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sábado, fevereiro 28, 2015

Morsas e ostras mataram John Lennon?

A música mais enigmática dos Beatles aparece no maior fracasso comercial do grupo, o filme “Magical Mystery Tour” de 1967, hoje reavaliado como obra de arte ao nível do humor do grupo Monty Python ou do surrealismo de Buñuel. Inspirado no poema “A Morsa e o Carpinteiro” de Lewis Carroll, a música “I’m The Walrus” composta por John Lennon apresenta uma letra sombria, obscura e misteriosa com referências a genocídios, drogas e jovens que seriam seduzidos por uma “Morsa” que estaria levando-os para a destruição – no poema de Carroll aparecem “jovens ostras” . Será que a música foi alguma espécie de acerto de contas de Lennon com a culpa e o remorso de saber ter feito parte de uma gigantesca estratégia de engenharia social por trás da cultura pop? Em declarações dadas em uma entrevista em 1980, ele indica evidências, falando de “artesãos” que estiveram por trás dos Beatles e a ligação entre CIA e a droga LSD. Alguns meses depois, Lennon seria assassinado.

O grande e misterioso fracasso dos Beatles: o filme Magical Mystery Tour de 1967. “Beatles Mystery Tour desconcerta os espectadores”, estampava em uma manchete na primeira página do jornal Mirror da Inglaterra, dizendo que milhares de espectadores protestaram quando foi exibido na TV pela BBC.

“Bobagem sem sentido”, “lixo flagrante” e “ultrajante” foram as críticas mais leves sobre um filme que não se importava com qualquer sentido narrativo: mostrava um grupo de turistas em um ônibus que iniciava um “misterioso tour” pela Inglaterra em um ônibus panorâmico, onde “coisas estranhas começam a acontecer”, ao capricho de quatro magos performados pelos próprios Beatles que tudo observam, manipulando os acontecimentos.

segunda-feira, dezembro 29, 2014

Blog censurado pelo delírio digital do Google AdSense

Para minha surpresa, o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” foi acusado, julgado e executado às vésperas do Natal. Acusação: disseminação de conteúdos “chocantes” de “violência”, “pornografia”, “sangue” e “atitudes repulsivas”. Pelo menos é o que disseram os robôs e scripts do Google AdSense, lembrando a elite de juízes de rua do filme “Judge Dredd” que julgava e executava instantaneamente os violadores – “veiculação de anúncio do Google AdSense foi desativada no seu site por violação do regulamento do programa”, informava o e-mail executor!. Esse será o admirável mundo novo do Google: o delírio digital dos códigos binários que, sem compreender contextos, reduzirá a realidade ao denominador comum do 0/1. Como um blog que analisa filmes e a mídia como sintomas do imaginário social de uma determinada época, poderá tratar dessa temática sem cair na “malha fina” dos onipresentes e oniscientes robôs digitais? Bem vindo à futura blogosfera “disneyficada” e pacificada em tons pastéis semelhantes à cidade cenográfica de Seaheaven do filme “Show de Truman”.

Entre um e-mail e outro na caixa de entrada na véspera de Natal, com os tradicionais desejos de boas festas, surge um com título ameaçador: “A veiculação do anúncio do Google Adsense foi desativada para o seu site”. Um estranho e-mail cujo conteúdo narra algum tipo de julgamento feita à minha revelia no qual fui acusado, condenado e executado! Isso depois de seis meses de anúncios adsense no blog.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Série "Além da Imaginação" e a sensibilidade gnóstica atual

A comparação do episódio “Special Service” da terceira temporada da série de TV “Além da Imaginação” (1988-89) com o filme “Show de Truman” (1998) revela didaticamente com a sensibilidade gnóstica atual está por trás de adaptações dos clássicos da TV e do cinema. O episódio de 1988 inspirou  Andrew Niccol a escrever o roteiro de “Show de Truman”: enquanto no episódio original vemos uma típica ficção científica orwelliana onde a paranoia e conspirações dominam o protagonista, na adaptação de Niccol vemos esses mesmos elementos transmutados em drama e sátira social. Mas Niccol colocou algo mais: a suspeita de que o reality show não seja apenas televisivo, mas cósmico.

A postagem anterior sobre o filme brasileiro O Efeito Ilha (1994) e a possibilidade sugerida pelo diretor Luís Alberto Pereira de que Peter Weir teria “chupado” a ideia do filme para construir o roteiro de Show de Truman (Truman Show, 1998), provocou polêmica aqui no blog – clique aqui.

