domingo, março 23, 2014
Wilson Roberto Vieira Ferreira
É inevitável a
comparação entre “Aurora” (Vanishing Waves, 2012) da lituana Kristina Buozyte
com “A Origem” (Inception, 2010) de Christopher Nolan: enquanto a produção
hollywoodiana abordava o mundo onírico pelo viés das neurociências
(jamais a palavra “inconsciente” era citada), a produção lituana aborda o mesmo
tema, mas fiel ao ponto de vista freudiano sobre a dinâmica do psiquismo, inovando as representações do inconsciente no cinema através de
engenhosos efeitos inspirados em MC Escher e expressionismo alemão. Se Freud
considerava o inconsciente como o “Isso” e o “Estranho”, “Aurora” mostra como
uma neurociência atual munida de interfaces digitais e mapas neuronais tenta
ignorar essa origem de toda atividade humana impossível de ser apreendida pela
ciência racionalista.
Em postagem
passada quando discutíamos o filme A Origem (Inception, 2010)
observamos que a grande deficiência do filme de Nolan era abordar o tema dos
estados imersivos de alteração de consciência e o mundo onírico dos sonhos sob
um ponto de vista associado à engenharia do espírito das neurociências: embora
tudo ocorresse no mundo dos sonhos, nunca se tocava na palavra inconsciente e o
psiquismo era abordado pela possibilidade pragmática de manipulação
neurocientífica comandada por interesses corporativos.
O que tornou A Origem num filme estéril e assexuado
onde a presença feminina tornou-se masculinizada ou, então, um objeto abstrato
tal como uma princesa de contos de fadas. Bem diferente é o filme da lituana
Kristina Buozyte Aurora (Vanishing Waves) em que a narrativa
revisita alguns conceitos das viagens no mundo dos sonhos de A Origem. Porém, em Aurora, o psiquismo do mundo dos sonhos é uma mix de surrealismo e
de uma primitiva psicossexualidade que faria Freud ficar corado. Kristina se
aproxima muito mais do funcionamento do psiquismo humano do que Nolan ao
capturar como a experiência real do sonho pode ser assustadora e desagradável,
mesclada com primitivas e incontroláveis fantasias eróticas. O que torna Aurora um filme diferenciado no gênero
de ficção científica: uma erótica e surreal viagem mental.
segunda-feira, fevereiro 17, 2014
Wilson Roberto Vieira Ferreira
“É a verdade... a digitalização
da vida real. Você não vai só a uma festa. Vai a uma festa com uma câmera
digital. E seus amigos revivem a festa on line.”Essa afirmação de Sean Parker (criador
do Napster, interpretado no filme por Justin Timberlake), que aparece solta nas
frenéticas linhas de diálogo no filme “A Rede Social” (The Social Network,
2010), é a síntese do “desejo de virtualidade”, essa motivação individual que
sustenta todo o projeto tecnognóstico que domina a atual agenda tecnológica e
científica. O desejo pela digitalização da vida seria a recorrência de uma
milenar aspiração gnóstica pela transcendência da carne e a imortalidade da
espécie. Mas
essa aspiração por transcendência transforma-se em má consciência ao ser
capturada por sistemas econômicos e políticos. Transforma-se em ideologia, como
questiona o pesquisador canadense em ciência política, tecnologia e cultura Arthur
Kroker.
domingo, julho 14, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Novamente a Semiótica é convocada para desmontar outra “bomba
semiótica” que detonou na mídia nesses últimos dias. E dessa vez uma bomba
plantada pela própria Polícia Federal: investigações do órgão concluíram que o boato que
levou ao pânico beneficiários do “Bolsa Família” em 12 estados foi
“espontâneo”, não havendo, portanto, causa intencional. Conclusão tão irracional, retoricamente saturada e
cientificamente sem sentido que entra na categoria das “bombas semióticas”:
artifícios letais camuflados de informação, mas que escondem construções de
sentido arbitrárias e, nesse caso, com uma novidade: se o fenômeno aconteceu porque
aconteceu, então os fenômenos da comunicação entram no terreno da tautologia e da magia.
