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sexta-feira, julho 08, 2022

'Pleasure': a invenção do feminino pelo olhar masculino da indústria pornográfica


#MeToo, Time’s Up, movimentos de mulheres, de gênero, de raça. Uma onda sísmica de denúncias de assédios, intolerância e preconceitos abala Hollywood, mídia e meio corporativo. Encampado pela grande mídia e setores políticos progressistas ou nem tanto. Porém, um setor na sociedade permanece alheio a tudo isso, uma indústria silenciosa e oculta no cotidiano: a indústria pornográfica e sua linha de produção que continua irradiando no dia a dia o prazer escópico masculino que reduz mulheres e raças a fetiches do capital. Tornando os movimentos identitários um trabalho de Sísifo. O filme sueco “Pleasure”, da diretora Ninja Thynberg, é o olhar de uma estrangeira para a indústria multimilionária pornô dos EUA, fugindo dos discursos maniqueístas e moralizantes. Ao narrar a estória de uma jovem que chega em Los Angeles disposta a se tornar uma estrela mundial do gênero, Thynberg lança um olhar corajosamente feminista sobre o prazer escópico masculino da base dessa indústria: a invenção do “feminino” pelo ponto de vista do capital.  

 

As ideologias são as práticas cotidianas
(Ciro Marcondes Filho)

 

Em tempos de militância identitária em alta, que até conquistou a grande mídia (transformando programas de entretimento matinais em verdadeiros folhetins woke), nada parece escapar à crítica de raça, gênero etc. Publicidade, telenovelas, discursos políticos, time lines das redes sociais, o machismo nas relações familiares e conjugais, o racismo nas relações trabalhistas, assédios morais e sexuais em ambientes corporativos, nada parece escapar ao escrutínio identitário.

Por exemplo, o movimento #MeToo nos EUA varreu como onda sísmica Hollywood com dossiês contra o produtor Harvey Weinstein, um grande protesto no Globo de Ouro e a criação de uma entidade chamada Time’s Up que visa lutar contra o assédio sexual e discriminação.

Apesar de todo esse barulho, parece que um campo foi esquecido pela fúria identitária pela transformação da sociedade: a indústria pornográfica mainstream, cuja força amplamente desconhecida, silenciosa e oculta é capaz de moldar a tecnologia e a cultura – por exemplo, o mercado pornográfico foi a razão pela qual o VHS e o Blu-ray triunfaram sobre o Beta Video e o HD DVD.

   Principalmente quando sabemos que ao lado dos filmes sobre a Paixão de Cristo, o primeiro gênero a prosperar desde o Primeiro Cinema da virada do século XIX-XX foi justamente a pornografia. Um enclave que se tornou multimilionário e uma indústria em que o seu poder está na relação direta com a sua discrição.

Até aqui, os filmes sobre a indústria pornográfica figuram entre a indulgência e o pusilânime, com uma crítica que não vai além dos discursos moralizantes ou do sensacionalismo exploitationHardcore (1979), O Povo Contra Larry Flynt (1996), Boogie Nights (1997), Wonderland (2003), Um Filme Sérvio (2010), Lovelace (2013) são alguns exemplos pretensiosos em descrever a indústria pornô entre um suposto realismo e o sensacionalismo moralizante.

Um ponto surpreendentemente fora da curva é a co-produção Suécia, França e Países Baixos Pleasure (2021): um olhar provocativo, complexo e equilibrado sobre a indústria pornô. Mas também corajosamente feminista, sobre uma indústria eminentemente masculina que simbolicamente celebra o poder fálico e, de uma forma perversa, a própria ordem do patriarcado.

A diretora sueca Ninja Thyberg descreve por vezes de forma cômica, banal, angustiante e, muitas vezes, inequivocamente brutal, a economia política dessa indústria, incluindo seu modo de produção, a cadeia produtiva de agentes de atrizes, produtores, fotógrafos, diretores etc. Mostrar que por trás dos gemidos, desejos, respirações arfantes e tesão que parece transbordar das telas, está a rotina das operações de bastidores, protocolos de limpeza, sua feiura kitsch e novo riquista de um mercado que, só nos EUA, movimenta bilhões de dólares.



