segunda-feira, março 07, 2011

Documentário “O Século do Ego”: cartografias da mente de um sujeito fractal

Documentário da BBC "The Century of the Self" (2002) descreve a irônica jornada de como a revolução de psicoterapeutas e filósofos nos anos 60 e 70 contra as idéias de Freud sobre o inconsciente (acusadas de terem se tornado instrumentos do mundo do Markenting, Publicidade e Propaganda Política para fins de manipulação) resultou no oposto: o surgimento do sujeito fractal, vulnerável, isolado e, acima de tudo, ganancioso.

Em postagens anterioras (veja links abaixo) viemos desenvolvendo o conceito de cartografia e topografia da mente como uma tendência dentro da agenda tecnognóstica que, a partir da confluência das neurociências, ciências cognitivas, cibernética e Inteligência Artificial, procura fazer um mapeamento do funcionamento do cérebro para desvendar o enigma da mente e da consciência. Em termos práticos, criar modelos simulados do cérebro para sua virtualização, monitoramento e controle para fins mercadológicos e políticos.

Partindo da constatação que o cinema hollywoodiano reflete a agenda tecnocientífica das últimas décadas, em nossos estudos sobre os filmes gnósticos na produção cinematográfica norte-americana recente percebemos uma tendência introspectiva dos protagonistas: narrativas em que se descreve como o protagonista torna-se prisioneiro do seu próprio mundo mental (memórias, traumas, sonhos, projeções, etc.) e como ele realiza um mapeamento desse território onírico para encontrar o caminho de saída de conspirações e tramas.

De filmes como “Vanilla Sky” (talvez o primeiro nessa linha) até o recente “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton, vemos estórias com geografias alegóricas de mundos mentais, cartografias da mente coletiva (como a série “O Prisioneiro”, 2009) e elaboradas topografias da mente por meio de sonhos dentro de sonhos ("A Origem", 2010).

Tendo essa discussão como contexto, o documentário da BBC  “O Século do Ego” (The Century of the Self, 2002) trás preciosas informações históricas sobre as origens desse verdadeira tendência de endocolonização dos indivíduos pela Ciência, Publicidade e Marketing. A série é dividida em quatro episódios: episódio 1: “Máquinas da Felicidade”; episódio 2: “Engenharia do Consenso”; episódio 3: “Há um Policial Dentro da Sua Cabeça e Devemos Destruí-lo”; episódio 4: “Oito Pessoas Bebericando Vinho em Kettering”.

A série (240 minutos no total) inicia descrevendo como as ideias de Freud foram traduzidas nos EUA através de sua filha, Anna Freud, e pelo seu sobrinho, Edward Bernays (o inventor da profissão de Relações Públicas) como técnicas para controle das massas na era da democracia: a teoria do inconsciente trazida para o cerne do mundo da propaganda e do marketing. É a era da produção em massa e do conformismo em uma sociedade de consumo cujo leque de opções para o mercado era limitado.

sexta-feira, março 04, 2011

Os Ciclistas Atropelados de Porto Alegre e a Bomba Tecnológica

Precisamos encarar o atropelamento dos ciclistas do grupo Massa Crítica em Porto Alegre como um sintoma dessa verdadeira bomba tecnológica que, ao criar uma relação inorgânica e virtual com o espaço, o ambiente e o Outro, propicia a indiferença, amoralidade e violência.

Indignação é a mínima reação civilizada que podemos ter diante das imagens do atropelamento proposital de 20 ciclistas durante a passeata do grupo Massa Crítica na noite da última sexta em Porto Alegre. Para pessoas como eu que utilizam diariamente a bicicleta como meio de transporte, a notícia da prisão do responsável (que, segundo consta, detém uma ficha de antecedentes de violência e contravenções no trânsito) não é motivo de alívio ou de sensação de justiça feita.

As imagens bizarras de ciclistas sendo jogados para o alto com suas bicicletas retorcidas contém algo de incômodo que não está apenas no conteúdo das imagens, mas no fato delas se constituírem em sinais de uma espécie de sismógrafo do movimento mais profundo, de uma história subterrânea que vai além da eficácia de leis, regras éticas ou legislações de trânsito que protejam ciclistas no caos motorizado.