A
Polícia Federal deu uma histórica contribuição científica que será o divisor de
águas dos estudos no campo da Comunicação. O relatório final das investigações
sobre o boato que provocou grandes filas e tumultos em agências da Caixa
Econômica Federal e casas lotéricas em 12 estados em um final de semana de maio
encerrou o caso da seguinte maneira: “foi espontâneo, não havendo como afirmar
que apenas uma pessoa ou grupo tenha causado. Conclui-se, assim, pela
inexistência de elementos que possam configurar crime ou contravenção penal”.
Essa
conclusão de “investigação de campo” é “revolucionária” por que: (a) insere na
Comunicação um elemento tautológico (o boato aconteceu porque aconteceu!). Em
outras palavras, a Polícia Federal insere um elemento animista e mágico nos
fenômenos de comunicação: o mundo é animado por forças que estabelecem bizarras
contiguidades entre fatos aparentemente aleatórios; (b) rompe com um princípio
básico da ontologia da Comunicação: a intencionalidade.
O que define o fenômeno comunicacional é a intencionalidade
do emissor (por que ele comunica? Qual sua intenção ou finalidade?) e a decisão do receptor - aceitar ou não o
“jogo” proposto pelo emissor.
sexta-feira, julho 05, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A engraçada ficção científica checa “Accumulator 1” (1994) se associa a
uma longa tradição cinematográfica de representações da TV e do controle remoto
como veículos de disseminação do Mal, portais multidimensionais ou como meio de
conexão com mundos espirituais e virtuais que podemos ver em filmes como “Poltergeist”,
“Videodrome” ou “Click”. Por trás desse imaginário estaria o fascínio pelos
fenômenos eletromagnéticos que, desde a sua descoberta, sempre estiveram
associados ao oculto e ao espiritualismo. Em “Accumulator 1”, por
exemplo, a TV é um dispositivo que drena energias vitais dos espectadores que
vão animar um universo alternativo espelhado.
quarta-feira, junho 26, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O mais premiado curta de animação argentino e que chegou a ficar entre
os dez finalistas para concorrer ao Oscar da categoria, “Luminaris” (2011) de
Juan Pablo Zaramella apresenta em seus seis minutos uma grande riqueza
simbólica a partir da colagem de estilos que vai da arte Deco e Surrealismo ao
Filme Noir e Neorrealismo. O que representaria a alegoria de um universo alternativo
governado por uma estranha força magnética do Sol que arrasta todos para os
seus trabalhos? Apesar de Zaramella desconversar sobre o simbolismo do seu
curta, podemos fazer um pequeno exercício de leitura do conteúdo da narrativa a
partir de três pontos de vista: o marxista, o conspiratório e o gnóstico.
O mais premiado curta argentino, “Luminaris” em
2012 foi pré-selecionado entre os dez finalistas para concorrer ao Oscar dentro
de sua categoria. Feito com uma técnica de stop-motion
denominada pixilation onde atores
reais interagem com objetos inanimados - veja o curta abaixo.
Dirigido por Juan Pablo Zaramella, a narrativa de
seis minutos é ambientada em uma Buenos Aires que parece o resultado do
cruzamento entre filme noir, realismo fantástico, neorrealismo e surrealismo. O
curta conta a história de um homem (Gustavo Cornillón) que vive em um universo
alternativo onde o tempo, o trabalho e o cotidiano são controlados pela luz do sol
que age como espécie de força magnética, despertando a todos para depois
arrastá-los ao trabalho e trazê-los ao final do expediente de volta para casa.
