sábado, outubro 28, 2017

Madonna e Bono Vox fazem o País cair na real


Surreal ironia: enquanto o motorista da Universidade Federal conduzia este humilde blogueiro para uma palestra no Rio no dia 24, orientado por um aplicativo que em tempo real envia alertas de locais com tiroteios, assaltos e arrastões, lá em cima, em cerimônia no Cristo Redentor, estavam membros da elite artística e tecnológica global. Entre eles, Madonna, Bono Vox e Elon Musk, convidados para o casamento de uma modelo brasileira com um empresário da indústria do entretenimento mundial. No dia seguinte, Madonna posou na Rocinha com roupa de camuflagem ao lado de policiais orgulhosamente exibindo armas. Enquanto, na turnê brasileira, Bono Vox e o U2 hastearam a bandeira nacional em um telão sob a exortação “censura nunca mais!”. Casamentos-ostentação sempre ganham espaço na grande mídia em épocas de crise e acirramento da desigualdade. Mas dessa vez, o momento é especial: o ativismo-clichê de Bono Vox e a euforia de Madonna em área de violenta conflagração parecem querer transmitir uma mensagem para o mundo: Vejam! O Brasil voltou à normalidade – desempenhar o eterno papel de “país do futuro” enquanto oferece como “city tour” para turistas as mazelas da violência e apartheid social.

Dois “casamentos-ostentação” como há muito tempo não se via na grande mídia. Casamentos que se tornaram simbólicos no contexto atual marcado pela crise econômica, desemprego endêmico e acirramento das desigualdades. Tão simbólicos que mais parecem sintomas de uma patologia social em um país psiquicamente doente.

No dia 7/10, nos jardins da mansão da família do noivo no condomínio de luxo em Campinas, o casamento da atriz da TV Globo Marina Ruy Barbosa com o piloto de Stock Car e empresário Xande Negrão. Com a presença de toda a fauna da grande mídia (do presidenciável Luciano Huck, passando pelo indefectível Galvão Bueno e o Ronaldinho “Fenômeno” até ao jogador Neymar, o grande investimento de marketing da emissora para a próxima Copa), contou com a presença de 800 convidados.

Uma simbólica união entre a elite midiática e empresarial: o casal se conheceu em um pousada de Fernando Huck em Fernando de Noronha.

E o momento mais esperado, quando a noiva joga o buquê para os convidados, foi narrado pelo locutor Galvão Bueno. E quem pegou o buquê foi a top Celina Locks, namorada do Ronaldinho.

Casamento-ostentação Hortência e Oliva em 1989: depois, populares saquearam as frutas da decoração

Casamentos-ostentação parecem sempre ocupar a mídia em períodos agudos de crise econômica e social nacionais. E sempre com algum tipo de aliança entre grande mídia e elite econômica.

Como, por exemplo, o casamento com a estrela do basquete Hortência com o empresário José Victor Oliva em 1989 na Igreja Nossa Senhora do Brasil, em São Paulo, ricamente decorada com flores e frutas e toda ostentação midiática. Em meio à crise da hiperinflação e violenta concentração de renda. Acabada a cerimônia e após a saída dos convivas, a igreja foi invadida por populares que saquearam as frutas decorativas.

Nas nuvens do Cristo Redentor


Poucos dias depois do simbólico casamento Globo/elite empresarial em Campinas, o segundo casamento-ostentação: desta vez entre a modelo brasileira Michele Alves e o empresário da indústria do entretenimento norte-americana Guy Oseary. Com direito a casamento no Santuário do Cristo Redentor e, como não poderia deixar de ser, festa na casa do presidenciável Luciano Huck e sua aspirante a primeira dama Angélica.

Entre os convidados Madonna, Bono Vox, Flea (da banda Red Hot Chilli Peppers) e o bilionário e visionário de empresas de alta tecnologia Elon Musk – aquele que afirma que o Universo é uma simulação computadorizada e a Inteligência Artificial uma ameaça real à humanidade.

O casamento foi dia 24, dia em que esse humilde blogueiro desembarcou no Rio para uma palestra na UFRRJ. Curiosa ironia: enquanto o motorista da universidade me conduzia orientando-se por um aplicativo que mapeia em tempo real áreas com tiroteio na cidade, lá em cima no Cristo Redentor estavam membros da elite global da indústria de entretenimento e de alta tecnologia.

Enquanto isso, lá embaixo, este humilde blogueiro era levado por um aplicativo que alertava tiroteios na cidade...

Acredito que isso é mais do que uma ironia, mas um sintoma: personagens que puderam finalmente aportar aqui depois que o País foi “pacificado” – de nação recalcitrante, finalmente tornou-se dócil a atual agenda geopolítica da globalização: financeirização aliado com apartheid social com viés de controle populacional, no qual crime e violência são uma das variáveis da equação.

Bono Vox em um país “pacificado”


Exagero? Afinal, Guy Oseary é o empresário de Madonna e da banda U2 e Musk um esperto empresário que sabe combinar a especulação midiática com o mundo arriscado dos investimentos.

Porém, de certa forma, as atitudes de Madonna e Bono Vox em terras brasileiras fizeram cair a ficha da real condição brasileira nesse momento.

