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sexta-feira, fevereiro 11, 2022

Fusíveis queimados e estratégia militar de terra arrasada: PMiG e grande mídia no modo Alarme


A chamada “terceira via” não engrena, mais precisamente o ex-juiz Sérgio Moro. E junto vai embora a esperança de que o espinhoso tema da economia saísse de pauta, substituído pelo discurso moralista do combate a corrupção. Por isso a grande mídia está no modo Alarme: o “apito de cachorro” da polêmica do “racismo reverso” do artigo da Folha foi o alerta para a mudança da estratégia semiótica: sai corrupção, entra a “guerra cultural”. Colocando a guerra híbrida do PMiG (Partido Militar Golpista) no “Piloto Automático”, com os fusíveis pronto para serem queimados com figuras como Monark e a sub-celebridade ex-BBB Adrilles Jorge – fusíveis queimados para ocupar a pauta com lacradores de redes sociais, juristas de Twitter e a indefectível esquerda reativa pavloviana. Principalmente para ocultar a estratégia militar de “terra arrasada”: silenciosamente passar no Congresso pautas prioritárias que arrasem o País. Para deixar um eventual governo Lula prisioneiro da judicialização.

Em 2015 vivíamos o auge da pesada atmosfera política pré-golpe de 2016. Ápice da polarização política e de um caldo escatológico de cultura no qual o jornalismo de guerra dava visibilidade a qualquer coisa que, mesmo metonimicamente, pudesse servir de oposição ao Governo. Para engrossar a massa heterogênea de “indignados”, cujo único ponto em comum era a cor verde-amarela em adereços fornecidos por movimentos como o Vem Pra Rua, financiado pelo empresário Jorge Paulo Lemann.

Confirmando a eficácia da Teoria do Piloto Automático da Guerra Híbrida (apertando os botões certos, por meio de provocações, se obtém as respostas esperadas de seus alvos para perturbar o status quo por meio de processos pontuais de desestabilização), naquele ano os resultados esperados da polarização começaram a se acumular, ajudando a envenenar o psiquismo coletivo.

Por exemplo, em um desfile promovido pela Prefeitura da cidade de Taboão da Serra/SP, para comemorar o Dia da Independência, alunos representando uma escola municipal traziam nas mãos suásticas nazistas para representar os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim. O tema do desfile era “Olimpíadas” (alusão aos jogos olímpicos que seriam disputados no Brasil no próximo ano) e para cada escola foi sorteada uma edição das Olimpíadas.

Em do campus Unesp, de Bauru/SP, banheiros foram pichados com citações racistas como “A Unesp está cheia de macacos” e “as mulheres negras fedem”. Ganharam visibilidade pela grande mídia, de forma acrítica em coberturas anódinas. Para alimentar as polarizações nas redes sociais entre os “brancos azedos” e a “ditadura do politicamente correto”.



Com o objetivo de “clarear” com alguma racionalidade essa atmosfera pesada, a USC (Universidade Sagrado Coração), promoveu a semana da “Feira das Profissões 2015” onde mais uma vez suásticas foram expostas por uma instituição de ensino. A feira da USC chamou a atenção ao apresentar os estudantes de História utilizando bandeiras com a suásticas e felizes alunos trajando o uniforme da SS e outros com a vestimenta dos prisioneiros judeus em campos de concentração, listrada e com a estrela de Davi – o que transformou o estande do curso de História da universidade em um mórbido parque temático nazista.

Repleto de boas intenções, a resposta da USC à polêmica falava que o estande era “expositivo” e que o propósito das imagens era “ensinar, conscientizar e abrir espaço para debates” e a “importância da Democracia, da Justiça e da Igualdade”.




Na prática, os resultados foram inacreditáveis selfies que se espalharam nas redes sociais de estudantes alegres, felizes, sorridentes, confortáveis e elegantes em seus uniformes da SS e empunhando braçadeiras com a suástica. É inegável que houve alguma contradição entre forma e conteúdo, intenções e resultado.