Este episódio captado em imagens que repercutiram na mídia internacional é um desses sintomas mais visíveis da armação de uma verdadeira bomba tecnológica: a lenta constituição de um novo paradigma que rege as relações do homem com a tecnologia (tecnologias “tecnognósticas”) que virtualiza as relações com as ferramentas e cria uma relação inorgânica com o meio ambiente.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Walter Benjamin e o "Caveirão" de Brinquedo

O brinquedo Roma Tático Blindado (réplica perfeita dos “caveirões” do BOPE no Rio de Janeiro) escandaliza educadores e psicólogos que o acusam de induzir as crianças à violência. Mas se Walter Benjamin estiver correto, a imitação é a grande característica do jogo infantil: reproduzir o mundo adulto no espaço lúdico para subvertê-lo. O problema não só do “caveirão”, mas de todos os brinquedos industrializados, é que esse impulso espontâneo é desviado do jogo para o brinquedo-réplica. O problema não está na violência, mas para onde o impulso pela imitação da violência é conduzido.

Início de ano, começo de ano letivo para os meus filhos. Hora dos pais irem às compras com as listas de material escolar nas mãos numa peregrinação em busca dos melhores preços. No meio de uma busca entre as gôndolas de imensas papelarias em um largo em Pinheiros, São Paulo, dou de cara com um brinquedo, para mim, inusitado: um carro blindado todo negro, com riqueza de detalhes, uma réplica quase perfeita do famoso “Caveirão” – veículo usado pelo BOPE (Batalhão de Operações Especiais) no Rio de Janeiro para combater os traficantes nos morros. Só não é uma miniatura perfeita porque os fabricantes modificaram o nome para ROTB (Roma Tático Blindado).

O veículo está acompanhado de dois soldados fardados (boinas e coletes à prova de bala) e duas armas de brinquedo.

Segundo as notícias, esse brinquedo foi um sucesso de vendas no Rio de Janeiro, esgotando o estoque previsto para durar até o final do ano passado. Os “caveirões” sumiram das prateleiras já no Dias das Crianças.

É claro que os fabricantes aproveitaram o sucesso de bilheteria do filme “Tropa de Elite 2”: “Mas o que é isso? Um carro da polícia igualzinho ao do filme Tropa de Elite? Vou levar uns cinco”, como afirmou entusiasmada uma comerciante em uma distribuidora de brinquedos de Sorocaba.

Como não poderia deixar de ser, psicólogos e educadores se ergueram moralmente escandalizados com um velho discurso pronto: brinquedos com armas ou temas agressivos induzem a criança à violência. Velha crítica de fundo behaviorista que parece desprezar a inteligência ou espontaneidade da criança em nome de um modelo comportamental que a vê como um ser amorfo, sempre passivamente induzido e condicionado.

sábado, fevereiro 19, 2011

O Álibi Sci-fi Retro do Projeto MARS500: os objetivos bem terrestres de uma missão espacial

Para além do álibi sci-fi retro (viagens tripuladas a Marte), na verdade o Projeto MARS500 atende indiretamente a dois objetivos: agenda tecnognóstica do assalto à mente e consciência humanas e, segundo, o reforço da mitologia sobrevivencialista dos reality shows. 

Depois de uma viagem de oito meses, no dia 14 de fevereiro desse ano o russo Alexandr Smoleevsky, o italiano Diego Urbina e o chinês Wang Yue finalmente pousaram na superfície de Marte às 13h00, horário de Moscou, e deram os primeiros passos no terreno marciano. Após essa saída do módulo de serviço, eles irão se aventurar mais duas vezes pela superfície do planeta: dias 18 e 22 de fevereiro.

É o ponto alto do projeto MARS500 patrocinado pela ESA (Agência Espacial Européia) em parceria com o Instituto de Problemas Biomédicas de Moscou. Apenas um detalhe: tudo faz parte de um projeto que pretende simular uma viagem a Marte, lançado no primeiro semestre de 2009. Composta por uma tripulação de seis pessoas (três russos, um italiano, um chinês e um francês), toda a missão ocorre no interior de uma instalação de 500 metros cúbicos no Instituto de Problemas Biomédicos onde, desde junho de 2010, os seis homens estão confinados. O plano é que fiquem dentro dessa nave simulada até novembro de 2011.

