quarta-feira, setembro 11, 2013

A bomba semiótica das pegadinhas do "Fantástico" e "CQC"


Ensinar lições de moral e cidadania através de simulações. Mais precisamente através de “pegadinhas”, dessa vez “do bem” e na TV. Cuidado! Sob o pretexto de nobres propósitos programas como o “Fantástico” da Globo e “CQC” da Band estão detonando mais uma “bomba semiótica”, dessa vez sob a forma do “infotenimento” (informação + entretenimento), com situações do cotidiano simuladas para flagrar contraventores da ordem, da moral e dos princípios de cidadania para nos ensinar que o bem sempre compensa. Ambos os programas alinham-se à pauta atual imposta pela mídia: a pauta da moralidade e do combate à corrupção, o último papel de protagonismo que lhe resta no cenário político atual.

Vamos desmontar mais uma “bomba semiótica”. Porém esta é de um tipo sofisticado e difícil de lidar semioticamente, pois envolve um elemento “meta”: a simulação, e não simplesmente uma simples manipulação ou encobrimento de fatos como habitualmente estamos acostumados a ver em telejornais ou revistas impressas.

O “Fantástico” estreou recentemente um quadro chamado “Vai Fazer o Quê?” no qual o repórter Ernesto Paglia conduz uma série de “experiências” para descobrir como reagem as pessoas diante de situações polêmicas como pit boys que ofendem um mendigo e tentam expulsá-lo de uma praça pública ou uma cuidadora que maltrata seu paciente idoso. O repórter privilegia mostrar aqueles que atuaram corretamente, pede desculpas ao estresse que os atores criaram na simulação, constrange os cidadãos menos valorosos que nada fizeram com perguntas do tipo “você ficou ali olhando, mas não reagiu...” e discorre como os espectadores devem agir em uma situação dessas.

domingo, setembro 08, 2013

Dez sinais de que você participa de uma seita.


Acreditamos que só loucos e estúpidos fazem parte de cultos ou seitas. Mas não se engane: esse é um estereótipo midiático mostrado pelas notícias sensacionalistas que nos apresentam fanáticos fazendo parte de cultos comandados por gurus enlouquecidos. Desde a década de 1930 quando a literatura de autoajuda começou a abandonar o campo da psicologia e flertar com o misticismo e esoterismo até transformar-se em técnicas motivacionais, os dispositivos de controle mental dos cultos começaram a se espalhar por empresas, movimentos políticos, grupos de autoajuda e outros tipos de organizações. Fique atento aos dez dispositivos de controle mental das seitas, sejam elas de culto a líderes, metas ou missões. Você pode estar dentro de uma delas e não sabe...

Quando ouvimos a palavra “culto” lembramos de religiões neopentecostais, manipulações religiosas de estranhas seitas ou obscuros cultos de grupos místicos cujos símbolos somente os iniciados podem compreender. Vêm-nos à mente fanáticos desequilibrados, líderes carismáticos manipuladores e suicídios grupais por causas bizarras.

No entanto essa é apenas a aparência sensacionalista e midiática que parece encobrir uma realidade de natureza bem diversa: ao lado das técnicas de manipulação de massas por meio da propaganda e do marketing político, de marcas e de consumo, uma outra forma de manipulação cresceu e vem se expandindo por todos os setores da sociedade – a manipulação das relações humanas por intermédio do controle das relações pessoais por lideranças e pequenos grupos.

sábado, setembro 07, 2013

Monty Python contra o cinismo contemporâneo


Há quarenta e quatro anos ia ao ar pela TV BBC o primeiro “Monty Python’s Flying Circus” com uma trupe de comediantes ingleses cujo humor era marcado pelo absoluto cinismo e non sense. Suas experiências formais (programa estruturado como “fluxo de consciência”) e sketches demolidores influenciam há décadas gerações de comediantes e redatores. Recuperando a melhor tradição do humor físico de Chaplin e Jacques Tati, mesclou tudo isso com um estilo de comédia que desconstruía ilusões e mentiras dos papéis sociais, mostrando de forma engraçada como nossa existência parece ser baseada em mentiras e ilusões. Diante do “cinismo esclarecido” contemporâneo a que se refere o filósofo alemão Peter Sloterdijk, o grupo inglês criou uma técnica de humor que remontava às próprias origens filosóficas radicais da escola dos cínicos: o "kynismo" grego da antiguidade helenística de Diógenes e Pirro.
Quando pensamos em filmes gnósticos, logo imaginamos ficções científicas dramáticas como “Cidade das Sombras” ou “Matrix” com protagonistas procurando saídas de um universo conspiratório em narrativas tensas e repletas de simbolismos enigmáticos. Terror, drama, thriller, suspense ou ficção científica parecem ser os gêneros propícios para questionamento gnósticos sobre a condição humana. Mas e a comédia?  É claro que nesses últimos quatro anos em que esse blog procurou mapear a presença de elementos gnósticos, esotéricos, ocultistas e míticos na produção cinematográfica popular recente, encontramos tais elementos em produções que primam pelo humor negro como no filme “Como Fazer Carreira em Publicidade” (How to Get Ahead in Advertising, 1989) ou em animações como a trilogia “Toy Stories”.
Mas se pensarmos a comédia muito mais do que um gênero, isto é, como técnica de humor (onde elementos como o cinismo, a ironia, a parodia e o sarcasmo podem se transformar em instrumentos de crítica social tão poderosos como a Filosofia e a Psicanálise) podemos encontrar a presença do espírito gnóstico da desmistificação da irrealidade do mundo.

quarta-feira, setembro 04, 2013

Em Observação: "Sapphire & Steel" (1979-1982)


Imagine uma série como "Dr. Who" misturada com alquimia e ocultismo. Foi a antiga série televisiva britânica chamada "Sapphire & Steel". Com baixo orçamento e filmado quase totalmente em cenários interiores, criou uma abordagem totalmente diferente sobre os problemas metafísicos que envolvem o Tempo. Ao contrário da abordagem tradicional que o cinema faz baseada nos paradigmas da Física (relatividade, continuum tempo-espaço, universos alternativos etc.), essa antiga série cult abordava o tema a partir de referenciais alquímicos e ocultistas. Telecinese e Psicometria convivem com transmutações e seres elementais que são, na verdade, guardiões do Tempo que assumem formas humanas. Elementais que parecem ter saído de uma Tabela Periódica de química e que lutam contra entidades malignas que querem explorar os pontos fracos dos corredores do Tempo.

sábado, agosto 31, 2013

Guia prático de destruição do capitalismo


Vamos dar uma pequena contribuição à escalada de manifestações no Brasil no mundo com um pequeno “Guia Prático de Destruição do Capitalismo” mostrando que o verdadeiro inimigo não está nas vidraças de agências bancárias ou nas lanchonetes símbolos da globalização, sempre alvos de depredações. Está na financeirização e liquidez do capital, símbolos da força e, paradoxalmente, também da fraqueza de um sistema baseado apenas na credibilidade através da nossa participação a cada compra a prazo ou quando pagamos através da socialização dos prejuízos das explosões das bolhas financeiras. E a única forma de libertação existente é através daquilo que o filósofo francês Jean Baudrillard chamava de "aprofundamento irônico e proposital das condições negativas".