Bono Vox, contumaz ativista do mainstream em constantes participações nas reuniões no Fórum Econômico Mundial em Davos, deu uma críptica declaração na reunião de 2005: “Lula mudou a agenda de Davos”. Uma declaração no mínimo ambígua: elogio ou revelação do incômodo que representava o então presidente?

Ativismo-clichê do U2: censura recente no Brasil?

Nos shows do U2 deste ano no Brasil, uma bandeira brasileira era hasteada no telão e o baterista Larry Mullen vestia uma camiseta na qual lia-se “censura nunca mais” – houve censura estatal nos governos recentes?

É sintomático que desde a turnê “Pop Mart” no Brasil em 1998, Bono Vox e a banda não se esbaldavam no Brasil por tantos dias, com intensa agenda profissional e social, como nessa turnê “Joshua Tree 30 Anos”.

Madonna e o verdadeiro produto turístico nacional


Depois de alguns anos em que o Brasil tentou ombrear com os países hegemônicos ao sediar a Copa do Mundo e Olimpíadas (sabemos que, desde as Olimpíadas nazistas de Berlim de 1936, os jogos olímpicos tornaram-se instrumentos de propaganda geopolítica), tudo foi desconstruído em grande escândalo de corrupção – o presidente do Comitê Olímpico brasileiro, Arthur Nuzman, preso e o esquema de corrupção de escolha do Brasil revelado.

Curioso que até agora a Copa do Mundo no Brasil não teve tal fúria moralizadora. Talvez pelas relações viscerais entre Fifa, CBF e TV Globo.

Depois do Brasil ser colocado no seu devido lugar, eis que Madonna, mais do que todos os outros convidados para o casamento-ostentação do Cristo Redentor, faz o País cair na real e revela a verdadeira vocação “turística” brasileira para o restante do planeta.

Apenas dois dias depois de uma turista espanhola ser baleada e morta na favela da Rocinha por policiais, Madonna posou com roupa de camuflagem ao lado de dois policiais empunhando orgulhosamente armas. No passado turistas andavam com roupa safari para visitar o Brasil. Agora, usam roupas de camuflagem militar.

O álibi da "Casa Amarela": Madonna quer mesmo é mostrar que o País voltou a ser o mesmo

As opiniões se dividiram nas redes sociais: de um lado, acusando a rainha do pop de “insensível” no momento de crise de segurança pública; e do outro elogiando-a como “rainha da humildade”: arriscou a vida para visitar um Centro Cultural da Rocinha, a Casa Amarela.

Mas o fato de Madonna ter chegado poucas horas depois de um enfrentamento na Rocinha e desfilar com roupa “coerente” com a situação (como em um vídeo-clipe), fazendo gestos de rapper e com um séquito de pessoas prontas para produzir imagens do passeio e irradiá-las para o mundo, é um sintoma de como a elite globalista finalmente sente-se à vontade no Brasil. Após a terra arrasada.

Finalmente, 21 anos depois de Michael Jackson gravar um vídeo-clipe na comunidade de Dona Marta no Rio, agora Madonna repete o feito num país “pacificado”, pelo ponto de vista da agenda globalista. É como se ela e todo o conjunto de imagens enviadas para o planeta sobre o casamento-ostentação da modelo brasileira com o poderoso empresário da indústria do entretenimento dos EUA transmitisse a seguinte mensagem: vejam! O Brasil voltou à normalidade!

Se no passado o País oferecia como produto de exportação Carmem Miranda, Carnaval, Bossa Nova, Samba e futebol, com o acirramento da desigualdade e crise econômica desde a ditadura militar passamos a exportar seus subprodutos: turismo sexual e violência.

Papel higiênico e racismo: elite brasileira vive numa bolha

As comunidades dos morros do Rio se transformaram nos últimos anos numa espécie de city tour alternativo no qual turistas passeiam como estivessem em um bizarro Simba Safári.

Principalmente porque o chamado “cinema da retomada” nacional criou como subgênero os “favela movies” como Cidade de Deus e Tropa de Elite, tornando iconicamente famosos da pior maneira possível morros e favelas cariocas.

Hoje, um dos produtos de exportação do País é o turismo da sua própria desigualdade e violência. Com a Copa do Mundo e Olimpíadas, o Brasil tentou brevemente reverter essa sina.

Mas Bono Vox e Madonna nos ajudaram a fazer cair a ficha e mostrar para os brasileiros bestificados que tudo voltou à perversa normalidade.  

PS.: (1) Enquanto o vestido da noiva Michelle Alves, do estilista Zac Posen, custou 320 mil reais, o aluguel do Santuário do Cristo Redentor (um dos pontos turísticos mais famosos do planeta) foi alugado pela bagatela de R$ 2.300,00. Sintomático em um contexto no qual o patrimônio nacional é vendido a preço de banana.

(2) Paralelo a isso, a noiva famosa do casamento anterior (a atriz global Marina Ruy Barbosa) estrelava campanha de um papel higiênico de cor preta. A campanha foi acusada de racismo ao inadvertidamente (será?) usar a frase “Black is Beautiful” - frase adotada pelos ativistas do movimento negro nos EUA). A atriz e a marca foram às redes sociais pedir desculpas. Mais um sintoma da verdadeira bolha na qual vive a elite brasileira.  
  

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