 Modo Alarme e "apito de cachorro"

Corta para o presente, ano eleitoral de 2022. Na esteira da repercussão da defesa da criação de um partido nazista no Brasil feita no Flow Podcast, pelo apresentador Bruno Aiub, a jornalista Monica Waldvogel, no “Em Pauta”, da Globo News, conseguia ver um “lado positivo” na fala do ex-youtuber de games: “possibilita um debate...”, afirmou a bem-intencionada comentarista do canal fechado de notícias...

Hoje, a grande mídia se escandaliza, posa como os guardião da Democracia e cai em cima de Monark e de uma subcelebridade e ex-BBB, Adrilles Jorge (que fez uma saudação nazista na TV Jovem Pan, para também surfar na onda e sair do anonimato), junto com todo um conjunto de lacradores de redes sociais, juristas de Twitter e congêneres. Todo um conjunto que, no citado ano de 2015, exercia um moralismo seletivo: ignorava suásticas e discursos de ódio. Porque via neles aliados úteis para engrossar o caldo político-cultural que deu o suporte para as pressões de resgar a Constituição e aplaudir o golpe transmitido ao vivo pela TV.

Embora nove em cada dez “colonistas” admitam que o grande tema do debate eleitoral serão as mazelas econômicas (desemprego, inflação etc.), esse diagnóstico parece ser tudo, menos uma análise imparcial da conjuntura política. Na verdade, é a grande mídia ligada no modo “Alarme!” – alerta para os guardiões da ortodoxia neoliberal e ao PMiG (Partido Militar Golpista) de que as estratégias semióticas têm que mudar, já que a chamada terceira via não engrena. 

Mais precisamente, o ex-juiz Sérgio Moro (“que investigava e julgava”, como disse a “colonista” Ana Flor num ato falho ao vivo na Edição das 16, da Globo News, 04/02, admitindo sem querer o porquê da suspeição de Moro) – a esperança de que, se o ex-juiz engrenasse, o espinhoso tema da economia seria tirado de foco para, em seu lugar, entrar a pauta moralista da corrupção. 




Se num passado recente a grande mídia era um partido de oposição (o PIG), agora é de situação. A guinada da estratégia semiótica começou com o artigo do jornal Folha de São Paulo sugerindo “racismo reverso” no dia 16 de janeiro (Antonio Risério, “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”) e todo o “freak out” (lacrações, abaixo-assinados, notas de repúdio etc.) gerado a partir da publicação.

Foi o “apito de cachorro” para a escalada da guinada da guerra semiótica num ano eleitoral que começa com o perigoso baixo-astral do desalento econômico. Estratégia diversionista: se a terceira via não engrena, então o que tem que engrenar é a “guerra cultural”. Afinal, todo o esforço da grande mídia no modo PIG e seu jornalismo de guerra foi permitir a conquista do Estado pelo PMiG como braço forte para fatiar a Petrobrás e deixar os acionistas no Exterior felizes e colocar as raposas no Banco Central para deixar a banca financeira mais feliz ainda.

Agendar a pauta da guerra cultural para a opinião pública equivale a “apertar os botões” da Teoria do Piloto Automático da Guerra Híbrida: tal como os lançadores da máquina de fliperama, lançam as bolinhas que rebaterão loucamente nos pinos. 

Isso significa que muitos fusíveis começarão a ser queimados para provocar o show do massacre midiático e da polarização política transformada em conflitos ideológicos, de costumes e opiniões.

Monark e Adrilles Jorge são os primeiros. O primeiro, um ex-youtuber de games que ficou rico e famoso que, não satisfeito com seus milhões de reais e de seguidores, percebeu que aquele caldo cultural escatológico poderia transformá-lo em informação de pauta para a mídia se começasse a fazer pitacos politicamente incorretos contra o PT, a corrupção, petrolão etc. E o segundo, uma subcelebridade à espera de embarcar na primeira onda para ganhar de novo alguma notoriedade.