And when we kiss we speak as one
With a single breath this world is gone
(Everyone Everywhere, New Order)


Desde o crash da Bolsa de Nova York em 1929 quando quase tudo derreteu e foi para o ralo, o capitalismo aprendeu que a força do capital não estava na exploração local da força de trabalho, mas na industrialização e mercantilização como modelo de vida social para ser expandido de forma sistêmica e planetária. Isso foi conseguido por meio da publicidade, mídia e financeirização do capital. Isso não evitou as crises, que se tornaram cada vez mais periódicas (longos ciclos de prosperidade acompanhados por crises e explosões de bolhas especulativas).

quarta-feira, agosto 28, 2013

O demônio é um anjo caído em "O Advogado do Diabo"


Apesar de flertar com temas místicos e espirituais não ortodoxos, Hollywood ainda precisa manter as convenções dos gêneros cinematográficos. Um dos exemplos dessa dualidade vivida pelo cinema comercial é o filme “O Advogado do Diabo” (Devil’s Advocate, 1997) onde o diretor Taylor Hackford tenta inserir uma visão mais matizada e ambígua da figura do Diabo em meio aos tradicionais clichês satânicos reforçados por efeitos de computação gráfica. Através da inesquecível performance de Al Pacino, o filme nos apresenta uma sutil visão do Diabo como uma figura prometeica, um anjo caído e condenado pelo Criador por ter apresentado ao homem o fruto do conhecimento.

O ano é 1997. Na segunda metade dessa década Hollywood vive uma espécie de guinada metafísica. Desde “Dead Man” (1995) do diretor Jim Jarmusch, um western místico onde as religiões institucionalizadas são ridicularizadas, roteiristas e produtores começam a flertar com temas e abordagens místicas ou espirituais não ortodoxas, tal como o gnosticismo. Nesse ano estão em produção “Show de Truman” e “Cidade das Sombras” (que serão lançados no ano seguinte) e o filme “Matrix” está sendo gestado pelos irmãos Waschowski. Esses filmes fazem parte de uma tendência cinematográfica da época repletas de temas, arquétipos e simbolismos religiosos, mas com uma abordagem mística e gnóstica.

Também, nesse ano é lançado o filme “O Advogado do Diabo” dirigido por Taylor Hackford, adaptação do livro de Andrew Neiderman. Se no livro há uma ambiguidade fundamental em relação ao personagem principal (não sabemos se ele é um louco ou a própria encarnação do Diabo, ambiguidade resolvida no monólogo final), no filme percebe-se uma ambiguidade de outra natureza: o conflito entre as convenções do gênero terror/suspense imposta pelos produtores em apresentar o Diabo na tradicional visão judaico-cristã e a adaptação ao livro que procura apresentar esse personagem de uma forma mais matizada – uma visão alternativa do Diabo, própria da literatura do Romantismo que o via como uma figura prometeica, um anjo caído e condenado pelo Criador por ter apresentado ao homem o fruto do conhecimento.

domingo, agosto 25, 2013

O gnosticismo cult de "Donnie Darko"

Desde o seu lançamento em 2001, o filme “Donnie Darko” do diretor Richard Kelly tornou-se um fenômeno cult: é um dos filmes mais pesquisados e acessados na Internet (atualmente ocupa a 185° do Top 250 do IMDB), em geral espectadores que buscam uma explicação para enigmática narrativa sobre um adolescente problemático com misteriosas visões de um coelho de dois metros de altura chamado Frank que faz uma espécie de contagem regressiva para o fim do mundo. “Donnie Darko” é um exemplo de filme que se tornou atemporal por amarrar em um inteligente roteiro arquétipos contemporâneos e milenares sobre o tempo, destino e redenção.

As primeiras cenas parecem ter todos os ícones dos filmes convencionais sobre adolescentes que moram em subúrbios com problemas existenciais na high school envolvendo namoradas e jovens valentões. Mas aos poucos vamos descobrindo que estamos diante de um filme incomum: uma parábola em humor negro da angústia da Geração X? Um drama sobre um adolescente psicopata? Um filme de ficção científica e fantasia ao estilo da série “Além da Imaginação”? Alguma coisa entre David Lynch e Arquivo X? Nenhuma dessas alternativas consegue dar o tom exato à estranha narrativa. Mas uma coisa é certa: “Donnie Darko” é um desses filmes com inteligentes linhas de diálogo e personagens realistas imersos em uma narrativa com uma atmosfera fantástica que nos compele a ver o filme mais de uma vez.

sexta-feira, agosto 23, 2013

Dez patentes sobre controle subliminar da mente


Embora questionada por estudos em neurociências e psicologia cognitiva e proibida por leis e códigos de comunicação e consumo, as formas subliminares de controle da mente e do comportamento se expandem. Pelo menos é o que demonstram o crescimento do número de patentes registradas no The United States Patent and Trademark Office sobre técnicas, sistemas e dispositivos subliminares de indução e monitoramento da mente. Isso sem falar da expansão do “neuromarketing” onde novas empresas surgem para explorar as potencialidades subliminares e comerciais de músicas, sons e aromas, como uma nova e ainda imprecisa ciência. O crescimento das patentes confidenciam a ascensão de uma nova forma de controle social, cada vez mais abusiva e invasiva.

Na maioria dos países o uso de mensagens ou publicidade subliminar é proibido por lei e por códigos deontológicos dos profissionais de comunicação. Embora estudos recentes da psicologia cognitiva demonstrem que a possível influência e poder de manipulação dessas estratégias subliminares sejam muito inferiores à expectativa criada, o fato é que na atualidade vendem-se técnicas que são agora nomeadas como “neuromarketing”: “arquitetura de áudio” para estimular vendas em lojas, aromas subliminares vendidos por empresas para criar estados emocionais em consumidores, vídeos subliminares com programas terapêuticos do gênero como emagrecer ou como parar de fumar etc.