Como vimos, essa suspeita não procede, já que o tema do controle da privacidade que é transformado em show pela mídia são tratados de forma invertida: em O Efeito Ilha, a transmissão televisiva involuntária da vida do protagonista é tratada como “dissonância cognitiva, isto é, elemento dissonante que faz os espectadores tomarem consciência da TV como instrumento de alienação; enquanto em Show de Truman, a vida do protagonista é transformada em um autêntico reality show, como instrumento de alienação para as massas.

terça-feira, outubro 28, 2014

O humano, demasiado humano no filme "Relatos Selvagens"



O homem atual seria um Sísifo moderno? Assim como o personagem da mitologia grega, condenado a carregar eternamente uma enorme pedra ao topo da montanha, o homem estaria condenado a não encontrar Deus, sentido ou propósito na existência, a não ser encontrar a si próprio – o humano, demasiado humano. Esse é a desconcertante co-produção Argentina/Espanha “Relatos Selvagens”, seis curtos relatos de pessoas comuns diante de circunstância incomuns: situações extremas com muito humor negro (e bota negro nisso) onde acabam sendo despertados em cada um os instintos mais básicos de vingança e violência. Em falso tom de comédia, o diretor Damián Szifrón parece querer brincar com o espectador: afinal, estamos rindo do quê?

sexta-feira, junho 20, 2014

Por que Nova York precisa ser destruída?

Quantas vezes Nova York já foi destruída no cinema, literatura, rádio e TV? Monstros, alienígenas, catástrofes geológicas, climáticas, destruições provocadas por lutas de super-heróis com vilões.  Por que essa insistência das imagens de destruição da “Big Apple” na cultura norte-americana? Pode parecer uma questão supérflua de um cinéfilo diletante, mas se considerarmos que essas imagens são irradiadas para todo o planeta pela indústria do entretenimento norte-americana, passa a ser uma questão ideológica: o que na verdade Hollywood exporta para o mundo: paranoia? Motivação subliminar para a obsolescência de produtos? Ou a elaboração de um neoapocalipse necessário para a criação de uma nova religião global? Vamos explorar algumas hipóteses sobre os porquês dessa obsessão norte-americana.  

Meridth Blake, 28, vive no Brooklyn, Nova York. Ele relata uma insólita cena quando estava em uma estação do metrô: “Saí do trem e dei de cara com um pôster do filme Cloverfield com a Estátua da Liberdade decepada. Subi as escadas para, em seguida, ver o pôster do filme Eu Sou a Lenda com a ponte do Brooklin em ruínas. Pensei, ora! Outro filme que destrói Nova York!”.

Com uma diferença de um mês de lançamentos, ambos os filmes contavam as desventuras de protagonistas em uma Nova York destruída por monstros ou por epidemias. Isso foi em 2008, quando os nova-iorquinos ainda sentiam os ecos da queda das torres do WTC em 2001: “lembro-me da cena do filme Cloverfield com pessoas correndo para se esconder em uma delicatessen com poeira e escombros por toda parte. É tão obviamente uma alusão ao 11/09...”, destacou Blake - leia "Filmakers View New York as a Disaster Waiting to Happen".

sábado, abril 19, 2014

A televisão excremental no filme "Edtv"

Ao lado de “Show de Truman”, o filme “Edtv” (1999) de Ron Howard, mais do que antecipar uma TV atual onde o conceito de reality show contamina de reportagens a programas de gastronomia e decoração, anteviu uma nova função social - a “TV excremental”. Uma televisão que há muito abandonou a pretensão de ser uma “janela aberta para o mundo” para assumir um papel fisio-psicológico: processar os excrementos psíquicos. Assim como o corpo que depois de ingerir, acumular, metabolizar e produzir tem que no final excretar para manter o ciclo vital, da mesma forma milhões de telespectadores necessitam excretar fluxos psíquicos (sacrifício, disciplina, vigilância e violência) para que o ciclo se renove no dia seguinte após um dia inteiro de alimentação e trabalho para acumulação de méritos e riqueza alheia.

Desprezado pela crítica e pelo público. Esse foi o destino do filme Edtv (1999) do premiado diretor Ron Howard (Oscar de melhor diretor em Uma Mente Brilhante, 2001) que se quer chegou a ser exibidos nos cinemas brasileiros. Muitos creditaram o fato desse filme ter caído no esquecimento à coincidência de ter sido lançado no mesmo ano de Show de Truman de Peter Weir: assim como em Edtv, também antecipava a questão dos reality show que, mais tarde, se tornaria um gênero televisivo mundial.