O protagonista tem um trabalho rotineiro e repetitivo na linha de montagem
em uma fábrica de lâmpadas onde são produzidas de uma forma, digamos, não
muito ortodoxa...
sábado, abril 13, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Como interpretar o "bug" fatal da atualização do Windows 7 que fez inúmeros computadores entrarem em looping sem conseguir iniciar o sistema operacional? Como explicar um erro em proporções exponenciais partindo de uma corporação como a Microsoft? Conspiração mercadológica para forçar a atualização para o até aqui fracasso de vendas do Windows 8? Simples erro de sintaxe algorítmica de alguma linha de comando? Talvez o "bug" revele algo que nos escapa, apesar de sentirmos os seus efeitos no dia-a-dia: o desenvolvimento tecnológico estaria se aproximando a um estágio tal de complexidade que criaria uma reversibilidade fatal e maléfica e, ao mesmo tempo, irônica: a "hipertelia".
Fui mais um dos usuários vítimas
da verdadeira bomba informática que foi a atualização "2823324" do Windows 7. Sem
perceber, o Windows fez uma atualização automática que criou um “fatal system
error” como sinistramente diagnosticou o próprio computador para mim. O sistema
operacional não mais iniciava entrando em um looping, deixando-me em xeque
diante dos prazos de entrega de artigos e modelos de provas para a Universidade
onde leciono.
Segundo a própria Microsoft, a
atualização combateria a uma vulnerabilidade na segurança do sistema que
permitiria a um atacante ter acesso físico ao computador para explorá-lo. Mas,
ironicamente, a atualização feita em nome da segurança realizou o sonho de
qualquer hacker: produzir um efeito viral ou sistêmico e derrubar redes e
computadores.
Para aprofundar ainda mais a
ironia, de fato a atualização realmente deixou o computador mais seguro,
mantendo-o incomunicável não só com a Internet (a fonte da ameaça) mas com o
próprio usuário que não saberia que estaria sendo invadido. Cortou o mal pela
raiz!
segunda-feira, janeiro 28, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
“Mulher na Lua” (Frau
im Mond, 1929), último filme mudo de Fritz Lang (“Metrópolis, 1927), foi o primeiro
esforço no cinema em abordar o tema da viagem espacial de forma séria e
cientificamente crível. E também o primeiro exemplo de convergência entre a
agenda tecnocientífica e o cinema: Hermann Oberth, presidente da Sociedade
Alemã para a Viagem Espacial, não só deu consultoria científica como construiu
um protótipo de foguete para as filmagens. Acreditava que Lang daria
publicidade e dinheiro à causa da viagem espacial, uma verdadeira mania popular
na década de 1920 na Alemanha. Mas, secretamente, as estórias sobre “perigosas
vacas lunares” e “naves misteriosas entre os anéis de Saturno” das HQs e pulp
fictions da época prepararam o imaginário das vanguardas artísticas para a
irracionalidade e destruição dos mísseis V2 de Hitler.
quarta-feira, janeiro 16, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Morto aos 30 anos na Guerra Civil Espanhola em 1937, o pensador e poeta
marxista Christopher Caudwell produziu uma instigante análise sobre a crise na
física na década de 1930 (a rejeição de Einstein e de outros físicos ao
Princípio da Incerteza de Heisenberg) sob o ponto de vista do materialismo
dialético. Caudwell em sua obra “A Crise na Física” anteviu o que denominou
como “tela de fenômenos” criada pela “metafísica da física”, uma filosofia
inconsciente que aprisionaria a Física em uma verdadeira “Matrix” de categorias
mentais que aprisionariam a realidade dentro do restrito modelo do determinismo
e do mecanicismo cujas origens estão nos fundamentos do modo de produção
capitalista.
A
carreira de teórico da cultura do marxista inglês Christopher Caudwell foi
realmente muito breve. Dois anos depois de iniciar uma série sistemática de
análises marxistas sobre diversas áreas morreu lutando na Guerra Civil
Espanhola no primeiro dia da batalha de Jarama em 1937 quando tinha tão somente
30 anos. Mas foi o suficiente para produzir um respeitável livro sobre física
do ponto de vista do materialismo dialético marxista chamado “A Crise na
Física” e quatro outros trabalhos sobre crítica cultural – “Ilusion and
Reality”, “Romance and Realism” e ensaios no campo na História, Psicologia e
Religião agrupados em um único livro intitulado “Estudos Sobre Uma Cultura
Agonizante”. No Brasil esses trabalhos foram reunidos em uma coletânea em 1968
sob o título “O Conceito de Liberdade” publicada pela editora Zahar.