Existe pouca literatura confiável sobre o tema, onde se misturam teorias conspiratórias com repetitivos exercícios de psicologia gestalt, como o caso de Wilson Bryan Key que teria descoberto inúmeras mensagens ocultas em anúncios publicitários de uísque associados a sexo e morte em cubos de gelo (CHEN, Adam. Expert discusses the effects of subliminal advertising In: The Tech – on line edition). Na Internet, sites e blogs sobre o assunto mostram intermináveis exemplos de imagens ocultas em anúncios e desenhos animados que mais se assemelham ao teste projetivo de Rorschach – pranchas com manchas de tinta cuja interpretação revelaria projeções de aspectos da personalidade.

quarta-feira, agosto 21, 2013

A morte é uma mercadoria na animação "A Pequena Loja de Suicídios"


De forma despretensiosa através de muito humor negro e cinismo, a animação francesa “A Pequena Loja de Suicídio” (Le Magasin des Suicides, 2012) de Patrice Laconte nos faz pensar em uma questão fundamental para a História da Cultura: por que  o suicídio foi sempre objeto de tabus religiosos e repressão ao longo da História? Talvez porque nesse momento derradeiro da vida do indivíduo se exponha de forma dramática as mazelas da sociedade. Na animação de Laconte é a crise europeia e a forma como a ideologia dos negócios consegue ver a infelicidade e o desespero como mais uma oportunidade de mercado.

sábado, agosto 17, 2013

As 10 técnicas do kit semiótico de manipulação das multidões


Chamado de “século das multidões”, o século XX nos deixou como legado um verdadeiro kit semiótico completo de ferramentas de gestão do comportamento de grupos e multidões. Esse kit composto por 10 ferramentas é aplicado na sua totalidade ou em fragmentos por políticos, agências governamentais, líderes de seitas, jornalistas e publicitários. Desde as manifestações de rua anti-globalização de Seattle em 1999, observa-se uma crescente importância na manipulação das multidões. A sequência atual de manifestações em diversos países como Brasil, Egito e Turquia nos faria questionar se estariam sendo aplicados nestes eventos ferramentas desse kit. Por isso, vamos entender cada uma dessas dez ferramentas para que possamos reconhecê-las nas ruas ou nas mídias.

O poder das multidões para determinar mudanças políticas é um dos temas mais significativos da História. Mas certamente as manifestações anti-globalização em Seattle em 1999 e em Londres em 2001 foram o ponto de viragem na maneira como os poderes estabelecidos viam os protestos. Os manifestantes utilizaram novas tecnologias de comunicação como laptops, Internet e mensagens em SMS por dispositivos móveis. A partir de então as agências governamentais responderam com suas próprias tecnologia invasivas: redes de monitoramento através de câmeras e sistemas de gestão das multidões.

Quando vemos a sequências de manifestações como na Turquia, Egito e Brasil, passamos a discutir sobre a espontaneidade ou não desses eventos, principalmente quando nos deparamos com o livro Killing Hope: U.S. Military and CIA Intervention Since World War II de William Blum (ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA) onde faz um relato das intervenções norte-americanas em diversos países através de ações de agências governamentais por meio de ONGs como National Endowment for Democracy (NED) ou Freedom House. Segundo Blum (mais um da já longa lista de dissidentes como Snowden, o ex-agente Philip Agee e o soldado Bradley Manning), há uma verdadeira estratégia “cavalo de troia” ao não só financiar instituições civis com fundos, computadores, carros, mas também treinamentos para passar o know-how de manipulação de multidões.

terça-feira, agosto 13, 2013

A distopia AstroGnóstica da animação "Planeta Fantástico"


Ao contrário de muitos filmes anti-autoritários da década de 1970 que com o passar do tempo se tornaram datados e ingênuos, a estranheza da animação francesa “Planeta Fantástico” (La Planèt Sauvage, 1973) garantiu a ela um caráter a-temporal. A estranha, e muitas vezes cruel, história da animação sugere uma atmosfera resultante do cruzamento do surrealismo de Salvador Dali com a narrativa de Gulliver de Jonathan Swift. “Planeta Fantástico” se insere em um subgênero que cresceu nessa década desde o sucesso do filme “Planeta dos Macacos” (1968), o filme AstroGnóstico - narrativas onde aliens caem na Terra e se tornam prisioneiros da crueldade humana, ou o inverso: o homem dominado por aliens cujo conhecimento superior tecnológico e espiritual não é garantia de que sejam bondosos e tolerantes .
Um pai e sua filha passeiam pelo campo até se depararem com uma minúscula criatura órfã. A mãe da pequena criatura morreu pelas mãos de um cruel grupo de crianças. Após ouvir uma prelação do pai sobre a importância da responsabilidade, a menina convence-o a deixá-la levar a pequena criatura para casa. Lá brinca com o novo animal de estimação. Ela escolhe roupas para ele, como fosse uma boneca, embora a pequena criatura demonstre não gostar muito disso. Esse parece ser uma narrativa familiar sobre filmes de animais de estimação, mas não se engane. No estranho universo criado pelo francês René Laloux na clássica e cult animação “Planeta Fantástico” (1973), a pequena criatura é um bebê humano (chamados de Oms) e a menina e seus familiares enormes membros de pele azul da espécie Draag em um estranho planeta.
                Essa bizarra e muitas vezes cruel história parece o resultado do cruzamento do surrealismo de Salvador Dali e a história de Gulliver de Jonathan Swift, usando a técnica de animação cutout, comum na atualidade em series como South Park. Mas para a época não era muito habitual, a não ser em vinhetas da série de humor do grupo Monty Python na TV inglesa.

domingo, agosto 11, 2013

Em "Revólver" o homem encontra seu pior inimigo: o Ego

Um dos filmes recentes mais subestimados, desprezado pela crítica e pouco visto pelo público. “Revólver” (2005) de Guy Ritchie é uma espécie de cavalo de troia: sob uma embalagem que comercialmente lembra seus sucessos passados como “Snatch” (2000), na verdade o diretor nos oferece uma complexa e instigante jornada interior de um protagonista imerso em um jogo de trapaças e violência. Ele terá que descobrir que o maior inimigo se esconderá no último lugar que você procuraria: no interior do próprio Ego. Por isso a narrativa será sempre pontuada com a famosa exortação gnóstica - "Acorde!".

Depois de filmes como “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), o diretor Guy Ritchie teve uma ascensão meteórica: de cineasta independente a um dos queridinhos de Hollywood. Passou a ser rotulado como o “Tarantino britânico”. Mas depois do fracasso com “Destino Insólito” (2002), a mesma indústria que o celebrou passou a esquecê-lo, principalmente depois que ganhou o “prêmio” Framboesa de Ouro de Pior Diretor. Durante seu autoexílio em se país natal planejou por três anos uma resposta. E não poderia ter sido mais brilhante com o filme “Revolver”.

domingo, agosto 04, 2013

Filme "Laranja Mecânica" é explicado pela "Trilogia Star Child"


Quarenta e dois anos depois, “Laranja Mecânica” (1971) do diretor Stanley Kubrick continua urgente e moderno. Como todos os filmes do diretor, “Laranja Mecânica” que transmitir muito mais do que conta a narrativa: uma história sobre uma sociedade distópica  aterrorizada por gangues juvenis sob um Estado que planeja resolver seus problemas políticos através de uma técnica de lavagem cerebral. O verdadeiro núcleo simbólico do filme somente poderia ser compreendido através da chamada “Trilogia Star Child” sugerida pelo cineasta e escritor canadense J. F. Martel, composta por “Dr Fantástico”, “2001: Uma Odisséia no Espaço” e “Laranja Mecânica”. Esse núcleo espiritual e místico da trilogia é que manteria esses filmes atemporais como verdadeiros arquétipos contemporâneos.