O sucesso de Show de Truman eclipsou Edtv, mas olhando hoje percebemos que embora tratem do mesmo objeto, a proposta de discussão é bem diferente: enquanto Weir contava a história de um protagonista cuja vida foi fabricada para ser entretenimento de milhões sem ele saber, Howard quer discutir não só a questão das celebridades instantâneas produzidas pelos reality show como também os destinos da TV em um novo milênio dominado pela cultura digital em tempo real.

sábado, fevereiro 22, 2014

A miséria da estética e da linguagem do trabalhador precarizado

No passado era o proletariado, os explorados e os excluídos. Hoje temos os precarizados: trabalhadores terceirizados, estagiários, temporários e todo um conjunto de profissionais treinados espontaneamente para suas funções através da manipulação de ícones em telas de celulares e mensageiros instantâneos usados no dia-a-dia, desde o velho ICQ até o atual Skype. Participantes incautos de uma ordem que foi secretamente gestada no interior de gigantescos prédios espelhados, com o apoio de uma estética e linguagem igualmente precarizadas criadas por planilhas eletrônicas e elegantes gráficos e tabelas projetadas em reuniões onde orgulhosos gestores professam discursos que misturam efeitos de ciência, religião, misticismo e fenômenos da natureza.

“Aquele que é duro consigo mesmo também é com os demais” (Theodor Adorno)

No início foi o gerundismo dos telemarketings e SACs de empresas que invadiu a fala cotidiana. Ao mesmo tempo, imensos prédios corporativos em concreto e vidros espelhados tomavam a paisagem urbana como fossem bunkers isolados do contato com o mundo exterior por meio de seguranças privados e sistemas centrais de climatização.

E no interior desses prédios foi secretamente gestada uma nova ordem estética e linguística para dar sentido imaginário a um novo tipo de organização de trabalho: a precarização – trabalhadores terceirizados, temporários, por tempo parcial, estagiários, trabalhadores da “economia subterrânea” etc.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

Filme "Resolution" faz jogo mental com o espectador

O filme Resolution (2012) é um desafio conceitual ao espectador. Em uma estimulante combinação de desconstrução metalinguística e misticismo gnóstico o filme é um verdadeiro sopro de renovação no subgênero “horror-em-cabanas-remotas” de filmes como “A Morte do Demônio”, “A Cabana do Inferno” ou “A Bruxa de Blair”. Não espere festas com jovens bebendo e fazendo sexo enquanto demônios estão à espreita para matar. Ao contrário, o filme oferece um enigmático jogo mental onde, enquanto o protagonista tenta desintoxicar um amigo viciado em crack, cresce o mistério entorno daquela cabana onde estão: será que os estranhos acontecimentos fazem parte de alguma conspiração de seitas ocultistas, de alienígenas ou apenas de traficantes? Ou a realidade é tão ilusória quanto uma película cinematográfica. A resposta pode ser mais radical do que filmes como "Matrix" e "A Origem".

Dentro da história da linguagem cinematográfica vivemos uma momento cada vez mais auto-referencial e metalinguístico. E não estamos falando de filmes de arte ou de vanguarda, mas de filmes que integram circuitos comerciais de distribuição, filmes que parecem querer desconstruir o gênero, a cultura pop e a própria linguagem cinematográfica.
Após o gnosticismo pop de filmes como Show de Truman, Matrix e A Origem onde a realidade é desconstruída a tal ponto que o protagonista não consegue mais distinguir o que é simulação e realidade, acompanhamos nesse início de século uma nova tendência de desconstrução, dessa vez do próprio cinema, onde o roteiro, produção, linguagem etc. acabam se tornando o próprio tema dos filmes.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Você sabe que é gnóstico quando...


Você pode ser gnóstico e não sabe! Em dezembro de 2011 publicamos uma pequena lista de doze atitudes que indicariam quando uma pessoa tem predisposição a ser gnóstica. A lista tinha sido elaborada pelo escritor norte-americano Miguel Conner, apresentador do programa radiofônico online Aeon Bytes Gnostic Radio e um pesquisador sobre as diversas escolas da filosofia gnóstica. Esse ano resolvemos elaborar a nossa própria lista: uma série também de doze itens onde são apresentadas atitudes, impressões, sentimentos ou insights que revelariam indícios de que uma pessoa teria uma certa predisposição ou atitude mental gnóstica.