Certamente
o trabalho mais instigante foi “A Crise na Física” pelo seu poder de síntese e
uma ousada aplicação do método dialético marxista em um campo aparentemente
distante da economia política: a Física. Caudwell de dispôs a analisar os
fundamentos de uma crise que saia do campo restrito dos físicos e chegava à
opinião pública – as descobertas dos jovens físicos como Heisenberg,
Schrödinger e Eddington combatidas por Einstein e Planck, isto é, a descoberta
de que os princípios de determinismo e a causalidade estavam sendo expulsos da
física e que a “velha guarda” ainda procuravam manter a “metafísica da física”
representada pelos princípios newtonianos.
sábado, janeiro 05, 2013
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Como um produto
hollywoodiano como “Cloud Atlas” (A Viagem) consegue simultaneamente explorar
simbologias de mistérios antigos (órficos, pagãos e gnósticos) e, ao mesmo
tempo, adequar-se às convenções do gênero blockbuster? Como conciliar em uma
mesma narrativa o niilismo do eterno-retorno com a concepção de que a
existência é dotada de um propósito que nos levaria a um final apoteótico? Como
lidar com o desejo de liberdade e transcendência do espectador dentro de um produto
mercadológico da indústria de entretenimento? Os irmãos Wachowski e Tykwer encontraram
a resposta na ideia de que tudo é “humano, demasiado humano”: o Universo
seria uma perfeita sinfonia. O que atrapalha é a humanidade. "Cloud Atlas" faria nas entrelinhas o julgamento religioso das ações humanas.
“O que tentamos foi fazer uma história
sobre uma reviravolta, a mesma reviravolta experimentada pelo personagem Neo
que sai deste mundo oprimido e programado para participar na construção do
sentido da sua vida. E nós pensamos assim: poderemos levar ao público algo
similar a experiência do personagem principal nos três filmes?”, afirmou Lana
Wachowski referindo-se a uma comparação entre o atual “Cloud Atlas” e a
trilogia “Matrix” (Veja “Cloud Atlas Entrevista” In: Scifiworld).
O filme “Cloud Atlas” (com o
infeliz título em português “A Viagem”, que vamos ignorar nessa postagem) dirigido
pelo trio Tom Tykwer (“Corra, Lola, Corra”) e Lana e Andy Wachowski (trilogia
“Matrix”) é um exemplo magistral de como a indústria de entretenimento
equilibra-se em uma corda bamba entre o impulso metafísico em lidar com antigas
simbologias dos antigos mistérios sejam pagãos ou gnósticos (que no final
procuram capturar o desejo por liberdade e transcendência dos espectadores) e a
necessidade de fazer um produto que se adapte às convenções ideológicas do
gênero blockbuster.
Nas quase três horas de duração,
entramos em pânico na primeira meia hora ao não entendermos nada sobre o
propósito de cada uma das seis estórias narradas de forma entrelaçada e aparentemente
aleatória. Aos poucos vamos ligando os pontos e passamos a saborear a brilhante
montagem das sequências. Como o próprio David Mitchell (autor do livro no qual
se baseou o filme) afirmou, a chave é o tema da reencarnação. Um empreendimento
difícil e arriscado ao entrelaçar eventos ao longo de cinco séculos, em
diferentes gêneros (sci fi, drama,
espionagem, policial etc.) com os mesmos atores vivendo papéis, personagens,
sexo e raças diferentes, sugerindo as diversas existências numa espécie de
jornada cósmica de almas imortais.
domingo, outubro 14, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Cientistas da
Universidade de Bonn, Alemanha, estão levando a sério a hipótese de que o nosso
universo poderia ser uma gigantesca simulação de computador ao melhor estilo “Matrix”.