Certa vez Kubrick disse para o ator Jack Nicholson: “Nós não estamos interessados em fotografar a realidade. Nós estamos interessados em fotografar a fotografia da realidade”. Talvez isso explique porque, quarenta e dois anos depois, o filme “Laranja Mecânica” continue atual e com um mesmo caráter de urgência: o filme possui uma estranha atmosfera atemporal como se a sua narrativa ocorresse em um mundo alternativo, análogo ao nosso. A cenografia sugere um futuro ao mesmo tempo familiar e estranho, onde os detalhes banais do cotidiano são distorcidos.

Foi lançado em 1971, com linhas de diálogos que seguem à risca a linguagem do livro original de Burguess de 1962 (mistura de gírias, inglês shakespeariano e expressões comuns), mas com um visual que parece de 2013. A pontuação musical é variada, indo da Nona Sinfonia de Beethoven à canção “Singin’ in the Rain”. Em outras palavras, a atemporalidade de “Laranja Mecânica” vem da sua deliberada hiper-realidade. Seu centro parece ser místico, como se Kubrick quisesse capturar algo de arquetípico, gnóstico, que transcende o tempo e o espaço: a própria configuração psíquica.

sexta-feira, agosto 02, 2013

Em Observação: "Planeta Fantástico" (1973)


Os anos 1970 foram uma década onde a indústria do entrenimento ainda permitia estranhas experimentações temáticas e visuais. Nessa época temos o crescimento de filmes com temática gnóstica com um tratamento "cult" ou "de arte", bem antes do atual gnosticismo pop cujo filme "Matrix" é o paradigma. A animação francesa "Planeta Fantástico" se insere nessa tendência dos anos 70 onde aliens e misticismo estavam em alta, porém com um tratamento bem mais sombrio e gnóstico que o fez ser comparado ao filme "Planeta dos Macacos" de 1968.

domingo, julho 28, 2013

Jornal Nacional e o sorriso do gato de Alice


Dando prosseguimento à nossa perigosa aventura de localização e desmontagem de bombas semióticas, nos defrontamos com um novo e mais letal tipo porque detentor de um efeito tóxico e de longo prazo: a comunicação não verbal do Jornal Nacional da TV Globo. A melhor analogia para entender essa bomba é o sorriso do gato de “Alice no País das Maravilhas” – o seu sorriso permanecia no ar, mesmo quando o gato desaparecia lentamente. O principal telejornal da emissora possui um complexo sistema semiológico para simular espontaneidade de gestos, sobrancelhas levantadas, mãos agitadas, locuções carregadas de vogais e pausas etc. Uma estratégia linguística para, assim como o sorriso do gato de Alice, os signos verbais permanecerem na memória mesmo depois que a notícia for esquecida ou, talvez, nem assimilada. O propósito? Disseminar signos não verbais que sinalizem uma difusa atmosfera de caos, anomia e instabilidade.

No capítulo 6 do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, Alice encontra o gato de Chershire e pergunta para ele se há algum lugar onde não exista gente louca e como chegar lá. O sorridente gato responde que todos são loucos, inclusive ele e Alice e desaparece lentamente deixando apenas o seu sorriso. O gato é o único personagem na fábula que Alice se refere como “amigo”: o seu sorriso se destaca e se autonomiza da cabeça felina. Muitos significados e simbolismos foram atribuídos a esse personagem (sorriso lunar, autoconsciência de Alice de que tudo se tratava de um sonho etc.), mas uma coisa fica evidente: o poder da comunicação não verbal do gato – pouco importa o que ele dizia, seu sorriso enigmático que permanecia no ar era o mais importante.

Pois todas as noites, em rede nacional pela TV, repete-se essa cena surrealista narrada por Carroll: sobrancelhas, olhos, testas franzidas e mãos sobre uma bancada ganham tanta poder que se tornam mais importantes que a própria notícia – são índices de um “contínuo midiático atmosférico”, de um clima do estado da Nação. Por isso, enquadram-se em uma metódica e recorrente “bomba semiótica” que, principalmente desde as manifestações de rua de junho, vem sendo detonada de segunda a sábado no Jornal Nacional da TV Globo.

terça-feira, julho 23, 2013

Monstros e crianças se encontram em uma exposição


Por que o imaginário infantil sempre esteve às voltas com monstros? Por que esses seres fantásticos presentes em todas as culturas, mitologias e lendas ao mesmo tempo assustam e fascinam crianças há gerações? A exposição “Monstros” do artista multimídia Térsio Greguol ajuda a responder essas questões porque expressam o passado e presente desses assustadores seres: a importância do arquétipo do monstro para a criança enfrentar psicologicamente esse mundo e a nova sensibilidade infantil com esses seres, dessas vez paródica e metalinguística.

Desde que Sigmund Freud descobriu que as crianças não eram exatamente anjinhos barrocos, mas detentoras de uma vida psíquica tão ou mais complexa que os adultos, a maneira como encaramos o imaginário infantil com suas fábulas, lendas e cantigas de ninar mudou. Desde a mais tenra idade as crianças estão familiarizadas com emoções perturbadoras como o medo e a angústia. São experiências que fazem parte do cotidiano. Elas têm que lidar constantemente com frustrações, angústia de perda e abandono, o medo da escuridão e do isolamento.

Diferente dos outros animais, a Natureza nos colocou nesse mundo, totalmente desprotegidos e dependentes – nascemos carecas, sem pelos e sem dentes, desajeitados e sem coordenação motora. E como a criança lida com essa situação? Através da imaginação e da fantasia, a melhor maneira de lidar com os monstros, arquétipos de seres fantásticos que simbolizam as ameaças dessa deplorável condição que viemos ao mundo.

domingo, julho 21, 2013

Globo faz programa tautista sobre "Honestidade"


Em meio ao debate do programa “Na Moral” Antônio Fagundes cita a fábula de Platão do anel da invisibilidade de Gyges para discutir ética e honestidade. Risos amarelos de Pedro Bial e da cantora convidada Gaby Amarantos diante de um momento de dissonância. Segundos de indecisão do surpreendido Bial, que toca o programa pra frente, sem comentários. “Na Moral” detona mais uma bomba semiótica na opinião pública (criar uma relação metonímica entre o impeachment de Collor em 1992 e as manifestações atuais), porém essa explosão parece que saiu pela culatra: esse momento de dissonância criado por Fagundes demonstrou o progressivo autismo da emissora que teimosamente tenta interpretar a realidade através da tautologia, auto-referência e metalinguagem. Seriam sintomas do “tautismo”, espectro que ronda a Globo que, para especialistas em comunicação e linguagem, são sinais de entropia de sistemas que adquiriram tamanha complexidade que não mais se sustentam.