O objetivo do programa MARS500 é estudar os efeitos mentais, psicológicos e físicos em um grupo que, numa viagem real a Marte, ficaria encerrado por longos meses em alojamentos compactos. O programa limita-se unicamente ao estudo desses efeitos, já que, na superfície da Terra é impossível simular a gravidade zero (a não ser por breves momentos).


quinta-feira, fevereiro 17, 2011

WALL-E e EVA: Disney faz Releitura do Gênesis Gnóstico

Em postagem anterior discutíamos o chamado “paradigma Disney” e nos perguntávamos como é possível animações voltadas para o público infantil tratar de temas tristes e até cruéis de uma forma lúdica e divertida. 

A animação “WALL-E” (2008) é um desses exemplos: uma fábula dark, cínica, sobre um planeta Terra devastado e tomado por lixo e escombros pacientemente compactados e empilhados por um robô, enquanto o que restou da humanidade se exilou numa gigantesca nave mais parecida com um shopping center onde o consumismo, ociosidade e conveniência são tão excessivos que acabaram produzindo seres que, de tão obesos, não conseguem mais manter-se em pé.

Nessa animação talvez encontremos a resposta para esse nossa indagação: o filme explora intensamente simbologias e arquétipos da interpretação gnóstica do gênesis bíblico. Afinal, a busca pela pureza, inocência e simplicidade do protagonista WALL-E é a busca pela transcendência, o retorno ao Paraíso perdido, a busca pela inocência infantil, aquela nostalgia que toda criança sente por uma unidade que foi perdida com a entrada forçada no mundo simbólico adulto (a escola, estudos, deveres etc.). E toda essa busca possibilitada pelo auxílio do robô high tech chamado de EVA, nome altamente simbólico para essa narrativa.


sexta-feira, fevereiro 11, 2011

O Gótico Gnóstico “La Casa Muda”: é possível o horror em tempo real?

Exibido no Festival de Cannes e no Festival do Rio 2010, “La Casa Muda” (Uruguai, 2010) de Gustavo Hernandéz é um suspense/terror que promete “o medo em tempo real”. Filmado num único plano- sequência, Hernandez surpreende o espectador ao inserir no filme (supostamente sem os truques dos planos e montagens) o tempo psicológico e a confusão entre percepção e projeção psíquica da protagonista. Ou seja, o filme insere elementos góticos e gnósticos em uma narrativa supostamente objetiva, onde a verdade não está nas imagens em movimento, mas nas fotografias.

Webcams, “vídeo-cassetadas”, reality shows e a popularização das câmeras digitais sem dúvida alteraram nossa sensibilidade em relação àquilo que definimos como “realidade”. As transformações ocorridas no gênero Terror no cinema, assim como a experiência do horror, certamente refletem essa evolução das mediações tecnológicas. Desde filmes como “A Bruxa de Blair” (The Blair Witch Project, 1999) há uma busca da experiência do horror em tempo real: o registro visual de uma câmera hesitante, em plano-sequência, tudo aparentemente sem cortes, a imagem granulada e borrada. O horror diante de uma realidade documental.

Esse movimento já era perceptível no cinema dos anos 70 como os primeiro horror explícito em “O Exorcista” (vômitos verdes e violência explícita), as lendas dos “snuffs movies” (Filmes violentos de caráter mórbido e sexual em que depois de violada e humilhada a vítima era assassinada) e o sucesso da série de vídeos VHS “As Faces da Morte” nos anos 80 (vídeos documentais de mortes bizarras).