Essa lista, ao mesmo tempo séria e irônica (esse mix intelectual faz parte da visão gnóstica) demonstraria o porquê da longevidade histórica do Gnosticismo e, ao mesmo tempo, porque despertou tanto ódio e perseguições das religiões institucionalizadas – e principalmente a Católica. Primeiro porque o Gnosticismo não é uma religião, doutrina ou filosofia plenamente sistematizada como bem definiu Stephen Holler: “uma certa atitude da mente, uma ambiência psicológica, um certo tipo de alma”. A atitude crítica, desconfiada que beira a paranoia e, algumas vezes, a insanidade, já torna alguém um “gnóstico”. Claro que não é uma consciência crítica comum, político-ideológica-partidária. É um ceticismo radical: por que a sociedade e a realidade são assim, quem as fez e com quais propósitos? E, a mais importante questão, o que o homem faz no meio de tudo isso?

Por isso atraiu o ódio das religiões e escolas filosóficas institucionalizadas: tal ceticismo não funciona muito bem com hierarquias e estruturas de poder, ainda mais aquelas cujos mandatários teriam sido nomeados pelo próprio Deus.

sábado, novembro 16, 2013

Revisitando a paranoia gnóstica do filme "O Segundo Rosto"


Terceiro filme da trilogia da paranoia do diretor John Frankenheimer, “O Segundo Rosto” (Seconds, 1966) é uma obra que merece ser revisitada com cuidado, 47 anos depois. Isso porque a sua estranha fotografia granulada em preto e branco com bizarros e claustrofóbicos planos de câmera acabaram criando um verdadeiro clássico da paranoia e da esquizofrenia. Marca de uma década que vivia o auge da Guerra Fria e um filme dotado de uma misteriosa sensibilidade gnóstica que, mais tarde, produções como “Show de Truman”, “Matrix” e “Cidade das Sombras” explorariam: uma sinistra “Companhia” promete fazer pessoas “renascerem” em novas identidades, sob uma suposta promessa de liberdade e autorrealização. Porém, o jogo é desigual e seus “clientes” descobrirão isso de uma terrível maneira.

Um filme para ser revisitado com todo cuidado. “O Segundo Rosto” (Seconds, 1966) de John Frankenheimer é o terceiro filme da sua trilogia da paranoia, depois de “O Candidato da Manchúria”, (The Manchurian Candidate, 1962) e “Sete Dias em Maio” (Seven Days in May, 1964). Sua estranha e fascinante fotografia em preto e branco granulada, os bizarros ângulos de câmera conseguidos através de lentes grande angular (“olho de peixe”) e a utilização de câmera manual dão um aspecto doentio e paranoico que muitos críticos chamaram de estilo sci fi noir. O visual é expressionista: é como se tivessem pego o quadro “O Grito” de Edward Munch e dado vida cinematograficamente.

                O filme deve ser revisitado com cuidado porque, voltando a assisti-lo 47 anos depois, percebemos que sua narrativa possui diversas camadas de interpretação. Se nos filmes anteriores da trilogia a paranoia era imediatamente política, aqui o diretor mergulha no psiquismo de um indivíduo com a suspeita de que o mundo ao redor pode ser falso e conspirador. Essa é a primeira camada narrativa de o “Segundo Rosto”, que faz lembrar a paranoia de personagens como os de Jim Carey em “Show de Truman” ou de Keanu Reeves em “Matrix”.

terça-feira, novembro 12, 2013

A semiótica do pensamento neoconservador


O episódio da ironia incompreendida do texto da coluna de Antonio Prata no jornal Folha de São Paulo que arrancou uma entusiasmada solidariedade de neoconservadores, revelou um mecanismo mais profundo no qual se baseia a eficiência da ferramenta da simulação como arma para combater bombas semióticas: tanto a pegadinha do falso estudante atrasado do Enem quanto a de Antonio Prata que simulou ter se convertido ao machismo, racismo e homofobia, têm como elemento comum aquilo que pesquisadores como Frederic Jameson apontam na cultura pós-moderna - a sensibilidade pastiche, paródia lacunar porque perdeu o senso de humor, demonstrado em situações como essas quando leitores e repórteres se reconhecem refletidos na sua própria caricatura.