Com a atmosfera política cada vez mais carregada, sucedem-se explosões das bombas semióticas midiáticas . Mas dessa vez, testemunhamos uma espécie de “fogo amigo”, isto é, a explosão de uma bomba que se reverte contra o seu próprio autor e seus aliados. Estamos falando sobre o programa “Na Moral” da TV Globo apresentado no dia 19/07. Apresentado pelo jornalista Pedro Bial, o tema era “Honestidade” e os convidados que debateriam com a plateia o tema foram o ator Antônio Fagundes e a cantora Gaby Amarantos.

Como toda bomba semiótica que se camufla de informação para construir significações arbitrárias que visam criar ondas de choque na opinião pública, o propósito latente dessa particular edição do “Na Moral” era fazer uma aproximação metonímica entre as manifestações do impeachment do presidente Collor de Melo em 1992 com a atual escalada de manifestações pelas ruas do País – e politicamente fazer “sangrar” o governo até as eleições do próximo ano. Para articular essa operação linguística, Bial invocou um episódio do antigo programa “Você Decide” também de 1992 onde se definia se um homem desempregado, que encontrou uma mala cheia de dinheiro, deveria ou não entregar aquele valor ao seu dono. Quem apresentava aquele programa? Claro, Antônio Fagundes.

sábado, julho 20, 2013

O metrô é o microcosmo da comédia humana em "Kontroll"


Um homem corre pela sua vida através de um túnel entre dois trens; uma figura encapuzada emerge de fissuras na parede para empurrar incautos passageiros nos trilhos do metrô; uma enigmática jovem fantasiada de urso assombra as paisagens labirínticas do metrô. A rede ferroviária do metrô de Budapeste se transforma em um fac-símile da comédia humana no filme “Kontroll” (2003), estreia do diretor Nimród Antal (“Temos Vagas”, 2007; “Predadores”, 2010) e sugerido pelo nosso leitor Joari Carvalho. Antal retoma o arquétipo platônico da caverna, representado no cinema por metrôs, porões, subsolos, estacionamentos subterrâneos, becos etc., para descrevê-lo como um microcosmo onde o protagonista é prisioneiro e uma enigmática jovem tenta resgatá-lo. A integração de drama, suspense, comédia e sátira resulta numa experiência visual única e alternativa.

Antes de dirigir típicos filmes com todas as convenções de gênero hollywoodianas como “Temos Vagas”(Vacancy, 2007) e “Predadores” (Predators, 2010), Nimród Antal (filhos de pais húngaros, nascido em Los Angeles e que iniciou sua carreira cinematográfica na Hungria), dirigiu e escreveu uma pequena pérola cinematográfica: “Kontroll” (o primeiro filme húngaro em vinte anos a ser exibido e premiado em Cannes – Prêmio da Juventude em 2004), um estranho e fascinante conto que mistura a crítica social ambientada nos túneis do segundo mais antigo metrô do mundo (Budapeste) e um mundo subterrâneo repleto de analogias místicas e gnósticas.

A estreia de Antal como diretor não poderia ser mais promissora: o filme está repleto de referências de outros diretores como Andrey Tarkovsky (longas sequências com misteriosos cenários em ruínas e desolação lembrando o filme “Stalker”), Stanley Kubrick (cenas elegantemente iluminadas com ângulos agudos, simetrias e pontos de fugas e gangues urbanas que lembram os “Drugs” de “Laranja Mecânica”), e o humor negro de Terry Gilliam.

quarta-feira, julho 17, 2013

Sincromisticismo, parapolítica e matrix na série "Nosso Lar"


Clássico da literatura espírita, a série “Nosso Lar”, psicografada por Chico Xavier, é tradicionalmente interpretada pelo viés moral e religioso da “reforma íntima” do protagonista. Mas olhando detidamente em seu conjunto, a série oferece muito mais: a possibilidade da existência de um campo unificado entre ciências “materialistas” como a Política e Comunicação e o místico e o oculto. As descrições das influências do pensamento dos encarnados no Umbral e como “exércitos sombrios” espirituais próximos da Terra visam o domínio de corações e mentes do planeta para roubar “energia anímica” da humanidade (o que lembra o filme “Matrix”) forneceriam subsídios para duas abordagens heterodoxas: o Sincromisticismo e a Parapolítica.

Desde que li a primeira vez a série “Nosso Lar”, psicografada pelo médium Chico Xavier e atribuída ao espírito de André Luiz, impressionou-me a descrição da dinâmica dos mundos espirituais repleta de conceitos teosóficos como “formas-pensamento”, pluralidade de mundos que se interpenetram, as inter-relações entre os centros corporais de energia (chakras) e as energias presentes no “plano astral”, projeções astrais realizadas pelo espírito no sono etc.

Surpreendeu-me porque até então a abordagem que tinha sobre o conjunto dessa obra era concentrada na necessidade do que os espíritas chamam de “reforma íntima” (a necessidade da mudança interior moral, espiritual e ética no sentido evolutivo) concentrada no exemplo da trajetória espiritual do médico André Luiz. Palestras, preleções, e lições baseadas principalmente nos princípios do Evangelho cristão e a compreensão da Lei da Ação e Reação à qual todos os espíritos estariam submetidos.

segunda-feira, julho 15, 2013

Encerrada a elaboração da lista do "Cinegnose" dos melhores filmes gnósticos



Está encerrado o prazo do envio das sugestões de filmes para a lista do "Cinegnose" sobre os melhores Filmes Gnósticos da História do Cinema.

Em breve divulgaremos a lista e as três melhores indicações e justificativas dos leitores que ganharão um exemplar do livro "Cinegnose - a recorrência de elementos gnósticos na recente produção cinematográfica norte-americana" da editora Livrus.

domingo, julho 14, 2013

A bomba semiótica da Polícia Federal


Novamente a Semiótica é convocada para desmontar outra “bomba semiótica” que detonou na mídia nesses últimos dias. E dessa vez uma bomba plantada pela própria Polícia Federal: investigações do órgão concluíram que o boato que levou ao pânico beneficiários do “Bolsa Família” em 12 estados foi “espontâneo”, não havendo, portanto, causa intencional. Conclusão tão irracional, retoricamente saturada e cientificamente sem sentido que entra na categoria das “bombas semióticas”: artifícios letais camuflados de informação, mas que escondem construções de sentido arbitrárias e, nesse caso, com uma novidade: se o fenômeno aconteceu porque aconteceu, então os fenômenos da comunicação entram no terreno da tautologia e da magia.