O filme uruguaio “La Casa Muda” do diretor Gustavo Hernandez aparentemente se inscreve nessa tendência ao ser promovido como “o medo em tempo real” onde vemos 74 minutos de plano-sequência narrando a tentativa desesperada da protagonista Laura (Florencia Colucci) em escapar de uma casa que oculta um sinistro segredo. Além disso, o filme também é oferecido como baseado em fatos reais que teriam ocorrido em 1944 em um vilarejo no Uruguai quando foram encontrados dois corpos mutilados em uma casa de campo.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Sinais do nosso tempo no filme "Enterrado Vivo": a vítima de uma sociedade terceirizada




Todo produto cinematográfico é histórico na medida em que é produto do seu tempo. Por isso carrega consigo, de forma indireta, inconsciente e subreptícia, as mentalidades ou as sensibilidades de cada época. Em "Enterrado Vivo" (Buried, 2010) o medo ou a fobia de ser enterrado vivo (tão presentes em obras literárias e cinematográficas) transforma-se em uma metáfora da amoralidade pós-moderna em uma sociedade dominada pela terceirização de empresas e serviços.

Assistir ao filme “Enterrado Vivo” (Buried, 2010) fez-me lembrar de outras obras (literárias e cinematográfica) que abordam esse medo que, de tão recorrente na História, transformou-se numa fobia (tafofobia). Cada uma dessas obras ofereceu uma abordagem sobre o medo de ser enterrado vivo em sintonia com a sensibilidade do seu tempo.

O medo e a fobia podem ser os mesmos, mas a sensibilidade em relação a tais muda. O terror metafísico e mórbido de Edarg Allan Poe em “O Enterro Prematuro” (1850), a brilhante adaptação desse conto pelo diretor Roger Corman em 1962 (o terceiro de uma série de filmes baseados na obra de Poe) e o atual “Enterrado Vivo” de Rodrigo Cortês, são três momentos em que esse mórbido tema é abordado, marcando a mentalidade de cada época: o horror metafísico de Poe, o enterro vivo como produto da morbidez da natureza humana em Corman e como o resultado da amoralidade pós-moderna em Rodrigo Cortês.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

A Mídia e os Cientistas "Cavalo de Tróia"

Quem não conhece a origem da expressão “cavalo de Tróia”? Diz a narrativa lendária que as legiões gregas deixaram o artefato de madeira oco, abrigando soldados gregos em seu ventre, junto às muralhas de Tróia. Os troianos acreditaram ser um presente dos gregos como sinal de rendição. Durante a noite os gregos deixaram o artefato e abriram os portões da cidade, que foi facilmente invadida, incendiada e destruída.

Atualmente essa expressão é famosa pela associação com códigos maliciosos (“worms”) que infestam computadores. 


Mas também podemos aplicar essa expressão “cavalo de Tróia” a um recorrente fenômeno do encontro entre a ciência e a mída. Mais precisamente, a exposição de cientistas na mídia onde expressam seus posicionamentos políticos “progressistas” ou “de esquerda”. Pela sua projeção midiática, passam a ser celebrados pela a intelectualidade e simpatizantes dessa ala política. Alguns passam a ser mais conhecidos pelas suas declarações políticas do que pela pesquisa cientifífica. Mas há algo contraditório: apesar dos posicionamentos midiáticos progressistas, os fundamentos das suas pesquisas científicas são conservadores, para não dizer reacionários em alguns casos.

domingo, janeiro 30, 2011

A Gnose após a Morte no filme "O Terceiro Olho"

O Filme “O Terceiro Olho” (The I Inside, 2004) talvez seja um dos primeiros filmes a representar a experiência pós-morte de uma forma gnóstica. Ao abandonar as representações demoníacas e grotescas do sobrenatural, a dimensão pós-morte é apresentada não somente como uma oportunidade da gnose, mas, também, como a continuidade da ilusão da realidade terrena: o esquecimento da dimensão espiritual, aqui simbolizada pela perda da memória do protagonista. (alerta: esse post tem spoilers)

Perda da memória, paranoia, incerteza dos limites entre a realidade e a fantasia/ilusão/delírio e a procura do protagonista de alguma coisa perdida dentro dele mesmo (identidade, memória, certeza, verdade, iluminação etc.). Essas são algumas características do filme gnóstico. É claro que poderíamos encontrar tais características em muitos filmes de diversos gêneros como Thriller, terror, drama e assim por diante.