Está comprovado. A estratégia da simulação é a principal ferramenta para desarmar e neutralizar (desmoralizar) as bombas semióticas que semanalmente estão explodindo no contínuo midiático nacional. Na semana retrasada acompanhamos a simulação do estudante atrasado do Enem que sem querer acabou desarmando e expondo à opinião pública o modus operandi de montagem das bombas semióticas (pautas pré-estabelecidas e “hipóteses” definidas à espera de fragmentos de eventos que se transformem em evidências por si mesmas).

Pois nessa última semana acompanhamos a “pegadinha” do colunista do jornal Folha de São Paulo Antonio Prata: simulando ter se convertido definitivamente aos argumentos neocons (abreviação de “neoconservador”), escreveu uma coluna raivosa intitulada “Guinada à Direita” onde denuncia uma suposta conspiração para “levar o País ao abismo”, perpetrada por “gays, negros, índios, vândalos, maconheiros, comunistas, aborteiros, feministas rançosas e velhos intelectuais da USP”. Prata fez um texto que é praticamente um inventário dos principais clichês direitistas e neocons, com o mesmo estilo grosseiro e raivoso.

sexta-feira, setembro 27, 2013

Hollywood produz mais filmes-catástrofe em épocas de crise global


Pesquisando o banco de dados das produções cinematográficas por gênero do IMDB (Internet Movie Data Base) descobrimos uma curiosa recorrência: os filmes-catástrofe, gênero fílmico surgido na década de 1970, encontra seu pico de produção a cada contexto de crises econômicas globais. Vivemos atualmente a terceira grande onda de filmes desse gênero que coincide com a crise da Zona do Euro. Será apenas coincidência? Historicamente Hollywood moldou o imaginário social por meio de uma tática de deslocamento: a transformação em “objeto fóbico” de tudo aquilo que nos causa medo e repulsa. Com os filmes-catástrofe temos a confirmação disso: a naturalização das crises por meio dos cataclismos geológicos ou cósmicos ficcionais e a criação de uma fobia ou medo coletivo por qualquer aspiração por mudança.

O cinema sempre teve uma íntima ligação com os momentos históricos de crise, sejam elas econômicas, políticas ou sociais. Podemos considerar o cinema um perfeito sismógrafo das tendências implícitas da sociedade que o produz, como solução imaginária de tensões sociais ou ainda como sintoma coletivo. A análise dos filmes, principalmente no que se refere à evolução dos seus gêneros (terror, sci-fi, drama etc.), são excepcionais por revelar verdadeiros sintomas sociais. Como veremos, é o caso do gênero disaster movies, ou “filmes-catástrofe”.

Desde o início, nos dois lados do oceano Atlântico, o cinema mostrava essa excepcional característica sismográfica. Filmes expressionistas alemães como “O Gabinete do Dr. Caligari” de Robert Wiener (1920), “Nosferatu” de F.W. Murnau (1922), “Dr. Mabuse, O Jogador” (1922),  “Metrópolis” (1926) e “O Vampiro de Dusseldorf” de Fritz Lang com suas atmosferas de pesadelo dominadas por linhas e planos tortuosos coincidiam com a turbulenta fase da República de Weimar na Alemanha e anunciavam a chegada iminente do nazismo.

domingo, setembro 22, 2013

Conheça as dez maiores conspirações no cinema


Estariam as estrelas de Hollywood sendo assassinadas em série por um sinistro grupo oculto? Alguns filmes foram de fato amaldiçoados por forças malignas de outro mundo? Ou trazem mensagens cifradas sobre comandos de controle da mente ou desafios diretos ao Illuminatis? Kubrick teria dirigido o filme “O Iluminado” para espalhar pistas sobre o falso pouso da Apolo 11 na Lua que ele próprio teria ajudado a produzir? Esse é o estranho mundo das mais bem elaboradas e paranoicas teorias da conspiração envolvendo o cinema. Para seus autores, ir ao cinema é uma perigosa aventura onde o espectador desatento poderá ser programado por mensagens ocultas. Por que tantas conspirações cinemáticas? Talvez porque um produto cultural que atinge tão diretamente nossos corações e mentes seja, afinal, produzido por uma indústria de entretenimento anônima e corporativa.

quarta-feira, junho 26, 2013

Lâmpadas e conspirações no curta argentino "Luminaris"


O mais premiado curta de animação argentino e que chegou a ficar entre os dez finalistas para concorrer ao Oscar da categoria, “Luminaris” (2011) de Juan Pablo Zaramella apresenta em seus seis minutos uma grande riqueza simbólica a partir da colagem de estilos que vai da arte Deco e Surrealismo ao Filme Noir e Neorrealismo. O que representaria a alegoria de um universo alternativo governado por uma estranha força magnética do Sol que arrasta todos para os seus trabalhos? Apesar de Zaramella desconversar sobre o simbolismo do seu curta, podemos fazer um pequeno exercício de leitura do conteúdo da narrativa a partir de três pontos de vista: o marxista, o conspiratório e o gnóstico.