A Polícia Federal deu uma histórica contribuição científica que será o divisor de águas dos estudos no campo da Comunicação. O relatório final das investigações sobre o boato que provocou grandes filas e tumultos em agências da Caixa Econômica Federal e casas lotéricas em 12 estados em um final de semana de maio encerrou o caso da seguinte maneira: “foi espontâneo, não havendo como afirmar que apenas uma pessoa ou grupo tenha causado. Conclui-se, assim, pela inexistência de elementos que possam configurar crime ou contravenção penal”.

Essa conclusão de “investigação de campo” é “revolucionária” por que: (a) insere na Comunicação um elemento tautológico (o boato aconteceu porque aconteceu!). Em outras palavras, a Polícia Federal insere um elemento animista e mágico nos fenômenos de comunicação: o mundo é animado por forças que estabelecem bizarras contiguidades entre fatos aparentemente aleatórios; (b) rompe com um princípio básico da ontologia da Comunicação: a intencionalidade. O que define o fenômeno comunicacional é a intencionalidade do emissor (por que ele comunica? Qual sua intenção ou finalidade?) e a decisão do receptor - aceitar ou não o “jogo” proposto pelo emissor.

sexta-feira, julho 12, 2013

Os mortos são a comunidade que nos espera no filme "Les Revenants"


Décadas de corpos de decompondo, sustos e canibalismo no gênero cinematográfico dos mortos-vivos ajudaram a nos fazer esquecer do verdadeiro centro crítico do personagem do zumbi: a crítica social e metafísica por meio do arquétipo contemporâneo do personagem do “Estrangeiro”. O filme francês “Les Revenants” (2004) renova o gênero ao apresentar esse tenebroso personagem na própria acepção da palavra “zumbi”: “espectro”, “fantasma”. Mortos retornam inexplicavelmente do além-túmulo em uma pequena cidade. Eles não querem comer cérebros e nem matar. Voltam calados, como memórias vivas e indesejáveis, mas escondem um propósito.

quinta-feira, julho 11, 2013

Opinião: "Os cátaros, Paulo Coelho e o turismo esotérico" e "Drogas, discoteca e 3D"


Dentro da nossa sessão “Opinião” uma contribuição do nosso leitor “Anônimo” à postagem crítica sobre um texto de Paulo Coelho sobre os Cátaros: a história de Jules Doinel, arquivista francês e criador da primeira igreja gnóstica neocátara dos tempos modernos, a partir de uma carta encontrada de um chanceler epicospial chamado Etienne, que fora queimado por heresia em 1022. Essa carta mudou a vida de Doinel. E também um comentário sobre a conexão entre drogas lisérgicase a experiência mística da vivência da “teologia negativa”.  

terça-feira, julho 09, 2013

O documentário "Pax Americana" e o caso Edward Snowden


Nesse momento em que vemos em pleno horário nobre das emissoras o vazamento de documentos da NSA (Agência de Segurança nacional dos EUA) por Edward Snowden dando conta de que a privacidade das comunicações de indivíduos e nações pode ser a qualquer momento devassada por dispositivos eletrônicos, é oportuno assistir ao documentário “Pax Americana e a Militarização do Espaço” (2009) do francês Denis Delestrac. Principalmente porque a descrição que o documentário faz do modus operandi  da inteligência militar norte-americana e a noção de “espaço” pensada por ela é bem diferente da tradicional noção orwelliana de “espaço” que os analistas vem pensando o caso Snowden. Se os conteúdos revelados pelos documentos há décadas são conhecidos e divulgados por estudiosos de comunicação e teóricos da conspiração, por que só agora foram “vazados” de forma generalizada por todas as mídias?

Em 12 de junho de 1982 houve uma grande manifestação em Nova York. Quase um milhão protestaram contra as armas nucleares e a corrida armamentista. Era então o auge da Guerra Fria. Na TV falava o tenente-general Daniel Graham que era o chefe da Defesa Estratégica de Ronald Reagan. Perguntaram-lhe se estava preocupado com uma manifestação de um milhão de pessoas nas ruas protestando contra armas nucleares. Disse: “Parece-me fantástico! Estão protestando contra mísseis balísticos intercontinentais, enquanto nós vamos para o espaço. Eles não fazem ideia do que fazemos. Então, que continuem assim”.

Esse episódio descrito por “Pax Americana e a Militarização do Espaço” talvez seja o mais perturbador neste documentário dirigido pelo francês Denis Delestrac. Sugere que todo movimento de protestos, críticas ou denúncias estaria sempre aquém dos poderes que pretendem desmascarar. Como um jogo de “resta um”, parece que sempre falta o conhecimento de uma outra cena, de um outro passo que estaria sempre à frente do alvo das manifestações.

segunda-feira, julho 08, 2013

Em Observação: Sob Você, A Cidade (2010)


Dando continuidade ao Ciclo de Filmes Alemães no Clube Transatlântico em São Paulo, nesta quarta-feira (10/07) às 20h será exibido “Sob Você, A Cidade” (Unter Dir Die Stadt, 2010). Um filme oportuno em um momento de crise financeira internacional cujo epicentro está na Zona do Euro. O diretor Christoph Hochhäuser promete fazer um mergulho no vortex do capitalismo financeiro onde poder e dinheiro se confunde com jogos de sedução na vida afetiva e amorosa: jogos de aquisição e fusão de capitais na vida pública poderiam se confundir com os jogos de sedução na vida privada?

domingo, julho 07, 2013

A semiótica das fotografias de casamento


Cresce o número de divórcios no País, mas o mercado de casamentos é promissor com uma expectativa de movimentar 16 bilhões de reais em 2013. Como explicar o paradoxo de uma instituição que simbolicamente se esvazia diante de formas alternativas de relacionamentos afetivos, mas que economicamente cresce como mercado de consumo de bens e serviços? Talvez encontremos uma pista nas fotografias de casamento. Com a ajuda da Semiótica, podemos descobrir no sistema de significados dessas fotografias estratégias irônicas e de autodistanciamento que explicariam como noivos e familiares perpetuam uma instituição cada vez mais psiquicamente colocada em xeque.

Acompanhamos um curioso fenômeno próprio de uma sociedade midiatizada como a que vivemos: a sobrevida de instituições sociais tradicionais por meio de uma espécie de “autoconsciência irônica”. Instituições que foram esvaziadas simbolicamente em sua autoridade, legitimidade e significado (seja social, econômico, religioso, metafísico etc.) pelas transformações sócio-históricas, mas que permanecem como “instituições zumbis” que ganham uma sobrevida ao serem mercantilizadas e transformadas em células de consumo dentro do sistema econômico.

