do PL Mulher, é inegável que o glossário de expressões bolsonaristas está
lentamente se infiltrando na linguagem do jornalismo.
A tal
ponto que aspas e ironias desapareçam, dando a impressão que esses termos coloquiais
e hiperbólicos pertençam ao próprio relato jornalístico dos fatos.
Por
exemplo, desde que o ex-vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, disse que
era necessário “apertar a tecla SAP” para que o povo entendesse as propostas do
ministro da Economia Paulo Guedes, o general acabou virando, para a cobertura
política, a “tecla SAP” das declarações “polêmicas” de Jair Bolsonaro: Mourão
frequentemente buscava amenizar ou dar um tom mais institucional às falas do
chefe do Executivo.
Paralelo
a essa tendência linguística, sincronicamente outra tendência se consolida: a “onguização”
da linguagem.
Nasce
do encontro entre o discurso dos Direitos Humanos, o serviço social e a
gramática do chamado Terceiro Setor (ONGs, fundações corporativas e organismos
internacionais como a ONU).
Por
exemplo, inicialmente, expressões como "pessoa em situação de rua" ou
"jovem em situação de vulnerabilidade" surgiram com uma intenção
nobre: evitar o essencialismo e o estigma. O objetivo era lembrar que a
pobreza não é uma identidade biológica ou moral (ninguém é
"mendigo" por natureza), mas um estado temporário imposto por
circunstâncias sociais.
No
entanto, ao ser capturada pelo vocabulário burocrático e corporativo, essa
linguagem produziu um efeito colateral profundo: a substituição do
Substantivo pelo Adjetivação Condicional.
Quando
se troca "pobre" ou "trabalhador explorado" por
"indivíduo em situação de vulnerabilidade", desloca-se a causa da
estrutura econômica para uma condição acidental. A pobreza deixa de ser o
resultado de um conflito de classes ou de escolhas de política econômica e
passa a parecer um "evento infeliz" ou uma condição clínica/social a
ser gerada.
A “bolsonarização”
da linguagem jornalística (como o léxico da Caserna invade a Imprensa) e a “onguização”
da linguagem são dois movimentos discursivos.
Embora
venham de polos ideológicos e institucionais opostos, cumprem uma função
semelhante: a reconfiguração do "regime de dizibilidade" no Brasil,
ou seja, a mudança nas regras invisíveis que definem como a realidade pode ser
nomeada, interpretada e comunicada na imprensa e nas instituições.
Se a
onguização suaviza a realidade social, a "bolsonarização" ou
militarização do discurso político embrutece e categoriza a dinâmica política
sob a ótica da tática militar.
Durante
o governo de Jair Bolsonaro — e especialmente pela presença ostensiva de
generais da reserva e da ativa em cargos-chave (como Hamilton Mourão, Walter
Braga Netto e Eduardo Pazuello) —, a imprensa de cobertura política em Brasília
passou por um processo de contaminação lexical por osmose.
Como a Gramática Militar Dominou o Comentário Político
O
jornalismo diário depende de fontes. Ao ouvir repetidamente generais e
assessores militares nos tempos da ascensão do bolsonarismo após impeachment da
presidenta Dilma Rousseff, colunistas e apresentadores absorveram, muitas vezes
sem perceber, a cosmovisão e o jargão da caserna:
Termos
como "zero possibilidade", "situação pacificada", "imparável"
ou "missão aceita é cumprida" etc. apenas refletem uma
mentalidade militar pautada pela hierarquia, pelo controle de danos e pelo
comando centralizado.
Um
glossário em sua natureza antidemocrático, porque em política quase nada é
"zero" ou "pacificado", pois a negociação é contínua e
fluida. Contudo, o jornalismo passou a adotar essas categorias rígidas para
definir o clima político.