O mais premiado curta argentino, “Luminaris” em 2012 foi pré-selecionado entre os dez finalistas para concorrer ao Oscar dentro de sua categoria. Feito com uma técnica de stop-motion denominada pixilation onde atores reais interagem com objetos inanimados - veja o curta abaixo.

Dirigido por Juan Pablo Zaramella, a narrativa de seis minutos é ambientada em uma Buenos Aires que parece o resultado do cruzamento entre filme noir, realismo fantástico, neorrealismo e surrealismo. O curta conta a história de um homem (Gustavo Cornillón) que vive em um universo alternativo onde o tempo, o trabalho e o cotidiano são controlados pela luz do sol que age como espécie de força magnética, despertando a todos para depois arrastá-los ao trabalho e trazê-los ao final do expediente de volta para casa. O protagonista tem um trabalho rotineiro e repetitivo na linha de montagem em uma fábrica de lâmpadas onde são produzidas de uma forma, digamos, não muito ortodoxa...

sexta-feira, maio 10, 2013

Hollywood e o fetiche das armas no filme "God Bless America"

"God Bless America" (2011) do diretor Bobcat Goldthwait parece ser um filme que segue a linha do chamado "cinema esquizo" com personagens paranoicos, psiquicamente instáveis e marcados pela revolta e cinismo contra uma sociedade racista, medíocre e xenófoba - a "América profunda". O filme faz um diagnóstico perfeito sobre uma cultura onde reality shows e programas como "American Superstars" são o objeto do desejo de milhões. Porém, Goldthwait parece cair vítima da fetichização das armas que Hollywood promove na atualidade: se o cigarro e as bebidas alcoólicas são extirpados da tela ou colocados somente nas mãos e bocas de vilões, com as armas é o contrário. Observamos uma fila interminável de armas lubrificadas, reluzentes, coldres e metralhadoras empunhadas ao nível da virilha prontas para entrar em ação com muito sex appeal. 
Compare dois filmes clássicos com Vincent Price (O Abominável Dr. Phibes de 1971 e As Sete Máscaras da Morte – Theater of Blood, 1973) com o “God Bless America”. Nesses filmes com Vincent Price o protagonista vinga-se de pessoas medíocres, indiferentes, arrogantes com requintes cruéis, sádicos e com muito humor negro: vinga-se dos médicos que mataram sua esposa por um erro na mesa de cirurgia e um ator shakespeariano que despeja sua fúria em cima dos críticos de teatro que o atormentam.
Em “God Bless America” vemos também protagonistas que querem vingar-se de uma classe média americana racista, sexista, xenófoba e alheia a valores culturais. As situações de humor negro e as mortes com requintes cruéis são parecidas. Porém, com uma diferença fundamental: Vincente Price não usa arma de fogo uma única vez, preferindo armadilhas e ardis perversamente elaborados; enquanto em “God Bless America” as armas são a grande estrela do extermínio. Mais do que isso: no filme a arma se reveste de um valor fetichista como instrumento de justiça, ordem e sex appeal.

domingo, abril 21, 2013

Deus está nos números no filme "Número 9"


Três personagens em três episódios. Cada um em uma espécie diferente de prisão: o primeiro em uma prisão domiciliar; o segundo em um reality show; e o último preso ao vício por games de computador. Em sua estreia como diretor no filme “Número 9” (The Nines, 2007), John August  faz uma reflexão metalinguística sobre o trabalho do diretor/roteirista no cinema usando uma poderosa metáfora gnóstica do protagonista como o próprio ser humano prisioneiro na Terra, cujo planeta é visto como uma realidade mal produzida e roteirizada por um “deus ex machina”: toda vez que o protagonista começa a compreender o simbolismo místico da recorrência do número nove na sua vida, o mundo é desmanchado para recomeçar em um próximo episódio, do zero, levando o personagem principal ao esquecimento da sua verdadeira identidade.

Chris Carter, criador da série “Arquivo X”, em um comentário sobre o episódio chamado “Improbable” da nona temporada fez a seguinte detalhamento do argumento da estória: “tudo é sobre a compreensão da natureza de Deus através do uso da numerologia, sincronicidade, probabilidade, reconhecimento de padrões, física teórica ou algo parecido”.

