quinta-feira, julho 14, 2022

'Medida Provisória': racismo como guerra cultural com as digitais do padrão Globo Filmes


Assim como foi em “Que Hora Ela Volta?” (2015), “Medida Provisória” (2020), dirigido por Lázaro Ramos, é mais um filme cujo padrão Globo Filmes é o suficiente para diluir um conteúdo potencialmente crítico e corrosivo. Um filme cuja repercussão se deve mais a fatores extra-fílmicos (um país com governo militarizado e de extrema-direita) do que por suas qualidades estético-cinematográficas. Fazendo a crítica confundir uma suposta crítica social com análise fílmica. Com narrativa maniqueísta e estereotipada, “Medida Provisória” reduz a questão racial ao confortável campo dos valores e da guerra cultural, desviando do texto teatral original “Namíbia, Não!”. Confortável para quem? Daí entra os fatores extra-fílmicos: a repercussão de um filme em ano eleitoral cujo viés involuntariamente (pelos menos para diretor e roteiristas) se alinha ao discurso da guerra cultural que agrada a própria extrema-direita. 

Diz-me quem te produziu e distribuiu que te direi quem és. As condições materiais de produção em última instância determinam os produtos culturais – seja na forma ou no conteúdo, na linguagem ou no viés ideológico. Não é por menos que, nesse Cinegnose, as fichas técnicas de cada filme analisado figuram os itens “Produção” e “Distribuição”.

Qualquer análise materialista do cinema deve levar em consideração esses dois aspectos. Para além dos raros momentos em que diretor e roteirista conseguem autonomia intelectual em relação às condições de produção e distribuição (autonomia em relação aos donos da grana que bancam toda a linha de produção), os interesses econômicos, políticos ou ideológicos dos produtores é que moldam o produto fílmico. 

Com o filme brasileiro Medida Provisória (2020) não poderia ser diferente, principalmente porque por trás da direção e roteiro de Lázaro Ramos está a distribuição da H2O Films (distribuidora mainstream por trás de sucessos de bilheteria da Globo Filmes) e a co-produção da Lereby Produções (do emérito ator e diretor da TV Globo Daniel Filho) com a Globo Filmes.

Medida Provisória é baseado no sucesso teatral “Namíbia, Não!” (cujo espetáculo estreou em 2011), escrito por Audri Anunciação e que também virou livro premiado com um Jabuti em 2013. 

Segundo orientações do próprio autor do texto, as ações devem se passar cinco anos adiante do tempo atual, recebendo uma abordagem futurista. Diferentes de outras obras da dramaturgia negra, nesse texto não temos o ponto de vista dos menos favorecidos da sociedade brasileira. Centrado em dois primos negros advogados de classe média, são surpreendidos por uma Medida Provisória do Governo brasileiro que obriga a todos os cidadãos com características que indiquem ascendência africana – no texto nomeados como “sujeitos com melanina acentuada” – a regressarem a seus supostos países de origem. Todos devem ser capturados e devolvidos às nações de África, sob o pretexto de “corrigir” o erro histórico da escravização dos africanos nas terras brasileiras.

Por isso o texto original propositalmente evita elementos folclóricos, afrossincretismos, do carnaval ou de certas construções da virilidade ou feminilidade negra. Ao contrário, os protagonistas estão perfeitamente encaixados na sociedade, representando a normalidade, sem focar na alteridade ou diferenças culturais.



A estranheza original da peça teatral está em dois primos, involuntariamente presos num apartamento minimalista e sofisticado de classe média, discutindo questões socioeconômicas da condição negra (p.ex., como o Brasil subsistiria sem o trabalho econômico e a histórica contribuição criativa e cultural negra) e que descobrem que a única diferença em relação aos outros é a cor. De repente, a cor virou crime!

Muito diferente da versão cinematográfica Medida Provisória: enquanto a peça teatral (aliás, dirigida pelo próprio ator Lázaro Ramos) impactou pelas suas qualidades dramatúrgicas (reflexão, visão irônica, e até cômica, presente nos diálogos), a versão cinematográfica ganhou repercussão muito mais pelo contexto extra-fílmico - o fato do país estar sob um governo de extrema-direita cuja base social de apoio se alimenta do ódio, racismo, preconceito e intolerância.