Mas uma diferença fundamental é encontrada, o que torna o filme gnóstico uma abordagem distinta dos demais filmes: a diferença entre daimon e demon.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Jaron Lanier e a Religião das Máquinas do Vale do Silício

Para o cientista de computadores Jaron Lanier, criador do conceito de "Realidade Virtual", uma nova religião criada a partir da cultura da engenharia computacional seria a idéia corrente no Vale do Silício, Califórnia, e princípio orientador para a criação da Inteligência Artificial e Internet. Para Lanier seria a criação de um dogma digital: o "computacionismo" ou o "totalitarismo cibernético".

Sempre nos telejornais aparecem notícias pitorescas sobre os últimos desenvolvimentos em Inteligência Artificial (IA): máquinas que sorriem, um programa que pode prever os gostos humanos musicais, robôs que ensinam línguas estrangeiras para crianças etc. Este fluxo constante de histórias nos sugere que as máquinas estão se tornando cada vez mais inteligentes e autônomas? Devemos considerá-las criaturas ao invés de ferramentas?

Não na opinião do cientista de computadores Jaron Lanier. Para ele, isso está não só alterando a maneira como pensamos os computadores. Também está alterando de forma errada os pressupostos de como pensamos nossas vidas: a criação de um dogma digital com o seu credo – o “computacionismo” ou “totalitarismo cibernético” – uma religião das máquinas que, ao encarar os computadores como criaturas, inversamente passamos a interpretar a mente e a consciência como fossem um computador. E o centro dessa nova religião com os seus messias está no Vale do Silício, Califórnia.


segunda-feira, janeiro 24, 2011

Cristo Salva? Não, Cristo Funciona! A Fé Pragmática no filme "O Paraíso é Logo Ali"

Quem assiste ao filme “O Paraíso é Logo Ali” (Henry Poole is Here, 2008) pensa estar diante de um filme com tema espiritual ou religioso. Nem uma coisa nem outra. Embora estejam presentes elementos como a imagem de Cristo, fé, milagres e um padre, o filme é uma abordagem tragicômica sobre o tema da esperança. Dessa forma, esse filme é um flagrante exemplo de como roteiristas de Hollywood trabalham com elementos religiosos e espirituais: os convertem em cenários ou signos que evocam a vida espiritual, quando na verdade o filme trata da vida interior – a fé convertida em pensamento positivo. É a influência da filosofia do Pragmatismo americano ao converter o espiritual e o religioso ao “inspirador” e “motivacional”. A fé em Cristo não salva. Ela apenas funciona.

Henry Poole (Luke Wilson) é o protagonista do filme. Ele é um homem desiludido que tenta se isolar em uma casa no subúrbio degradado na periferia de Los Angeles. Desenganado por um médico, Poole acredita que morrerá em breve. Tudo o que ele quer é se isolar, acumulando várias garrafas de vodka e muitos sacos de salgadinhos, melancolicamente à espera da morte. Mas, para o seu incômodo, os vizinhos se recusam a deixá-lo sozinho.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Do Projeto Biosfera 2 ao reality show "Big Brother": a Ecologia Maléfica

O que há em comum entre o fracasso científico do Projeto Biosfera 2 em 1991 e o atual sucesso do gênero reality show? A ecologia maléfica. Das baratas e ervas daninhas que destruíram o Biosfera 2   à crueldade, preconceito e violência dos reality shows, ambos mantêm um vínculo secreto: a prospecção da mente e da consciência.

Em 26 de setembro de 1991 quatro homens e quatro mulheres entraram numa gigantesca estrutura geodésica de vidro e metal com 12.000 metros quadrados, em Tucson, Arizona, em pleno deserto, para ali ficarem trancafiados por dois anos. Era o projeto Biosfera 2, abrigando 3.800 espécies animais e vegetais e simulações dos cinco principais biomas do planeta Terra , com o propósito de entender como a biosfera planetária funciona e como o ser humano interage com os ecossistemas. Foram monitorados por dois mil sensores eletrônicos e assistidos por 600 mil pagantes em todo o mundo.