Liderados pelo físico Silas Beane, tentam encontrar a “assinatura cósmica”
dessa simulação e a natureza da nossa “visão restrita” que nos impediria de
percebermos essa virtualidade do real. Para superar essa “visão restrita”
tentam criar uma simulação de nosso universo simulado (uma espécie de
meta-simulação), o que faria lembrar não só filmes como “O Décimo Terceiro
Andar” (1999) e “Matrix” (1999), mas também a cosmologia gnóstica e o Princípio
da Correspondência do Hermetismo e Alquimia da antiguidade em Alexandria.
Alguma outra civilização teria alcançado a capacidade de
produzir computadores tão poderosos que teria desenvolvido simulações do
próprio universo em que habita. E nós poderíamos estar vivendo em uma dessas
simulações, reproduzindo a mesma trajetória que os nossos “criadores”
trilharam. Se na atualidade vemos um número crescente de usuários imersos em
mundos virtuais como “Second Life”, “SimCity” e “World of Warcraft”, isso representaria
o início dessa trajetória que nos conduziria à mesma capacidade de projetar
simulações.
Essas ideias não saíram de um roteirista de sci fi, mas do
filósofo e matemático professor da Universidade de Oxford Nick Bostrom,
sugerido em um artigo em 2003 e sustentado apenas por uma fórmula probabilística que seria
essa:
Onde:
fp é a fração de todas as civilizações humanas
que alcançaram a capacidade tecnológica de produzir programas simuladores de
realidade;
“N” é a média de simuladores ancestrais funcionando pelas
civilizações mencionadas em fp;
“H” é a média do número de indivíduos que viveriam em uma
civilização antes dela estar hábil a criar simuladores de realidade;
“fsim”
é a fração de todos os humanos que vivem em realidades virtuais.
Pois “H” terá um
valor tão grande que, pelo menos, uma das três aproximações será verdadeira:
fp≈ 0
N ≈ 0
fsim ≈
0
Apesar da fórmula que dá um aspecto de cientificidade, a
hipótese de Bostrom era principalmente filosófica e poucos ousariam a dar
continuidade a uma ideia como essa. Até ser noticiado que uma equipe de físicos
teria afirmado que seria possível confirmar ou não essa hipótese, bastando
encontrar uma “assinatura cósmica” (clique aqui para ler a notícia). E os pesquisadores já teriam uma descrição do que
seria essa “assinatura”.
segunda-feira, setembro 17, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Coincidência? A vida
imita a arte? Ou simplesmente o cinema hollywoodiano é um instrumento para
tornar a agenda tecno-científica atual politicamente aceitável e natural para a
sociedade? Uma dupla de pesquisadores do Departamento de neurociências do MIT
anunciou em artigo publicado na “Nature Neuroscience” online o sucesso na
manipulação do conteúdo de sonhos em ratos. Isso abriria a perspectiva de uma “engenharia
dos sonhos”: o controle amplo das memórias através de bloqueios, seleção ou
alteração. Isso faz lembrar uma série de filmes cujos roteiristas anteciparam
ou simplesmente replicaram essa agenda de início do século: “Quero Ser John
Malkovich”, “Vanilla Sky”, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “Ciência
dos Sonhos”, entre outros.
Foi publicado neste mês um artigo de Matthew Wilson e Daniel
Bendor na edição on line da “Nature
Neuroscience” intitulado “Biasing the Content of Hippocampal Reply During Sleep”
(leia aqui o artigo). Os autores são, respectivamente, professor do Departamento
de Neurociências e pesquisador do Instituto de Aprendizagem e Memória do MIT
(Massachusetts Institute of Technology – EUA). No artigo descrevem o sucesso na
manipulação dos conteúdos de sonhos de um rato. Segundo eles, a descoberta
reforçaria a nossa compreensão de como a memória se consolida durante o sono,
produzindo a perspectiva da criação de uma espécie de “engenharia do sonho”.
