O sonho tecnognóstico por séculos, desde a Teurgia e Alquimia, foi
transcender a matéria – abandonar os nossos corpos como condição para a
verdadeira evolução espiritual. Mas como Santo Irineu de Lyon alertou no século
II, “O que não é assumido não pode ser redimido”. E o sonho milenar pode se
transformar em pesadelo com uma tecnologia que promete a imortalidade: a
consciência digitalizada em “pilhas cervicais” que podem, a qualquer momento,
serem transferidas para qualquer corpo (ou “capa”). Mas isso acabou provocando
uma sociedade tremendamente desigual e violenta. Essa é a série Netflix
“Altered Carbon” (2018-), um cyberpunk-noir que suscita profundas reflexões
teológicas: se pudermos ser ressuscitados após a morte em uma nova “capa”, a
alma persistirá entre os códigos que transcreveram nossa consciência e
memórias? Ou nos transformaremos em “capas” ocas manipuladas por uma elite
amoral? Uma elite que alcançou a verdadeira imortalidade – fazer backups da
própria consciência via satélite.
sexta-feira, julho 06, 2018
Wilson Roberto Vieira Ferreira


