Alguns meses depois, em 15 de fevereiro de 1992 sete jovens entre 18 e 25 anos entraram no prédio 565 da Broadway Street, em Nova York, para ali permanecerem por três meses com diversas câmeras acompanhando suas vidas e seus relacionamentos. Era o início daquele que é considerado o primeiro Reality Show da TV mundial, o “The Real World” (Na Real) da MTV norte-americana.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

A "Barriga" Jornalística do Cão Caramelo: uma lição sobre a racionalização do Mal na mídia

Mais do que sintoma da espetacularização da notícia, a “barriga” jornalística do cão Caramelo é uma lição de como a mídia busca eliminar o Mal do horizonte da experiência humana. Por trás da urgente busca pela comoção do público está a racionalização e moralização para eliminar dos fatos a sua crueza, estupidez e tragédia.

Podemos aprender muito sobre o funcionamento da indústria do entretenimento em momentos trágicos como os que atravessamos com as enchentes e deslizamentos de terra em Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo no Estado do Rio de Janeiro.

A chamada “barriga” (gíria jornalística para designar uma grave bobeada de um jornalista que pensa estar publicando um “furo” quando não passa de engano ou má fé do próprio repórter) publicada por diversos veículos de imprensa ao comover a todos com a suposta história do cão Caramelo que guardava o túmulo da dona morta pelos deslizamentos de terra que atingiram as regiões serranas do Rio é um desses casos que denunciam a verdadeira natureza da indústria do entretenimento: ela não apenas produz “infotenimento” (informação + entretenimento) ou espetacularização da notícia, mas também em um nível ontológico, ela tem que produzir scripts para racionalizar a presença do Mal em nossas vidas.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

Incomunicabilidade em banda larga no filme “A Rede Social”

"A Rede Social" é mais do que um filme sobre a história do Facebook: é sobre as consequência da virtualização das relações humanas. O filme explora o paradoxo de como a incomunicabilidade pode definir uma geração que, como nenhuma outra, teve em suas mãos tantas mídias e ferramentas de comunicação.

O diretor David Fincher já havia nos brindado com o filme “O Clube da Luta” nos anos 90 centrado na personalidade dividida de um executivo yuppie, incapaz de se comunicar com o mundo exterior e diluindo sua ansiedade por meio do consumismo e da violência ao arrebentar a cara dos outros no Clube da Luta, irmandade marcial underground do qual aos poucos vai perdendo o controle até se transformar numa gigantesca rede terrorista.

“A Rede Social” (“The Social Network”, 2010) desenvolve um tema muito semelhante. 



Um jovem nerd de Havard (Mark Zuckenberg, interpretado por Jesse Eisenberg), gênio em algoritmos e linguagem de programação, com uma grande dificuldade em se comunicar e estabelecer uma rede de relacionamentos, desconta sua ansiedade difamando pessoas em um blog enquanto tem uma ideia divertida, pelo seu ponto de vista: um jogo com as fotos de todas as moças da universidade para que as pessoas possam escolher qual a mais bonita.

Dessa ideia vai surgir o Facebook que, de rede de relacionamentos de alguns campi universitários nos EUA, cresce até atingir outros continentes. Pela sua incomunicabilidade em relações humanas, perde a noção das tramas de interesses e dos inimigos que vai acumulando ao longo do caminho na medida em que o projeto cresce empresarialmente.

“A Rede Social” é muito mais do que um filme sobre a história do site Facebook e relacionamentos humanos. É sobre a virtualização dos relacionamentos humanos e do perfil da geração desse início de século por trás da idealização de sites de relacionamentos como o Facebook.

terça-feira, janeiro 11, 2011

O Delírio Digital de Nicolelis: o Brasil alinhado à agenda tecnognóstica internacional

A entrevista ao jornal "O Estado de São Paulo" concedida pelo internacionalmente prestigiado neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis é um flagrante exemplo das principais características da retórica do "delírio digital" que justifica a agenda tecnognóstica atual: o mix de messianismo, exterminismo e transcendentalismo para racionalizar os esforços das neurociências e ciências cognitivas em virtualizar a consciência.