O cientista explorou a forma como o hipocampo do cérebro
codifica os eventos na memória. A equipe de Wilson e Bendor treinou um grupo de
ratos a percorrer um labirinto usando duas diferentes orientações sonoras, ao
mesmo tempo em que eram gravadas as atividades neurais. Mais tarde, quando os
ratos estavam dormindo, os pesquisadores registraram a mesma atividade neural
(os ratos sonhavam com as atividades no labirinto do dia anterior). Os mesmos
sinais sonoros de orientação foram tocados, quando os pesquisadores perceberam
algo interessante: os ratos sonhavam com a mesma seção do labirinto correspondente
ao sinal que era tocado.
Olhando para o futuro, os pesquisadores acreditam que este
exemplo simples de “engenharia sonho” poderia abrir a possibilidade de um
controle mais amplo do processamento da memória durante o sono - e até mesmo a
noção de que as memórias podem ser selecionadas ou reforçadas, bloqueadas ou
alteradas. Wilson e Bendor também apontaram para a possibilidade de se desenvolver
novas abordagens à aprendizagem e à terapia comportamental através de tipos
semelhantes de manipulação cognitiva.
quinta-feira, junho 28, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Enquanto EUA e URSS
disputam a corrida espacial dos anos 1960, um excêntrico milionário financia
sua própria viagem espacial buscando quebrar o recorde de permanência solitária
em orbita da Terra. Mas um irritante “beep” de mau funcionamento do sistema
somado à claustrofobia e delírio no interior de uma minúscula cápsula ameaçam a
missão. Esse é a sinopse do curta “Waltz For One” (“Valsa para Um”, em uma tradução literal) lançado
esse mês pelo coletivo de artistas “Intellectual Propaganda” que é muito mais
do que uma paródia a clichês e filmes do gênero (entre eles, “2001” de Kubrick):
é uma melancólica desconstrução do gênero ficção científica, enfraquecido na
pós-modernidade porque perdeu a própria essência que o constituía: a visão
confiante e utópica no futuro. Veja o curta no final desse post.
Em uma alternativa década de 1960, enquanto americanos e soviéticos
se engalfinhavam em uma competição política pela conquista da vanguarda na
corrida espacial, um excêntrico milionário chamado Arthur Whitman procura por
sua própria conta a glória estelar. Através de uma viagem espacial
autofinanciada, Whithman pretende quebrar o recorde de permanência no espaço ao
tentar ficar em órbita da Terra por uma semana, solitário em uma claustrofóbica
cápsula.
Cair nas profundezas do espaço já é perigoso o suficiente,
ainda mais solitário e ainda mais quando as coisas começam a dar errado: no
meio da tensa contagem regressiva das horas pelo painel da cápsula em seu teste
de resistência, Whitman perde diversas vezes contato com a base e um irritante
aviso sonoro de mau funcionamento do sistema toca continuamente. Whitman mal
consegue se mexer ou respirar na apertada cápsula.
sexta-feira, março 30, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Depois da corrida
espacial que culminou com a chegada do homem na Lua em 1969 e de toda a
construção da mitologia em torno dos astronautas como “eleitos” e símbolos da
ideologia do “destino manifesto” norte-americano, ironicamente tudo isso se converteu
em brinquedos e souvenirs licenciados pela NASA. Foguetes retros e nostálgicos
de uma época que acabou, onde os riscos e gastos econômicos substituiriam o
espaço sideral pelo ciberespaço . Toda a tele-exploração através de sondas automáticas
e robôs desde o Projeto Viking em Marte nos anos 1970 resultaram na
aposentadoria dos heroicos astronautas e o desenvolvimento da tecnologia telemática
aplicada à endocolonização do planeta Terra por meio de satélites, estações orbitais
e GPS para finalidades de monitoramento e controle.
Nessa semana meu filho de quatro anos chegou da escola
acompanhado de seu amiguinho que, percebi, segurava um brinquedo colorido e
brilhante. Aproximei-me para recebê-los e observei mais atentamente o
brinquedo: era um foguete espacial, grande, aerodinâmico, com belas asas arredondadas. Atentei a um detalhe na fuselagem do foguete. Era o logo da NASA, a Administração
Nacional de Aeronáutica e Espaço dos EUA, em destaque no centro do foguete, o
que dava ao brinquedo um ar de ser licenciado pela agência americana.
