Pages

sexta-feira, maio 27, 2022

'Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo': a Matrix na era da computação quântica


Passamos metade da nossa vida cometendo erros, e a outra metade tentando corrigi-los. O impacto da física quântica na cultura moderna foi estender ainda mais a angústia existencial: e se tivéssemos feito outras escolhas? Quais teriam sido minhas outras linhas do tempo? Viagens exponenciais no tempo e multiversos são os impactos na cultura pop de paradoxos quânticos como “o gato de Schrödinger” e a Interpretação dos Muitos Mundos de Hugh Everett. “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” (2022) é uma rara visão cinemática que extrapola ao limite esses paradoxos: uma estressada sino-americana dona de uma lavanderia quase falida e com relações familiares em crise é arrastada para uma batalha cósmica em um anárquico redemoinho narrativo de multiversos - uma verdadeira Matrix da próxima era da computação quântica.

Poucas coisas na vida são tão certas quanto a morte, os impostos e a interminável tarefa que é lavar roupa. Combine essas certezas existenciais com física quântica e uma louca combinação entre Matrix e a série de animação Rick e Morty. Então o leitor terá uma ainda próxima ideia do filme da dupla de diretores e escritores, Daniel Kwan e Daniel Scheinert, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2020) – dupla conhecida como “Daniels”, que também estiveram por trás do inclassificável Um Cadáver para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016).  

Este Cinegnose já discutiu em postagens anteriores como a física quântica impactou a cultura moderna, principalmente em dois temas: a viagem no tempo e o multiverso. Primeiro, o abandono da concepção clássica do tempo (entrópica) pela possibilidade de alterar o passado, criando linhas de tempo exponenciais; e com o multiverso, a existência de realidades não só paralelas, mas alternativas – como em “O Homem do Castelo Alto”, livro de Philip K. Dick e a série recente, no qual visitamos um mundo em que Alemanha e Japão ganharam a Segunda Guerra Mundial.

Porém, Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo leva ao extremo o tema do multiverso, simplesmente extrapolando o famoso paradoxo do gato de Schrödinger e a interpretação dessa experiência imaginária: a “Interpretação dos Muitos Mundos” (em inglês, MWI) feita por Hugh Everett, da Universidade de Princeton em 1957.  

O fato de a luz poder ser ao mesmo tempo partícula e onda e os conceitos de “decaimento quântico” e “colapso da função de onda” são as bases da hipótese da existência de um cosmos paradoxal formado por um número incontável de multiversos – mundos independentes e ao mesmo tempo sobrepostos, criados exponencialmente a cada decisão que tomemos entre inúmeras opções. A opção escolhida produziria um decaimento quântico. Porém, cada qual das outras opções não escolhidas criariam realidades alternativas como um gigantesco hipertexto – assim como no caso do paradoxo do físico austríaco, o gato na caixa estaria ao mesmo tempo morto e vivo (voltaremos adiante ao detalhamento desses conceitos).



É exatamente nessa expansão exponencial quântica de realidades que se baseia o filme, resultando numa narrativa que pode ser definida como um redemoinho exuberante de anarquia. 

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo pode ser perfeitamente interpretado como uma espécie de Matrix da era da computação quântica – ao invés de uma realidade virtual produzida por máquinas demiúrgicas, temos a espuma quântica sobre a qual se estrutura o cosmos, dentro do qual se expande o multiverso. Ou melhor explicando: as diversas versões de nós mesmos, da versão melhorada para a pior.



O filme da dupla “Daniel” explora diversos tropos de Matrix (há o “escolhido”, agentes Smiths, downloads de habilidades na mente do protagonista etc.). Porém a “escolhida” para salvar aquela espuma quântica de uma catástrofe cósmica é a pior versão de si mesma no cosmos. Tão ruim que se tornou especial: basta ela se conectar com as outras versões melhores de si mesma. E terá que ser “tudo ao mesmo tempo”.

O Filme

Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo acompanha Evelyn Wong (Michelle Yeoh).  Nós a conhecemos pela primeira vez desfrutando de um momento feliz com seu marido Waymond (Ke Huy Quan) e sua filha Joy (Stephanie Hsu). Vemos seus rostos sorridentes refletidos em um espelho na parede da sala. À medida que a câmera literalmente se aproxima do espelho, o sorriso de Evelyn desaparece, agora sentada em uma mesa repleta de recibos de negócios de sua lavanderia quase falida – enquanto mora com sua família em seu próprio negócio.

Ela está se preparando para uma reunião com um auditor da Receita Federal enquanto simultaneamente tenta cozinhar comida para uma festa de Ano Novo Chinês que estará de acordo com os altos padrões de seu pai visitante Gong Gong (James Hong). 

Além de fazer malabarismos com a visita de seu pai e a auditoria fiscal, a filha mal-humorada de Evelyn, Joy, quer trazer sua namorada Becky (Tallie Medel) para a festa e seu marido quer falar sobre o estado de seu casamento à beira do divórcio. 

Definitivamente todos seus relacionamentos estão seriamente danificados: com a família, com a lavanderia e até com a Receita Federal – por sua “contabilidade criativa” ela está entre perder a licença do negócio ou pagar uma multa milionária.



Assim que Evelyn começa a se sentir sobrecarregada com tudo o que acontece em sua vida, ela é visitada por outra versão de Waymond que se autodenomina como versão “Alpha” – o primeiro dos multiversos a conseguir fazer contato com os demais. Lá os humanos aprenderam a “saltar versos” e são ameaçados por um agente do caos omniverso conhecido como Jobu Tupaki. Logo, Evelyn é lançada em uma aventura de saltos sucessivos entre as diversas versões de si mesma no multiverso que a faz questionar tudo o que ela achava que sabia sobre sua vida, seus fracassos e seu amor por sua família.