Parece que o panorama externo ajudou a esconder a fragilidade narrativa, estética e de linguagem de Medida Provisória. Em primeiro lugar, a proposta explícita do diretor em ser acessível ao grande público, apresentando uma narrativa de engajamento social e político esquemática, maniqueísta, panfletária. Em segundo, a forma como o filme desloca a discussão do texto original “Namíbia, Não!”: enquanto a peça é focada em protagonistas de classe média encaixados na sociedade e que, de repente, se veem vítimas do preconceito pela cor da pele, Medida Provisória quer transformar um texto irônico num veículo de protesto e engajamento social.



E, o que é pior, toma os protagonistas (um jornalista, um advogado e uma médica) como representantes do drama nacional do racismo, sem diferenças de classes – por que a polícia não invade o apartamento dos protagonistas localizado na Zona Sul carioca, enquanto nos morros e favelas a polícia captura a população negra sem nenhum mandado ou pruridos jurídicos? 

E em terceiro lugar, estranhamente Medida Provisória parece traduzir todo o racismo e preconceito como a negação do mérito de pessoas como “melanina acentuada” bem-sucedidos. Reduz a crítica a questão de valores ou “guerra cultural”.

O Filme

Medida Provisória começa com o Estado sendo condenado a pagar uma reparação social à toda violência, escravidão e segregação do povo negro, no valor de R$ 900 bilhões, um custo que seria “inconcebível aos cofres públicos”. Em reação, o governo baixa uma Medida Provisória que “segue todos os trâmites da lei” – o que amargamente lembra tudo o que ocorreu no país até o golpe de 2016. Uma medida distópica ordenando todos os brasileiros de “melanina acentuada” sejam mandados de volta à África – sob a aparência de fazer justiça ao “erro” da colonização portuguesa, na verdade o governo procura a solução mais barata ao Estado para fazer frente à ação de reparação social.

A partir dessa proposta, o filme acompanha o jovem casal formado pela médica Capitu (Taís Araújo) e pelo advogado Antonio (Alfred Enoch) e o seu primo, o descontraído e expansivo jornalista André (Seu Jorge) que mora por favor no apartamento do casal.



O que começa como uma proposta voluntária (o “Programa Resgate-se”), torna-se uma verdadeira perseguição racial com a diretiva do Governo, com todo suporte legal, de que policiais prendam nas ruas qualquer pessoa que, de longe, aparente ser de origem africana. Para imediatamente, ser deportado para aquele continente.

A medida pega o casal Capitu e Antônio de surpresa, que se veem separados: ele, involuntariamente prisioneiro no apartamento junto com seu primo, e Capitu nas ruas fugindo das forças policiais. Até ser resgatada por um militante ligado a um “AfroBunker”, espécie de quilombo futurista onde estão sendo articuladas estratégias de resistência em meio ao caos social. Lá se destaca Berto (Emicida), uma espécie de cronista dos acontecimentos.

Ao longo das sequências de caça das forças policiais, conhecemos os vilões da trama: Isabel (Adriana Esteves), funcionária do governo que coordena as operações, sempre tentando evitar que possíveis heróis sejam criados em casos de violência ou morte de “melaninos acentuados”; e Dona Izildinha (Renata Sorrah) a vizinha do prédio de Antônio que torce para que ele seja logo capturado pela polícia para vagar o apartamento para aluga-lo.

As digitais da Globo Filmes

São visíveis as digitais mainstream da co-produção com a Globo Filmes. Em postagem anterior, sobre o filme Que Horas Ela Volta? (2015) observávamos com um conteúdo potencialmente crítico (a história da filha da empregada que entra na universidade, refletindo a ascensão da classe C da era Lula) podia ser diluído por meio do “padrão globo de qualidade” – personagens unidimensionais, maniqueístas e estereotipados onde a crítica social é reduzida à revanche desajeitada e cômica da empregada Val sobre a patroa megera.



Em Medida Provisória encontramos o mesmíssimo modus operandi. Para começar, a questão racial é reduzida à zona de conforto para a audiência e para o mainstream global: uma questão de valores e de um país que viveria uma guerra cultural – aproximando-se do discurso confortável da extrema-direita.