Nesse episódio de Arquivo X a personagem Agente Scully trava um interessante diálogo com a Agente Reys:
“Scully: veja, Agente Reys, você não pode reduzir tudo na vida, toda criação, toda obra de arte, arquitetura, música, literatura... num jogo de vencedores e perdedores.
Reys: Por que não? Talvez os vencedores sejam aqueles que jogaram melhor o jogo. Eles conseguiram ver padrões e conexões, assim como nós estamos tentando fazer nesse momento.”
Pois o filme “Número 9” dirigido e escrito por John August (em seu primeiro filme como diretor depois de fazer o roteiro de diversos filmes de Tim Burton) lida diretamente com esse tema ao propor que a compreensão do simbolismo místico das coincidências e sincronicidades permitiria um ser divino escapar da sua prisão corporal. A compreensão dos significados das sincronicidades como ferramenta para a libertação.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

Gnose e viagem no tempo em "Safety Not Guaranteed"

Ao contrário dos filmes tradicionais sobre viagem no tempo onde a atração principal são sempre os aparatos tecnológicos, no filme independente “Safety Not Guaranteed” (2012) a máquina do tempo é apenas o pretexto para a narrativa apresentar insights reveladores do estranhamento de pessoas em relação ao mundo moderno e nas maneiras de escapar e expressar seu descontentamento. E também diferente dos clichês da “segunda chance” nas viagens ao passado, nesse filme a suposta existência de uma máquina do tempo é a oportunidade de uma espécie de “transcendência espiritual mundana” baseado na ruptura da prisão existencial de “perdedores” em uma sociedade vazia de sentido.

Viagem no tempo é um tema recorrente no cinema. Na concepção clássica encontramos até os anos 1970 o viajante como uma mera testemunha de eventos do passado e do futuro que não podem ser alterados. Os protagonistas lutam contra a seta do tempo e podem até morrer, mas fatos providenciais sempre impedem que a História seja alterada. A série de TV “O Túnel do Tempo”(1966-67) ou o filme “Um Século em 43 minutos” (1979) são bons exemplos.

A partir da trilogia “De Volta para o Futuro” nos anos 1980 temos uma viagem no tempo paradoxal: podemos voltar ao passado e criarmos futuros alternativos, novos presentes e até confrontarmos com o “paradoxo dos gêmeos”. O cinema passa a explorar o tema da “segunda chance”: a viagem no tempo torna-se uma esperança para alterarmos as causas dos maléficos efeitos que enfrentamos. Dor, culpa, arrependimento poderiam ser consertados, às vezes com nefastas consequências como no filme “Efeito Borboleta” (Butterfly Effect, 2004).

Já o filme independente “Safety Not Guaranteed” (um típico produto do Instituto Sundance), primeiro longa de Colin Trevorrow, parece criar um contraponto nessa trajetória do Tempo no cinema: o filme não é sobre viagem no tempo, mas é de viagem no tempo no sentido mais amplo do termo. A possível existência de uma máquina do tempo serve apenas de pretexto para os protagonistas revelarem em relação ao passado nostalgia, experiência de perdas, culpa e remorso. Ao longo da narrativa vemos ambíguos indícios ou pistas sobre a construção de uma máquina do tempo, o que parece ser apenas mais uma estória que revela a problemática relação dos protagonistas com o passado.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

Filme "Capricórnio Um": o pai de todas as conspirações

Um clássico dos filmes sobre conspirações. Talvez, o pai de todas as teorias conspiratórias sobre o programa espacial norte-americano. O filme “Capricórnio Um” (1977), escrito e dirigido por Peter Hyams, se insere em uma tendência de filmes dos anos 1970 estranhamente perturbadores. Muitos críticos reconhecem que essa década foi a era de ouro do Cinema com filmes cujas narrativas são dominadas por atmosferas paranoicas e esquizofrênicas. Um filme que inspirou todas as futuras teorias conspiratórias e que tornou crível a possibilidade de que o pouso na Lua jamais tivesse ocorrido. Além do diretor Peter Hyams oferecer uma ótima oportunidade para se discutir a importância fetichista que damos às imagens na cultura contemporânea.

