domingo, dezembro 15, 2013

Curta "Compramos e Vendemos Sentimentos" renova crítica ao consumismo


Produtos audiovisuais de língua portuguesa estão inovando a forma de abordar a sociedade de consumo. Fugindo da habitual crítica do ter-que-substitui-o-ser (que se tornou clichê no momento em que a moderna publicidade absorveu a crítica e transformou a imagem do consumo em atividade “consciente”, “sustentável” e “espiritualizada”), o curta “Compramos e Vendemos Sentimentos”, trabalho de conclusão de curso de Cinema da Universidade Lusófona de Lisboa, apresenta uma nova abordagem crítica ao consumismo: uma sociedade mecanizada e futurista onde as pessoas para poderem ir e vir têm de se vender. São viciadas em sentimentos e têm de trocá-los para adquirirem o que querem. Veja o curta.

Por muito tempo a crítica mais comum à sociedade de consumo sempre foi de que é uma sociedade de alienação e de espetáculo, onde o ter substitui o ser. Mas a indústria publicitária e o consumismo evoluíram e incorporaram essas críticas quando se tornaram mais “espiritualizadas”: parece que assimilaram todas as críticas feitas a ela ao longo da história (consumismo, superficialidade, frivolidade, materialismo etc.) e agora procura demonstrar através de um novo discurso que mudaram, se espiritualizaram e não veem mais o consumo como mero ato de aquisição, mas de enriquecimento espiritual.

Tendências como o chamado “consumo consciente”, “sustentável” e todo um discurso motivacional e ético que envolve agora o ato da compra (o consumo muito menos como um ato de acúmulo e ostentação e mais como uma oportunidade de buscar uma espécie de atalho para a iluminação espiritual - comprar-consumir-espiritualizar-se) parece dominar a linguagem publicitária.


Por isso poucos filmes sobre o tema consumismo conseguem escapar do lugar comum do ter-que-substitui-o-ser, incorrendo no moralismo de que todo o problema da sociedade do consumo está no excesso, na compra de bens supérfluos e nos problemas ambientais decorrentes. Filmes como Sex and the City (2008), Delírios de Consumo (2009) ou mesmo documentários como Super Size Me (2004) ou Surplus (2003) ficam nos aspectos mais evidentes do problema como o excesso, a viciosidade, o terrorismo publicitário e as questões ecológicas.

Filmes mais diferenciados como Amor Por Contrato (2009), Crazy People (1990) ou Como Fazer Carreira em Publicidade (1989) ainda permanecem no campo da persuasão subliminar da linguagem publicitária e do Marketing.

Talvez a novidade crítica em relação à nova fase da sociedade de consumo venha de produções audiovisuais em língua portuguesa. O Filme 1,99: Um Supermercado que Vende Palavras (2003) de Marcelo Masagão foi uma novidade ao tratar o consumo não mais como um ato de compra pura e simples, mas como uma forma fetichista de aquisição de valores abstratos: ideias, motivações, sentimentos, etilos de vida etc. Pessoas entram em um estranho supermercado onde os produtos estão vazios. As pessoas apenas compram as palavras que estão nas embalagens. Nesse filme, Masagão foi mais além: mesmo aqueles que teoricamente estão excluídos do consumo (no filme, aqueles que estão perambulando como zumbis fora do mercado) “consomem” os produtos enquanto desejam, invejam e tentam imitar adquirindo produtos piratas.

O curta Compramos e Vendemos Sentimentos


A outra novidade é o curta português Compramos e Vendemos Sentimentos (2007), trabalho de final de curso de alunos do curso de Cinema, Vídeo e Comunicação Multimídia da Universidade Lusófona em Lisboa, Portugal. Dirigido por Vitor Pedrosa e Francisco Souza, lembra bastante o argumento do filme de Masagão. O curta é ambientado em uma sociedade mecanizada e futurista onde as pessoas para poder ir e vir têm de se vender. São viciadas em sentimentos e têm de trocá-los para adquirirem o que querem. O espectador acompanha essa história por um fio condutor, que é o personagem principal, Lúcio, que um dia tenta mudar a forma de pensar daquela sociedade, com um sentimento que não se sabe ao certo qual é.

Nessa sociedade existem espécies de shopping centers bem incomuns: formam-se filas em guichês para se vender e comprar sentimentos. Nesses guichês formam-se filas com vários tipos de pessoas: o velho que quer vender tristeza, o jovem obeso que quer comprar controle… Lúcio está na fila das vendas e quando, chega a sua vez, tenta vender todos os seus sentimentos, colocando uma grande porção de confeitos (no curta os sentimentos são representados por confeitos) em cima da mesa do atendimento. O empregado justifica que não está autorizado a vender um número tão elevado de sentimentos e ameaça chamar a Segurança . No meio da discussão surge uma misteriosa garota que decide ficar com todos os sentimentos de Lúcio, entregando um único sentimento em troca.