Evelyn é “a escolhida”: tão incrivelmente fracassada que poderá contatar suas outras versões melhores, fazer download de suas habilidades e enfrentar o agente do caos que quer simplesmente sugar todos os multiversos para dentro da “rosquinha”: um buraco negro que sugará um cosmos aparentemente niilista, sem sentido e que simplesmente expande o vazio.



A maior parte da ação se passa no interior do prédio de escritórios da Receita Federal, onde Evelyn deve lutar contra uma agente da Receita, Diedre (Jamie Lee Curtis) e uma tropa de seguranças – todos são “possuídos” por “saltadores” a serviço de Jobu Tupaki. O desenhista de produção criou um escritório aparentemente interminável cheio de cubículos, onde tudo, desde a lâmina de um aparador de papel até troféus de auditor do ano em forma de plug anal, se tornam armas em uma batalha para salvar o universo. 

O ritmo vertiginoso do editor Paul Rogers combina com o diálogo frenético do roteiro, com camadas de universos se dobrando simultaneamente enquanto impulsionam a jornada interna de Evelyn.

Nascido de escolhas feitas e não feitas, cada universo tem uma aparência distinta, com referências cinematográficas piscando que vão de The Matrix, Dublê de Anjo a 2001: Uma Odisseia no Espaço e Ratatouille.

Muitos Mundos e o gato de Schrödinger

Toda a premissa de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo está na extrapolação das consequências do experimento imaginário do pobre felino preso na caixa do físico austríaco Schrödinger e na Interpretação dos Muitos Mundos. 



Toda a hipótese dos multiversos baseia-se no conceito de “colapso de função de onda”. O melhor exemplo para explicar isso é a paradoxal experiência proposta pelo austríaco Schrödinger: um gato está preso numa caixa que contém um recipiente com material radioativo e um contador Geiger. Se o material soltar partículas radioativas e o contador detectar, acionará um martelo que, por sua vez, quebrará um frasco com veneno, matando o bichano.

De acordo com as leis da física quântica, a radioatividade pode se manifestar tanto como onda quanto partícula. Ou seja, na mesma fração de segundo, o frasco de veneno quebra e não quebra, produzindo duas realidades probabilísticas simultâneas. Segundo o raciocínio, as duas realidades aconteceriam simultaneamente dentro da caixa, até que fosse aberta – a presença de um observador e a entrada da luz intervindo nas partículas acabariam com a dualidade.

Ambas as realidades existem simultaneamente dentro da caixa. Mas existe a chamada “decoerência quântica” que garante que essa situação “decaia” para um dos resultados: vivo ou morto. Isso impede que os “dois gatos” das situações diferentes interajam entre si.

Na interpretação de Everett, esses dois gatos (morto e vivo) passam a ser considerados dois mundos independentes e sobrepostos sobre o mesmo tempo/espaço. Não são mais considerados uma “decoerência quântica” fruto da intervenção do observador que romperia com a função de onda. Everett considerava uma existência ontológica para cada um desses mundos, ou “subsistemas”, como afirmava. Haveria uma sobreposição quântica de vários, possivelmente infinitos, estados de universos paralelos não comunicantes. Dessa maneira a MWI dá início às várias hipóteses de multiversos existentes na Física, na Filosofia e na cultura pop.



Retorno à ordem

Os primeiros atos do filme são verdadeiros redemoinhos narrativos, ziguezagueando pelos diversos multiversos, justificando o título da produção. A referência à Matrix é explícita, com suas implicações filosóficas e existenciais – principalmente no confronto contra o agente do caos Jobu Tupaki. O filme abre excelentes perspectivas para questionamentos gnósticos sobre a natureza da realidade e a dualidade entre livre-arbítrio e determinismo. 

Porém, quanto mais avançamos para o último ato em suas mais de duas horas, o filme aos poucos vai sendo dominado pelo tom agridoce: no final, tudo se reduz a luta de uma família desfeita tentando se reunir e o multiverso como sendo um lugar terapêutico onde as famílias podem trabalhar seus problemas.

A sensação é que o excelente argumento de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo acaba rendendo-se à clássica fantasia-clichê de “quebra-da-ordem-retorno-a-ordem”. Todo o maravilhamento (ou horror) metafísico dos mistérios quânticos do multiverso são suspensos na instrumentalidade: no final, as mais de duas horas de uma viagem alucinante através da espuma quântica cósmica serviram apenas como oportunidade para fazer algumas sessões de terapia de casal. 


  

Ficha Técnica

 

Título: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo

Diretores: Dan Kwan, Daniel Scheinert

Roteiro: Dan Kwan, Daniel Scheinert

Elenco:  Michelle Yeoh, Stephanie Hsu, Ke Huy Quan, James Hong, Jamie Lee Curtis, 

Produção: AGBO, Year of the Rat

Distribuição: Diamond Films

Ano: 2020

País: EUA

 

 

Postagens Relacionadas

 

A mecânica quântica das relações humanas no filme “Coherence”

 

 

 

Uma viagem no tempo quântica e noir em “Synchronicity”

 

 

Série “Travelers”: por que precisamos da viagem no tempo?

 

 

Quando multiverso e mecânica quântica se tornam mortais em “Tangent Room”