Os aspectos econômicos e políticos são esvaziados: por que a reparação social iria quebrar os cofres públicos se, hoje, o Estado paga para os credores da banca financeira quase 50% do orçamento anual? Por que privilegiar a banca financeira (racialmente branca) em detrimento de uma reparação que faria uma justiça histórica? 

A certa altura, André está sendo entrevistado pela funcionária do Governo Isabel, para ser convencido a aderir ao “Programa Resgate-se”. André desafia: “Eu tenho a liberdade de ir para onde quiser... se quiser ir para Paris primeiro, ante de ir para a África, eu farei!”. 



A narrativa toma aqui uma visão abstrata, para não dizer “kantiana”, da liberdade. André talvez tenha essa liberdade, como jornalista que mora na Zona Sul do Rio de Janeiro. Mas, e os negros dos morros e periferias? Medida Provisória discute uma noção abstrata de liberdade, como um direito para todos, independente da posição socioeconômica - essa sim, determinante do grau de liberdade de ir e vir. Mas isso seria politizar demais a questão, saindo do campo ideologicamente confortável dos “valores”.

Outro ponto é o do “mérito”, palavra diversas vezes repetida nas linhas de diálogo do filme. O ponto nevrálgico que pega os protagonistas Capitu e Antônio é que os seus méritos que os tornaram profissionalmente bem-sucedidos dentro da classe média, estão sendo ignorados pelo preconceito de raça. Novamente o esvaziamento da dimensão econômica e política: num sistema economicamente perverso, eles são a exceção que confirma a regra. Não é a mentalidade preconceituosa de Isabel ou da Dona Izildinha que não reconhece os seus méritos. Mas o próprio sistema econômico e a luta de classes que impede negros de alcançar qualquer mérito. 

Daí que o AfroBunker, figurado com toda estética midiática do afrossicretismo, seja ocupado em sua maioria por negros bem-sucedidos – artistas, poetas, profissionais liberais etc. Será que no universo ficcional de Medida Provisória há AfroBunkers na favela da Maré, Complexo do Alemão, Babilônia etc.?

Há momentos de maniqueísmo raso constrangedores, como quando o ministro racista degusta, em close-up, um sorvete de chocolate. A narrativa torna-se tão maniqueísta, com personagens tão caricatos, que fica difícil buscar algum nível de empatia com os protagonistas. Além de ser estarrecedor como fica impossível ao espectador ser afetado por qualquer tensão nas perseguições de rua, muito menos sentir angústia nos momentos em que Antônio e André estão presos no apartamento em meio a fome e a sede. 

A linguagem audiovisual é de fluidez e superficialidade, como em uma narrativa de telenovela da Globo, com a suas alternâncias de câmera em primeiros planos, sem a dramaticidade dos planos abertos ou planos sequências longos.

Em síntese: como sempre, as Organizações Globo sabem para onde o vento sopra: Que Hora Ela Volta? foi o início do movimento da Globo se descolar da extrema-direita que ela apoiou para engrossar o caldo social e psíquico do impeachment de 2016.

E agora, com o fim da “terceira via”, restando unicamente como “esperança branca neoliberal”, mais uma vez, a tosquice violenta de extrema-direita de Bolsonaro, Medida Provisória é o filme perfeito para retroalimentar o confortável campo alt-right das guerras culturais.

Lembre-se, caro leitor: tudo começou quando o candidato à presidência José Serra, em disputa que perderia para Dilma Rousseff, em 2010, declarou: “não quero mais discutir economia, quero discutir valores!”. Essa foi a críptica declaração que seria uma espécie de guia para o auge da guerra híbrida que estava por vir. E que Medida Provisória dá continuidade.


 

Ficha Técnica

 

Título: Medida Provisória

Diretor: Lázaro Ramos

Roteiro: Lázaro Ramos, Aldri Anunciação

Elenco:  Alfred Enoch, Seu Jorge, Taís Araújo, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida

Produção: Globo Filmes, Lereby Productions

Distribuição: H2O

Ano: 2020

País: Brasil

 

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