Embora a indústria do entretenimento norte-americano alimente essas atmosferas desde o pânico em massa criado pela transmissão radiofônica de Guerra dos Mundos de 1938, o gênero fílmico noir nas décadas de 1930-40 e a paranoia anti-comunista simbolizada por filmes sci fi de marcianos invadindo a Terra e corpos humanos nos anos 1950, foi na década de 1970 que a paranoia alcançou sua maturidade crítica: não só apontou que havia algo de errado na sociedade mas começou a sugerir o que estava por trás dela.

“Capricórnio Um” parte de uma questão que estará por trás de todas as teorias das conspirações até hoje: e se o maior evento da história recente jamais tivesse acontecido? Essa era a pergunta nos anúncios promocionais do filme em 1978 onde víamos uma foto com astronautas do lado de fora de uma espaçonave em uma paisagem marciana fake, rodeados por câmeras e spots de um estúdio hollywoodiano.

O filme inicia com os últimos minutos que antecedem o lançamento do foguete “Capricórnio Um” que conduzirá três astronautas (performados por James Brolin, Sam Waterson e O. J. Simpson) para o primeiro pouso tripulado em solo marciano. Faltando poucos minutos para o final da contagem regressiva, os astronautas são secretamente retirados do interior da cápsula e levados para longe dali, para um hangar abandonado no meio de um deserto, enquanto o foguete é lançado em direção à Marte sem a tripulação.

sábado, dezembro 01, 2012

Um sci fi comunista: "Aelita - A Rainha de Marte"


“Sigam nosso exemplo camaradas! Unam-se numa família de trabalhadores, numa União Marciana de Repúblicas Socialistas Soviéticas”, brada o herói em um levante de operários nos subterrâneos de Marte contra uma espécie de totalitarismo czarista de outro mundo. Considerado o primeiro filme de ficção científica soviético, “Aelita - Rainha de Marte” (1924) é na verdade um anti-sci fi. Os revolucionários bolcheviques já se consideravam o futuro e a vanguarda, não precisavam de filmes sobre futuros utópicos. Como pretende demonstrar no filme, a utopia sobre viagens espaciais somente poderia ser uma excrescência do individualismo burguês. Mas ironicamente “Aelita” acabou influenciando clássicos do expressionismo alemão como “Metrópolis” e séries das futuras matinês dos cinemas norte-americanos como “Buck Rogers”. Também "Aelita" vai inaugurar o imaginário sobre Marte e a paranoia das invasões no secúlo XX.

quinta-feira, outubro 04, 2012

Em busca do Cinema Acontecimento

Uma época em que o cinema não era apenas entretenimento, mas um acontecimento capaz de transformar vidas. Do início do cinema lembramos principalmente dos Irmãos Lumière e de Meliés. Mas poucos pesquisadores dão espaço para relatos sobre uma produção cinematográfica norte-americana do começo do século XX que tematizava os conflitos capital-trabalho, o sindicalismo e a dura vida de imigrantes e trabalhadores em fábricas e minas. O maravilhamento do primeiro público do cinema formado pelos estratos inferiores da sociedade ao se ver representado na tela transformava as primeiras salas de cinema em eletrizantes acontecimentos de participação e interatividade. Logo esses verdadeiros filmes-acontecimentos foram reprimidos e enquadrados por Hollywood e, a partir de 1924, considerados "anti-americanos" (comunistas) pelo Bureau of Investigation de Edgar Hoover. Desses primeiros tempos ficou o desejo da ruptura da ordem e da rotina que nos acompanha a cada ida ao cinema, o anseio pelo Acontecimento. 

Para a maioria dos espectadores, ir ao cinema não é uma atividade que esteja associada ao perigo e comportamentos transgressivos. Tido como um local onde fantasias podem ser vividas e tudo pode acontecer em um universo ficional, está mais comumente associado ao entretenimento ou, no mínimo, a uma fuga dos problemas ou do esquecimento momentâneo dos aborrecimentos do dia-a-dia.

Mas nem sempre foi assim ou, talvez, nunca tenha sido. De um lado há uma história descrita por pesquisadores que localiza no chamado primeiro cinema um tipo de experiência estética que não se resumia unicamente a uma forma de entretenimento: pelo contrário, era uma forma de experiência que poderia transformar vidas; de outro, pesquisas críticas que descrevem o cinema e a própria experiência estética como uma arena de tumulto e contenção, quebras e retornos à ordem, crítica e reação. Para esses pesquisadores, desde o primeiro cinema e a posterior industrialização, enquadramento e controle, o cinema traria ainda dentro de si a potencialidade em transcender a si mesmo, mudar vidas de espectadores, transformar a experiência estética em um acontecimento.

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