Definitivamente, a pesquisa científica brasileira se alinha à agenda tecnognóstica desse início de século. Miguel Nicolelis, um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio mundial, na última quarta-feira foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, na qual já foi membro Galileu Galilei e tendo como um dos seus atuais membros o físico inglês Stephen Hawking.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

As origens do "Paradigma Disney": arquétipos na comunicação globalizada


O “Paradigma Disney” é um exemplo dessa forma globalizada de explorar os arquétipos, ao mesmo tempo repetitiva e transformadora, ao confinar os símbolos do insconsciente coletivo na ideologia do mundo globalizado e seus valores corporativos: individualismo, empreendedorismo, mobilidade social, inovação e relativismo ético e moral.


Em uma postagem do ano passado falávamos sobre a habilidade das animações norte-americanas, voltadas para o público infantil, de tornar divertidos temas trágicos, pesados e adultos (para ver clique aqui). Para ficarmos nos exemplos das produções dos Estudios Disney, desde Bambi (onde o protagonista perde a mãe de forma cruel) até Wall-E (ficção científica cínica e dark) as animações dos estúdios norte-americanos exercitam essa capacidade de fazer crianças rirem do cruel e do trágico.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

"Tron: O Legado": simbologias alquímicas e gnósticas esvaziadas pelos Estúdios Disney

"Tron: O Legado" (Tron: Legacy, 2010) é mais um exemplo do conservadorismo dos Estúdios Disney. Se em "Tron" de 1982, uma das primeiras representações cinematográficas do mundo digital, tinhamos uma abordagem heróica e contestadora de uma ciberutopia que desafiava as grandes corporações computacionais, nessa continuação temos um enfraquecimento desse ímpeto. Todos os elementos místicos e gnósticos que motivavam essa ciberutopia esboçados há 28 anos com "Tron", são até ressaltados e mais desenvolvidos nessa continuação atual. Porém, são representados de forma esvaziada e submetidos à ideologia que o primeiro "Tron" tanto combatia.

Ao assistirmos a essa continuação do clássico filme de ficção científica "Tron: Uma Odisséia Eletrônica" (1982) temos a sensação de uma atmosfera de final de festa. Comparado com o primeiro Tron de 28 anos atrás (expressão de uma cibercultura emergente em tons épicos e heroicos), “Tron, O Legado” parece ser um réquiem para toda uma ciberutopia. Se na década de 80 o protagonista Flynn lutava pela liberdade do servidor da empresa ENCOM contra a tirania do PCM (Master Control Program – que expressava a luta pela liberdade dos primeiros PCs feitos em garagens contra os gigantescos main frames corporativos), aqui nessa continuação Flynn se confronta contra seu próprio avatar, numa jornada sem mais tons épicos, mas, agora, numa narrativa solipsista e introspectiva.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Primeiro Aniversário do Blog "Cinema Secreto: Cinegnose": Um Guia de Navegação (segunda parte)

Hoje completamos um ano de atividades do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”: foram sete mil visitas (pouco, mas nada mal para um blog com temas tão obscuros!), 15 mil Page views e tempo de permanência médio de cinco minutos. Nesse período participamos da formação de um Grupo de Pesquisas sobre a Religião e o Sagrado no Cinema e Audiovisual na Universidade Anhembi (reportado por esse blog – clique aqui) e dois livros, diretamente ligados aos temas desse blog, foram publicados (“O Caos Semiótico” e “Cinegnose”) e a inserção do verbete “Tecnognose” no Dicionário de Comunicação da editora Paulus. Neste post, a segunda parte do Guia de Navegação para os nossos visitantes e seguidores se orientarem através dos arquivos do Blog “Cinema Secreto: Cinegnose”.

terça-feira, dezembro 21, 2010

Primeiro Aniversário do Blog "Cinema Secreto: Cinegnose": Um Guia de Navegação (primeira parte)