O brinquedo havia sido comprado pela Internet em um site chamado
“Space Store & NASA Gift Shop” com produtos licenciados pela agência
aeroespacial: roupas de astronauta, jogos e tudo o que envolve a conquista do
espaço para crianças e jovens.
Uma franquia da NASA? Sim. Todo o imaginário da corrida espacial
transformado em brinquedos e souvenirs. Há uma ironia nesse brinquedo: toda a
heroica e épica aventura da conquista do espaço que culminou, em 1969, com a
chegada do homem na Lua transformado em uma franquia que vende brinquedos com
um indiscutível ar retro ou nostálgico. O design aerodinâmico e as asas
arrojadas do brinquedo lembram os velhos tempos do início da corrida espacial
representados em desenhos animados do Pica-Pau ou séries de TV como “Jornada
nas Estrelas” das décadas de 1950-60.
domingo, janeiro 29, 2012
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Um filme indispensável tanto para ateus, religiosos, gnósticos, agnósticos ou cientistas. O filme "The Man From Earth" é composto por uma narrativa de 90 minutos de puro ceticismo e desconstrução tanto da Religião quanto da Ciência. Um homem revela ter 14 mil anos de idade, mas tudo o que um grupo de cientistas e professores descobre é um ser com a mesma consciência de um homem comum que luta pela sobrevivência, sem qualquer lição metafísica ou teológica a oferecer.
quarta-feira, outubro 12, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se os gêneros ficção científica e Terror exploram principalmente os temas do Pós-Humano e do Desumano, em "A Centopéia Humana" do holandês Tom Six temos uma novidade: o tema do Inumano, poucas vezes trazido para as telas do cinema pela sua maneira radical e perturbadora de encarar o Mal. Não se trata mais de impingir o horror, sofrimento e a morte final à vítima. Mas retirar dela toda sua humanidade ao fazê-la regredir à condição animal por meio dos próprios intrumentos da evolução humana: Ciência, Técnica e Razão.
O tema do Pós-humano é recorrente no cruzamento
entre ficção científica e terror: desde a estória de Frankenstein, passando por
filmes como “Robocop” (RoboCop, 1987) para chegarmos aos pesadelos do diretor
Cronenberg como em “Videodrome” (1983) e eXistenZ (1999) : fantasias
cabalísticas onde o homem quer ser Deus e tenta produzir vida a partir de um “golem”;
seres híbridos de carne, sistemas eletrônicos e servomecanismos para superar as
limitações corporais humanas; interfaces biológicas com redes digitais onde o
Eu transcenda o corpóreo etc. No
pós-humano há o desejo gnóstico-cabalístico da superação das limitações
existenciais e corporais humanas (finitude, temporalidade e senso de
fragilidade corporal). O elemento do horror é a presença da ambiguidade do
pós-humano, a diluição das fronteiras entre homem e máquina, espírito e matéria
e orgânico e inorgânico. E horror de vermos o inorgânico e sem vida ganhar
consciência e dominar o espírito humano.
Já o Desumanoestá no campo da moralidade
e da “hermenêutica do mal”. Torturas, humilhações e assassinatos são impingidos
por um serial killer, um monstro sobrenatural ou um psicopata. Pense num filme
como “Jogos Mortais” (Saw, 2004): o vilão aprisiona pessoas em elaborados
dispositivos e jogos para punir atos pregressos imorais ou anti-éticos das vítimas. Ou
ainda, sanguinário personagem Alex do
filme “Laranja Mecânica” (Clockwork Orange, 1971) que sabe que suas atrocidades são puníveis pelo Estado e
Polícia. Teme a lei e foge para não ser preso. Alex e o Jigsaw são, portanto,
imorais.
O tema do Desumano conta ainda com uma “hermenêutica do
Mal”: psicopatas como Jason e Fred Krueger são assassinos seriais e cruéis por
decorrência de traumas do passado que marcaram para sempre suas personalidades.