A família seria uma dessas instituições, como já vimos em postagens anteriores (veja links abaixo): a perda da autoridade paterna tem uma relação direta com a idealização da família perfeita presente nos comerciais de produtos matinais e de sabão em pó. Ao mesmo tempo, acompanhamos o cultivo de um autodistanciamento irônico através da crítica corrosiva em animações como “Os Simpsons” ou “The Family Guy” onde pais e filhos riem de si mesmos.

sexta-feira, julho 05, 2013

Um espiritualismo eletromagnético no filme "Accumulator 1"


A engraçada ficção científica checa “Accumulator 1” (1994) se associa a uma longa tradição cinematográfica de representações da TV e do controle remoto como veículos de disseminação do Mal, portais multidimensionais ou como meio de conexão com mundos espirituais e virtuais que podemos ver em filmes como “Poltergeist”, “Videodrome” ou “Click”. Por trás desse imaginário estaria o fascínio pelos fenômenos eletromagnéticos que, desde a sua descoberta, sempre estiveram associados ao oculto e ao espiritualismo. Em “Accumulator 1”, por exemplo, a TV é um dispositivo que drena energias vitais dos espectadores que vão animar um universo alternativo espelhado.

quarta-feira, julho 03, 2013

Opinião: "Filme El Método e gameficação da realidade" e "Físicos afimam que Universo é simulação computacional finita"


Dando continuidade à nossa sessão “Opinião”, vamos postar aqui os melhores comentários do artigo sobre o filme espanhol “El Método” (no Brasil, “O Que Você Faria?”, 2005) e de outro artigo sobre a notícia de que físicos norte-americanos especulam seriamente sobre a possibilidade de o Universo ser uma simulação computacional finita.

segunda-feira, julho 01, 2013

Em Observação: "Under the Dome" (2013)


Sugerido pelo nosso leitor !3runo, a série "Under The Dome" estreiou dia 24 de junho da TV CBS nos EUA. Baseado no livro homônimo do escritor Stephen King, o episódio piloto nos mostra o estranho incidente que faz uma pequena cidade ficar isolada do resto do mundo: inexplicavelmente uma redoma gigantesca e transparente cai do céu, mantendo os habitantes de Chester's Mill prisioneiros. A série tem grande potencial em desenvolver temas caros aos filmes gnósticos: personagens prisioneiros em um microcosmo, atmosfera de conspirações governamentais ou alienígenas e clima de paranoia generalizada entre os habitantes da cidade: todos parecem esconder algum estranho segredo.

sábado, junho 29, 2013

Bombas semióticas explodem na mídia


Paralela à escalada de manifestações no País, nesse momento em cada redação de um veículo de comunicação e em cada cobertura jornalística nas ruas, está sendo travada uma verdadeira guerrilha semiótica: um enorme aparato de recursos bélicos retóricos, linguísticos e semiológicos está sendo mobilizado para saturar fotografias e vídeos com significações que apontam para uma estratégia discursiva bem evidente: a imagens devem ser testemunhas da instabilidade, caos e baderna que dominaria a Nação. Encontramos duas “bombas semióticas” (uma no Portal Terra e outra na autodenominada “edição histórica” da revista Veja) e tentamos desmontá-las em um exercício de engenharia reversa. Bombas camufladas em informação, mas que explodem para criar ondas de choque de um tipo de propaganda baseada no esvaziamento de dois símbolos: a da “bandeira nacional” e o do “manifestante”.

Junto com as manifestações nas ruas de várias cidades no País, está ocorrendo uma guerrilha de um tipo muita especial: uma guerrilha semiótica nas mídias. Depois da primeira semana em que se viram perplexos diante das manifestações que saíram do script do jogo político-institucional e reponderam de uma forma reflexa (taxando os manifestantes de “criminosos” e “politicamente burros”) os meios de comunicação monopolistas encontraram uma narrativa em que podiam ser encaixados os acontecimentos: o roteiro da escalada da instabilidade, descontrole e baderna que estaria minando o governo federal.

Para tanto, nesse momento está sendo mobilizando um impressionante aparato retórico, linguístico e semiótico em fotografias e vídeos. Uma mobilização talvez somente comparável às estratégias discursivas de períodos de guerra como a propaganda política norte-americana e nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

quarta-feira, junho 26, 2013

Lâmpadas e conspirações no curta argentino "Luminaris"


O mais premiado curta de animação argentino e que chegou a ficar entre os dez finalistas para concorrer ao Oscar da categoria, “Luminaris” (2011) de Juan Pablo Zaramella apresenta em seus seis minutos uma grande riqueza simbólica a partir da colagem de estilos que vai da arte Deco e Surrealismo ao Filme Noir e Neorrealismo. O que representaria a alegoria de um universo alternativo governado por uma estranha força magnética do Sol que arrasta todos para os seus trabalhos? Apesar de Zaramella desconversar sobre o simbolismo do seu curta, podemos fazer um pequeno exercício de leitura do conteúdo da narrativa a partir de três pontos de vista: o marxista, o conspiratório e o gnóstico.

O mais premiado curta argentino, “Luminaris” em 2012 foi pré-selecionado entre os dez finalistas para concorrer ao Oscar dentro de sua categoria. Feito com uma técnica de stop-motion denominada pixilation onde atores reais interagem com objetos inanimados - veja o curta abaixo.

Dirigido por Juan Pablo Zaramella, a narrativa de seis minutos é ambientada em uma Buenos Aires que parece o resultado do cruzamento entre filme noir, realismo fantástico, neorrealismo e surrealismo. O curta conta a história de um homem (Gustavo Cornillón) que vive em um universo alternativo onde o tempo, o trabalho e o cotidiano são controlados pela luz do sol que age como espécie de força magnética, despertando a todos para depois arrastá-los ao trabalho e trazê-los ao final do expediente de volta para casa. O protagonista tem um trabalho rotineiro e repetitivo na linha de montagem em uma fábrica de lâmpadas onde são produzidas de uma forma, digamos, não muito ortodoxa...

segunda-feira, junho 24, 2013

O tempo conspira contra os algoritmos no filme "Cosmópolis"


Baseado em livro homônimo de 2003, o filme “Cosmópolis” (2012) do diretor David Cronenberg ganha atualidade com os movimentos antiglobalização como Occupy Wall Street e o colapso do Euro: a bordo de uma limusine, que na verdade é uma alegoria do ciberespaço, um jovem multimilionário do mercado financeiro cruza uma Nova York caótica enquanto acompanha através das telas de computadores a falência dos seus algoritmos que não conseguem prever a sua derrocada financeira. Mais do que uma alegoria sobre uma geração que construiu uma arquitetura da informação abstrata e desconectada da humanidade, Cronenberg discute a morte dos novos deuses criados pelas tecnologias baseados na fé de que a matemática estaria por trás tanto de espirais galácticas quanto das operações financeiras. Deuses que esqueceram a principal falha cósmica: o tempo.