Na tarde do dia 22 de dezembro de 2009 ia ao ar o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” com a primeira postagem “Filme Gnóstico – Uma Introdução”. Ao longo desse ano, o cinema se tornou o ponto de partida para o Blog empreender uma pesquisa mais ampla envolvendo as expressões não só do Gnosticismo, mas das formas de representações do sagrado e da religiosidade no audiovisual e na cultura pop. Diante do extenso material de postagem nesse período (foram 142 posts), decidimos, para comemorar o aniversário, elaborar um guia que auxilie os nossos fiéis 42 seguidores e visitantes a navegar através dos arquivos desse Blog.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

O Dia em que o Sorriso Parou São Paulo: "Minimalismo" e Ad-Gnose na Ação de Marketing da Brastemp

Criativa e tecnicamente perfeita, a ação de marketing da Brastemp apresenta novos aspectos da tendência da Ad-Gnose na linguagem publicitária. Ao querer transformar o consumo em uma oportunidade de experiências "espirituais" e de "auto-conhecimento", a Publicidade (como de resto toda a indústria do entretenimento) deve expressar o arquétipo e, simultaneamente, contê-lo e aprisioná-lo por meio de mecanismos ideológicos e retóricos.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

"Poder Além da Vida": Quando a Gnose se transforma em Auto-Ajuda


"Poder Além da Vida" (Peaceful Warrior, 2006), baseado num best-seller da área de Auto-Ajuda, é uma oportunidade didática para estabelecer as diferenças entre Gnose e Auto-Conhecimento. Se toda ideologia tem o seu momento de verdade, a atitude gnóstica presente em alguns conceitos da Auto-Ajuda (como, por exemplo, a certeza de que tudo que precisamos já está dentro de nós) demonstra o momento de verdade desse ideário, que depois se perde no esforço de adaptar à força o indivíduo à realidade das instituições e corporações.

“Poder Além da Vida” passaria despercebido por este blog se o filme não fosse uma ótima e didática oportunidade de estabelecer uma distinção entre Gnose e Auto-conhecimento. Dos filmes sobre estórias de desafios superados e lições de vida, este filme está acima da média por apresentar, na primeira metade da narrativa, sérios elementos sobre Gnose e Gnosticismo. Porém, da metade até o final a narrativa desmorona para o

segunda-feira, dezembro 06, 2010

No filme "Sr Ninguém" a luta do homem contra a maior falha cósmica: o tempo


O que há em comum entre a Teoria das Cordas da Cosmologia, o Efeito Borboleta da Teoria do Caos, Futuros distópicos, a possibilidade da quase imortalidade, Entropia e a flecha do tempo, a impermanência da memória, morte, amor, segunda chance, missões para Marte e mágoas de um divórcio?Para o diretor belga Jaco Van Dormael são partes de um mesmo contínuo: um protagonista prisioneiro na principal falha cósmica do universo físico (a flecha do tempo) vê sua existência como um gigantesco hipertexto com diversos futuros alternativos resultantes das decisões. Esse é o filme "Sr. Ninguém" (Mr. Nobody, 2009) - filme narra a luta de um homem contra o caos e o aleatório que interferem no livre-arbítrio das decisões.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

A Jornada de Alice de Lewis Carroll: ritual de passagem?

A interpretação mais aceita sobre a jornada de "Alice no País das Maravilhas" de Lewis Carroll é a de que a obra representa o rito de passagem da adolescência para o mundo adulto. Porém, essa leitura enfraquece toda a dimensão ocultista (metafórica e alegórica) da obra de Carroll e, o que é pior, reduz obras literárias ao campo dos sintomas e até patologias clínicas.


No debate que se seguiu após a minha apresentação no VI Encontro Científico e de Iniciação Científica da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, foi colocada uma questão sobre a minha leitura da Wonderland de Tim Burton (como mais um exemplo da filmografia atual sintonizada com a agenda tecnognóstica) como uma jornada de auto-conhecimento de Alice para, mais tarde, após decepar literalmente a cabeça de seus temores e fantasmas, tornar-se senhora de si e assume os negócios do pai falecido. Afirmei que da viagem onírica de Carroll, Burton traduz a estória de Alice em exemplo de determinação de uma jovem que se tornará empresária empreendedora (estender os negócios até a China).

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