Thyberg é corajosa e não se esquiva das especificidades de seu meio – a estreia do filme no ano passado no Festival de Cinema de Sundance chocou o público com o seu conteúdo explícito e, às vezes, extenuante. Porém, não é tanto uma exposição sobre o que a pornografia faz com as mulheres (não vemos sexo explícito, mas apenas órgão masculinos – chegando aos detalhes dos aditivos fármaco-químicos que os mantêm eretos por todo um plano sequência), mas um exame angustiante do que o local de trabalho espera e permite a homens e mulheres.

Como um mercado que movimenta tamanha soma de dinheiro, riqueza e poder pode se manter tão silencioso, passando inclusive ao largo da atual febre identitária que caça assediadores em Hollywood? Tamanho poder e influência silenciosa é o que ajuda a manter a reprodução cotidiana de tudo aquilo que movimentos como “Me Too” querem combater com estardalhaço midiático.




O implacável realismo de Pleasure mostra que a forca das ideologias está mesmo nas práticas cotidianas: num mercado silencioso que impacta culturalmente ao manter a mitologia do feminino que tantas pensadoras feministas históricas como Simone de Beauvoir, Angela Davis ou Betty Milan combateram – o machismo e patriarcado irradiado pelo próprio modo de produção capitalista, cuja indústria pornô é o seu paroxismo.

O Filme

Pleasure se passa na indústria de filmes para adultos de Los Angeles, mas é uma história que poderia facilmente ser ambientada em um escritório de advocacia, corretora ou estúdio de Hollywood. A história da ascensão de uma estrela pornográfica fala sobre questões universais, como o preço de colocar a ambição acima da amizade e de uma protagonista que suporta o pior dessa indústria para escalar a carreira.

A diretora Thyberg exigiu bastante da atriz protagonista Sofia Kappel, que sem medo encarna Linnéa, também conhecida como Bella Cherry, uma jovem de 20 anos que viaja da Suécia para Los Angeles para se tornar o grande nome no entretenimento adulto. Pleasure nunca julga Bella por querer ter sucesso – ao contrário de tantos filmes ambientados neste mundo, o próprio ato de trabalhar em pornografia nunca é tratado aqui como evidência de algum tipo de patologia emocional.



Ela está apenas começando, mas é empreendedora e já alimenta sua conta no Instagram com um fluxo de selfies. Tem planos vagos, um carro, um agente e um ambiente de convivência convenientemente perto do trabalho, também conhecido como San Fernando Valley, o epicentro da indústria. O que ela precisa agora é experiência e talvez uma especialidade de assinatura que a diferencie, polir sua reputação, fazer seu nome.

Testes de DST, W-9s, identidades com foto, desinfetante para as mãos, duchas, protocolos de segurança no set e entrevistas pré-filmagem – todas as coisas que fazem da pornografia um trabalho real – são descritos em detalhes clínicos em “Pleasure”. Thyberg está interessada em descrever o modo de produção da construção da excitação e do erótico. Por isso, Pleasure vive num espaço liminar entre a ficção e o documentário, acompanhando Bella enquanto filma cenas para diferentes sites pornográficos e também seus relacionamentos com outras atrizes com as quais divide uma “casa de modelos”.

Bella é uma personagem ficcional, mas as empresas e as pessoas com quem ela trabalha são reais. Na verdade, a maioria dos artistas do filme - incluindo Revika Reustle (atriz pornô), em seu papel indicado ao prêmio Indie Spirit, como Joy, colega de quarto de Bella. Como resultado, a linha entre a jornada ficcional de Bella e o realismo do modo de produção da indústria pornô é bem tênue. 

Os momentos mais explícitos neste filme não envolvem atos sexuais específicos, mas as realidades nada glamourosas de preparação e limpeza dos atores e set de filmagem. Há muito mais nudez masculina do que feminina, tudo chocantemente casual. E quando chega a hora do evento principal, Thyberg corta ou filma do ponto de vista visceral e às vezes violento de Bella em primeira pessoa. 