Eric Parker (Robert Pattinson), um multibilionário príncipe do mundo financeiro com seus vinte e poucos anos, atrás de seus óculos escuros, um rosto blasé e a bordo de uma limusine high tech, decide cruzar a cidade de Nova York para cortar o cabelo em uma antiga barbearia que remonta a sua infância.

Porém, a cidade vive o caos com a visita do presidente dos EUA. Um grupo de seguranças ao redor de Parker o alerta do perigo eminente de sofrer um atentado. Na verdade, ele e o presidente dos EUA parecem ser os alvos preferenciais em meio às ruas tomadas por protestos antiglobalização.

Todas as suas operações financeiras são monitoradas a partir da limusine através de diversas telas. Parker acompanha com ansiedade uma arriscada operação, uma aposta na queda da moeda chinesa, o Yuan. Ao longo do difícil e congestionado trajeto até o barbeiro, Parker acompanhará a valorização da moeda daquele país e a sua derrocada financeira pessoal até a falência.

quarta-feira, junho 19, 2013

Apertem os cintos... a Esquerda sumiu


A escalada de manifestações nas ruas em todo o país parece expressar um profundo mal estar dos jovens em relação não apenas à política (o jogo partidário), mas principalmente à instituição da Política como representação de qualquer demanda social. Desconfiam que por trás da Política ou do Poder não existe nada mais do que ardil, simulação, blefe. Mas a mídia tem horror ao vácuo: para manter o ardil da simulação os meios de comunicação precisam encaixar as manifestações em um script, assim como um novo roteiro de um filme publicitário que oferece mais do mesmo para o mercado.

As interpretações dos cientistas e comentaristas políticos crescem na mesma proporção que os protestos nas ruas. Em toda essa espiral interpretativa há um ponto que todos parecem concordar: a incrível flexibilidade e rapidez da logística das mobilizações nas ruas através das redes sociais contrasta com os lentos canais de comunicação representativos de partidos políticos, Executivo e organizações classistas. A UNE, por exemplo, desapareceu. Qualquer identificação partidária no meio das passeatas é vista com maus olhos e rejeitada pelos manifestantes.

Mas essa questão logística de comunicação é apenas o sintoma: os jovens na rua estão expressando um profundo mal estar em relação não apenas à política (o jogo partidário), mas principalmente à Política – o questionamento da própria ideologia política como representação de qualquer demanda social. Em outras palavras, os jovens desconfiam que por trás da Política ou da ideologia não existe nada e que tudo é um ardil, uma simulação, um blefe.

terça-feira, junho 18, 2013

OVNIs e parapolítica no filme "Wavelength"


Um prato cheio de mistérios, OVNIs, coincidências e conspirações. “Wavelength” (1983) de Mike Gray (documentarista e ativista político) e produzido por um advogado não menos ativista é um daqueles filmes estranhamente esquecidos por críticos e cinéfilos. No momento atual em que autoridades vêm a público cobrar dos governos que o fenômeno OVNI seja assumido oficialmente, “Wavelength” é relembrado como um filme supostamente baseado em um caso real ocorrido em Hunter Liggett, sul da Califórnia. Principalmente após declaração de um físico que trabalhava em laboratório de pesquisas do governo dos EUA e uma testemunha do incidente que se diz surpreendido com a precisão da narrativa do filme: “Quem fez esse filme estava lá ou conheceu alguém que esteve lá”.

O filme “Wavelength” é um prato cheio para os teóricos da conspiração especializados nas conexões entre OVNIs e governos, a chamada “parapolítica”. Tanto pelo conteúdo da narrativa do filme e, principalmente, pelos eventos e coincidências que cercaram a sua produção que pesquisadores como Christopher Knowles qualificam como “sincromísticos”.

Esse sci-fi independente e de baixo orçamento foi esquecido pelo público e até mesmo pelos cinéfilos ao longo dos anos. Relembrar desse obscuro filme e dos eventos em torno dele é oportuno, principalmente depois que duas autoridades que ocuparam posições-chave em governos manifestaram a necessidade de ser assumido oficialmente a existência dos OVNIs: o ex-ministro de defesa do Canadá, Paul Heyller (acusou os EUA de “acobertamento”), e o ex-presidente russo Dmitry Medvedev que falou sobre “arquivos secretos oficiais sobre o assunto” em um rede de TV daquele país.

sábado, junho 15, 2013

O oportuno "Moonrise Kingdom" em tempos de jovens protestando nas ruas


Partindo do princípio de que o mix emocional de exaltação e melancolia da adolescência representa o último grito de um espírito que nega a adaptação ao futuro, “Moonrise Kingdom” (2012) constrói uma elaborada fábula sobre a inadaptabilidade do jovem a um mundo onde os adultos dizem “somos tudo o que vocês têm”. Enquanto filmes como a da franquia “Crepúsculo” ou “Harry Potter” representam esses aspectos depressivos da adolescência de forma solipsista e platônica (a felicidade só poderia ser alcançada nos sonhos ou em mundos mágicos e sobrenaturais), “Moonrise Kingdom” constrói um elaborado simbolismo permeado de misticismo e gnosticismo que não só desconstrói as formas de “cura” da revolta adolescente como aponta para a felicidade como uma chama interior que deve ser mantida acesa no mundo adulto que o aguarda. Um filme oportuno em tempos em que jovens estão tomando as ruas em protestos.

O diretor Wes Anderson é conhecido por criar um universo bem particular: em todos os seus filmes anteriores como “Os Excêntricos Tenembauns” (2001) ou “O Fantástico Sr. Raposo (2009) ele é capaz de criar um microcosmo onde os eventos e ações começam a ocorrer dentro de suas própria regras e tudo começa a ser impulsionado por emoções e desejos tão convincentes que se tornam mágicos.

Dessa vez o novo mundo criado por Anderson é uma ilha em algum lugar na costa da Nova Inglaterra nos EUA, onde as casas, fazendas, faróis, barcos parecem ser reproduções ampliadas de pequenos modelos ou miniaturas. A composição dos enquandramentos é cheia de simetrias, o movimento da câmera calculadíssimo e os personagens propositalmente estereotipados e contidos. Por isso, Anderson é muito criticado pelo estilo dito “maneirista”. Aqui, pelo menos, esse estilo passa a ter todo sentido: em uma ilha cujo artificialismo dos personagens, paisagens urbanas e naturais lembram muito a ilha de Seahaven do filme “Show de Truman” (The Truman Show, 1998) criam uma sufocante atmosfera de ordem, disciplina e hierarquia, um casal de adolescentes se rebela e planeja cuidadosamente e executa uma fuga: ela para fugir da crise conjugal dos seus pais e ele da disciplina e mediocridade de um campo de escotismo.

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