A cenografia branca, em fundo infinito e com uma fotografia e décor assépticas tal como um hospital faz lembrar do filme brasileiro 1,99. E o mesmo enfoque abstrato, fetichista e metafísico da sociedade de consumo: não compramos mais coisas (roupas, carros ou comida), mas abstrações, sentimentos, valores como o denominador comum de tudo. Tal como em 1,99, as pessoas vagam como zumbis pelo shopping, com suas roupas cinzas, pretas e brancas, sem cor ou vida. Precisam comprar motivação, élan para viver.

É marcante no curta como os sentimentos são representados: por confeitos. Nada mais descartável do que ser representado por um junky food, símbolo da viciosidade e compulsão: assim como o consumo das drogas onde na primeira vez que é consumida “batem” muito rápidas proporcionando grande prazer, para depois serem consumidas de novo em busca da sensação da primeira vez que nunca mais será alcançada – condição para se criar o ciclo vicioso do consumo até a overdose.

 A virtude tanto do 1,99 de Masagão quanto o brilhante trabalho de conclusão de curso da Universidade Lusófona é conseguir representar audiovisualmente um tema tão abstrato quanto a “espiritualização” atual da sociedade de consumo. Talvez seja por isso que o cinema continue a abordar o tema consumismo pelo seu aspecto mais visível, porque filmicamente é mais fácil de representar por meio do exagero da compra de produtos tangíveis.

Quem é a garota misteriosa?


Uma abordagem tão etérea, abstrata e metafísica da sociedade de consumo, necessariamente vai bater na porta dos arquétipos gnósticos. Quem é a misteriosa garota para a qual o protagonista entrega todos os seus sentimentos tão descartáveis como confeitos para, em troca, receber o sentimento mais verdadeiro e duradouro, o amor?

O casal caminhando juntos para um fundo infinito dá um nítido significado místico para esse encontro: o arquétipo de Sophia. Um dos mais importantes aeons da mitologia gnóstica como aquela que desperta no homem a necessidade da gnose e como aquela que, secretamente, doa seu amor e sabedoria aos homens ao contribuir com importantes padrões arquetípicos à Criação. É recorrente na filmografia atual como os personagens femininos são aqueles que tiram o protagonista de sua zona de conforto, provocam-no ou criam situações para que desperte nele a iluminação ou, pelo menos, a intraquilidade que exige a necessidade de mudanças.

O protagonista Lúcio é o arquétipo contemporâneo do Estrangeiro. O personagem do Estrangeiro é tomado na cinematografia atual tanto no sentido daquele que veio de longe, de outras terras, dimensões ou planetas, como aquele que mantém uma relação de estranhamento e mal-estar onde vive, sentindo-se como um estrangeiro na sua própria família, trabalho ou sociedade.

Lúcio sabe que há algo errado na sociedade em que vive e tenta traduzir esse sentimento dentro dos termos que a sociedade coloca para ele: ir ao shopping e trocar todos os seus sentimentos descartáveis e vazios por alguma coisa que nem ele sabe o que é. E eis que surge a misteriosa e atraente garota que troca todos os confeitos por um bem sem nenhuma concreção: o amor, a simples presença dela ao seu lado, seguindo com ele seu caminho.

Assim como o filme 1,99 de Masagão, o curta Compramos e Vendemos Sentimentos retoma o clássico tema marxista do fetichismo da mercadoria: objetos e ideias  tornam-se verdadeiras varinhas de mágicas que dão sentido aos relacionamentos humanos. Se produtos, ideias ou slogans adquirem qualidades humanas, para nos humanizarmos de volta temos que adquiri-los ou, no mínimo, desejá-los.

A misteriosa garota (Sofia?) nega isso e tira o protagonista daquela sociedade insana: os verdadeiros valores já estão em nós mesmos e na forma como os trocamos uns com os outros, sem mediações mercantis.

Ficha Técnica

  • Título: Compramos e Vendemos Sentimentos
  • Diretor: Vitor Pedrosa e Francisco Souza
  • Roteiro: Emmanuel Caetano, Andreia Nunes e Francisco Souza
  • Elenco: Francisco Souza, Rita Martins, Nuno Machado, Vitor Toledo
  • Produção: Andreia Nunes, Universidade Lusófona
  • Ano: 2007
  • País: Portugal

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