Em sua primeira sessão de fotos, Bella fica fascinada com a distante Ava (Evelyn Claire), que é a mais nova "Spiegler Girl" (modelos gerenciadas por Mark Spiegler, interpretando a ele mesmo no filme), um grupo de artistas que são os mais bem pagos e respeitados, mas que também não têm limites sobre o tipo de trabalho que aceitarão - interracial, bang gang, duplo anal, sadomasô etc. 

A colega de quarto de Bella, Joy (Revika Anne Reustle), prova ser uma amiga e aliada, impedindo Ava de tirar uma foto de Bella sem o consentimento de Bella, e ensinando Bella sobre como conseguir as poses que o fotógrafo quer.

Porém, com toda ajuda e conselhos de Joy, Bella percebe que somente poderá galgar a carreira se aceitar qualquer tipo de trabalho e risco, se quiser alcançar o nível “Spiegler Girl”.

Pleasure mostra uma indústria pornô pós-coelhinhas da Playboy (ironicamente uma era do passado citada ao vermos uma amiga de Belle indo a uma “festa do pijama” fantasiada de coelhinha) e do pós-#MeToo ao mostrar como homens no poder continuam a abusar desse poder, apenas de maneiras inéditas e criativas – como acompanhamos logo nas primeiras sequências em uma entrevista antes da atriz entrar no set de filmagem.

Se Pleasure fosse um filme americano, certamente teríamos uma sequência em que Bella, com os olhos marejados de culpa, chorando, acompanhado por uma trilha emotiva, falaria sobre o seu trauma e arrependimento. Mas Thyberg não aderiu a esse maniqueísmo moralizante.

Pleasure não tenta justificar as escolhas de Bella, e não as culpa por um passado traumático ou problemas com o pai. Ela vem de uma família estável e só está presa em LA porque mentiu para seus pais sobre um “estágio” na Califórnia. Como personagem, suas motivações são simples, mas inescrutáveis: ela não é particularmente movida por dinheiro e, embora goste de atenção, pode aceitar ou deixar a fama. Sua motivação é simplesmente ser a melhor, uma mentalidade muito americana que, em última análise, ilude esse filme muito europeu. 



Prazer escópico

Bella está navegando entre os olhares masculinos, mas em seus próprios termos: as mulheres fazem pornografia e assistem a si próprias, e por diferentes motivos, inclusive gostam. Porque é a escolha dos olhares masculinos. 

Aqueles que leram o ensaio histórico de Laura Mulvey de 1975 sobre o olhar e a representação masculinos, “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, que introduziu palavras como “escopofilia” (o prazer de olhar) para gerações de estudantes e acadêmicos, entenderão o que Thyberg está fazendo. Apenas para ficarmos com um trecho do texto de Laura Mulvey:

“Mulher” então, para uma cultura patriarcal, é classificado como um significante do outro masculino, presa a uma ordem simbólica que homens podem usar para fantasiar e para satisfazer suas obsessões por meio de um comando linguístico, ao impor a elas a imagem de mulher silenciosa ainda agarrada ao seu lugar de possuidora de significado, e não de criadora de significado.

Ideologias estão nas práticas cotidianas. Apesar de todo estardalhaço midiático das causas identitárias, encampado pela grande mídia e pelo politicamente correto, a indústria pornô continua irradiando, silenciosamente, no dia a dia, o prazer escópico masculino sobre a mulher. 

Hollywood é uma máquina política e imaginária. Porém, a indústria pornográfica é a máquina que produz o cimento ideológico patriarcal cotidiano. Uma ordem patriarcal sem pai, comandada pela abstração do capital que coloca tanto homens quanto mulheres na sua linha de produção.


 

Ficha Técnica

 

Título: Pleasure

Diretor: Ninja Thyberg

Roteiro: Ninja Thyberg, Peter Modestji

Elenco:  Sofia Kappel, Zelda Morrinson, Evelyn Claire, Chris Cock, Mark Spiegler 

Produção: Plattform Pduktion, Film I Väst 

Distribuição: Mubi

Ano: 2021

País: Suécia, França Países Baixos

 

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