O hábito do cachimbo torna a boca torta:  no momento quando a grande mídia sobe a temperatura da pauta identitária e de gênero (caso Moïse e o crescimento da pauta de agressões contra mulheres e feminicídios), esses “fusíveis” são os primeiros a agir como autômatos e fazer “cair o disjuntor” – figuras como Monark e Ardilles Jorge começam a reagir de forma pavloviana. O rendimento semiótico para a estratégia diversionista é perfeito: incita a polarização político-cultural, tirando de cena os delicados temas da economia política.




E, principalmente, ocultando a estratégia militar de “terra arrasada” que o PMiG está colocando em prática nesse momento, ao reconhecer a conjuntura eleitoral negativa apontado pelas pesquisas que mostram Lula quase levando as eleições no primeiro turno.

A estratégia de terra arrasada

Já que estamos falando de suásticas e nazistas, é oportuno lembrar da estratégia de “terra arrasada” ou “terra queimada”: tática utilizada pelo exército russo contra tanto a invasão napoleônica quanto hitlerista em seu território – retroceder para o interior do país destruindo tudo, de alimentos a acomodações, de modo a inutilizar tais recursos para as tropas invasoras.

Mantendo a estratégia de resistência através da guerra de guerrilhas para estender a invasão até o inverno (como no sangrento episódio do cerco de Stalingrado), as tropas nazistas se viram no meio do rigoroso inverno sem alimentos ou abrigos. Foram massacrados pelos soviéticos quando tentaram desesperadamente bater em retirada.

Nesse momento o PMiG está colocando em ação essa mesma estratégia militar, pensando no virtual cenário da volta de Lula ao Governo – enquanto o Estado está ocupado pelos militares.




Enquanto a opinião pública está absorvida pela polarização da guerra cultural, o presidente Bolsonaro entregou no dia 03/02 aos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira, uma lista de propostas legislativas consideradas prioritárias pelo governo federal – Armas (facilitar o uso de armas por caçadores, colecionadores e atiradores, os CACs); retaguarda jurídica para policiais; mineração em terra indígenas; ensino domiciliar, o “homeschooling”; PEC dos combustíveis (cortar impostos para reduzir os preços dos combustíveis, criando uma verdadeira bomba fiscal – aumentando a “percepção negativa” dos mercados refletindo numa nova rodada de desvalorização do real trazendo mais inflação).

Somado à política monetarista de aumento dos juros pelo Banco Central para conter a inflação (como se estivéssemos numa conjuntura inflacionária por demanda), e à notícia de que 11 ministros deixarão o governo em 31 de março (data simbólica para o PMiG...) para se disputarem as eleições 2022, o objetivo deliberado é o deixar uma terra arrasada para um virtual governo Lula.

Com o seu poderoso recall que poderá levá-lo à vitória (“nos tempos de Lula comíamos carne...”), claro que Lula tentará mais uma vez reverter a “herança maldita” com o retorno do neodesenvolvimentismo.

E nessa terra arrasada, Lula encontrará um Judiciário contaminado por concurseiros lavajatistas, um STF que já o defenestrou em tempos recentes, sem apoio no Congresso e o modus operandi da judicialização: qualquer medida para reconstruir a terra arrasada deliberadamente deixada pelo PMiG será judicializada, paralisando o governo e abrindo o espaço para uma grande mídia mais uma vez se assumindo como PIG. 

E mais figuras escatológicas com visibilidade midiática vestindo camisetas estampadas: “A culpa não é minha, eu votei no Moro”...

Para a esquerda pular fora dessa armadilha seria necessária se “reinventar” (essa palavra está na moda...): deixar de ser pavloviana, ou seja, deixar de reagir com o fígado às provocações desses fusíveis buchas de canhão que se queimam. Ao invés de achar que lacração é militância digital, fazer uma comunicação anticíclica para deixar de ser apenas reativa – a esquerda que a direita adora.

Como dizia o economista e marqueteiro da campanha de Bill Clinton, James Carville, “É a economia, estúpido!”. A esquerda deve impor a pauta que o PMiG e a grande mídia mais temem: discutir economia política.


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