De
repente testemunhamos a substituição da negociação pela "Tática de
Campo": A atividade política parlamentar — que envolve barganha,
concessão e mediação — passa a ser narrada como uma operação militar de
ocupação de terreno. Um projeto aprovado no Congresso não é fruto de coalizão,
mas de uma "situação pacificada"; uma candidatura viável vira um
"trator imparável".
Ambos
os fenômenos convergem para um mesmo resultado: a erosão da linguagem
política clássica e da esfera pública – para além da privatização dessa
esfera pelas redes sociais das Big Techs, a própria erosão discursiva.
Em
outras palavras, a destruição da democracia burguesa clássica.
De um
lado, a onguização retira a carga de denúncia do vocabulário social,
tornando-o asséptico e técnico. Do outro, a militarização da linguagem
jornalística reduz a política a uma planilha de combate, em que posições são
"pacificadas" ou "neutralizadas".
O
debate público perde, assim, a capacidade de nomear as coisas pelo seu nome e
de enxergar a política como o espaço da mediação de interesses conflitantes de
uma sociedade livre.
Enfim, tanto
a onguização da linguagem como a militarização da linguagem política criam
os pressupostos semióticos para a destruição de uma esfera pública consensual.
Consenso,
claro, que sempre foi ideológico – uma forma de ocultar a luta de classes e a
exploração.
Porém o
que temos hoje é o cínico realismo: a assunção da impossibilidade de qualquer
consenso, não pela consciência da luta de classes. Mas pela hipernormalização
semiótica.
A Militarização do Léxico: A política como "Operação Cognitiva"
Uma das premissas da guerra híbrida é a dissolução da fronteira entre paz e guerra, civil e militar. Quando o jornalismo político absorve a gramática da caserna ("tropa de choque", "operação de guerra", "blindagem", "fogo amigo"), ele realiza uma operação cognitiva específica:
- Validação da Lógica da Exceção: Ao tratar a negociação parlamentar ou a formulação de políticas públicas como "operações de guerra", o jornalismo naturaliza a ideia de que a política funciona sob lógica de emergência e sobrevivência tática, e não de debate democrático.
- Militarização da Mente": A linguagem molda a percepção. Se o leitor/eleitor é bombardeado com termos táticos militares diários, ele passa a enxergar as instituições democráticas não como espaços de mediação de conflitos legítimos, mas como campos de batalha onde a oposição deve ser "neutralizada" ou "pacificada".
- Vetor Involuntário de Guerra Psicológica: A imprensa, ao reproduzir o jargão dos atores militares que ocuparam o poder, entrega a esses grupos o controle do frame (enquadramento) da notícia. A política deixa de ser avaliada por seus resultados sociais e passa a ser julgada por sua eficiência tática.

A "Onguização": a "bomba semiótica" da despolitização
Se a
guerra híbrida usa a polarização e a gramática militar no topo das
instituições, ela também depende do amortecimento das tensões sociais na base.
É aqui que a onguização atua como um dispositivo de contenção de danos e
disputa de narrativa.
Num
trabalho de sinergia com as estratégias de guerra híbrida:
- A Captura
Semiótica do Conflito: No
vocabulário da luta de classes tradicional, termos como
"pobreza", "exploração" e "desigualdade"
trazem embutidos a exigência de reformas estruturais e apontam culpados (o
capital, o Estado omisso). Quando esses termos são substituídos por
"vulnerabilidade", "situação de rua" ou
"acolhimento", ocorre uma operação de neutralização semiótica.
- Desarmando a
Resistência: A
"vulnerabilidade" é um estado amorfo; não há contra quem lutar
ou quem responsabilizar diretamente. A pobreza passa a ser tratada como um
"risco gerenciável" por políticas de mitigação ou ONGs.
- A Narrativa do
"Gerenciamento Técnico": Na disputa de
narrativas, a onguização retira a periferia e a população marginalizada do
papel de sujeito político (com capacidade de revolta ou
organização) e a coloca no papel de objeto passivo de assistência.
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terça-feira, julho 21, 2026
Wilson Roberto Vieira Ferreira



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