As narrativas procuram racionalizar o Mal buscando uma explicação no psiquismo
humano.
Portanto, podemos denominar a condição da vítima como
“desumana” porque há ainda no horizonte referências como o Humanismo, a Ética e
a Moral.
A novidade do filme “A Centopéia Humana” (The Human Centipede - First Sequence, 2009) é trazer para o
gênero terror o tema do Inumano: não se trata mais de subjugar,
humilhar ou destruir o psiquismo da vítima pelo horror, medo ou tensão. E,
muito menos, se trata de querer punir a vítima com o sofrimento e a morte
final. Trata-se muito mais de anular qualquer humanidade ao fazer a vítima
retroceder ao estágio animal, morficamente falando e não no sentido figurado.
terça-feira, julho 26, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Entre a narrativa tragicômica do cientista ingênuo e idealista do filme ingles "O Homem do Terno Branco" ("The Man in the White Suit, 1951) e a tragédia real do inventor da Frequência Modulada, Edwin Armstrong, encontramos dois paralelos: a orientação alquímica de um inventor perdido em meio ao capitalismo cartelizado e a "commoditização" da Ciência.
O inventor do motor a explosão, Rudolph Diesel, desapareceu a bordo de um navio no mar do Norte em uma noite calma. O inventor da frequência modulada (FM), Edwin Armstrong, se jogou da janela do décimo terceiro andar de um edifício em Manhattan em 1954. O inventor do náilon, Wallace Hume Carothers, também se suicidou. Uma série de cadáveres cobre a estrada das invenções.
Quando esse assunto é debatido as pessoas logo pensam em invenções proibidas. Imagina-se que os grandes trustes possuem em seus cofres fortes a lâmina de barbear interminável, o fósforo perpétuo, a lâmpada elétrica eterna, o comprimido que dissolvido na água substitui a gasolina, os tecidos indestrutíveis.
Mas uma evidência histórica é certa: determinadas invenções são combatidas, suas patentes tornam-se objeto de batalhas judiciais e objeto de difamações na mídia com o objetivo de serem controladas e suas aplicações adiadas quando coloca em risco o equilíbrio de mercado em determinado momento ou, mais ainda, quando ameaça a própria natureza mercantil das invenções e da própria tecnociência.
A comédia inglesa “O Homem do Terno Branco” é um ótimo filme que nos faz lembrar da clássica questão marxista da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção, isto é, de como um modo de produção determinado pode ser uma camisa de força para o livre progresso tecno-científico. O plot central do filme é sobre uma invenção que, de tão revolucionária, pode colocar em risco o mercado e as relações capital-trabalho. Olhando a história das invenções, a tragicômica estória do idealista cientista dessa comédia tem muitas analogias com a tragédia real do inventor da frequência modulada, Edwin Armstrong.
O filme narra as desventuras de Sidney Stratton (Alec Guinness) um cientista ingênuo e idealista, recém-formado por Cambridge, que obsessivamente persegue um objetivo: o desenvolvimento de uma fibra sintética que produza um tecido que nunca desgaste e suje, produzindo roupas praticamente indestrutíveis e capazes de durar uma vida inteira.
Secretamente se infiltra nos laboratórios de pesquisa das maiores indústrias têxteis para conseguir os melhores equipamentos para alcançar seu intento. Descoberto na indústria Birnley’s, Sidney acaba convencendo o seu proprietário Alan Birnley (Cecil Parker) de que a descoberta lhe trará grande vantagem contra a concorrência.
No início, as pesquisas são catastróficas, com explosões que levam parte das instalações da Birnley’s pelos ares. Hidrogênio e tório radioativo tornam as experiências cada vez mais perigosas e explosivas. O que começa a criar boatos e chamar a atenção da imprensa. Tudo é sistematicamente desmentido por Alan Birnley até Sidney conseguir a grande descoberta: a fibra sintética indestrutível.
domingo, junho 26, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
A reciclagem universal de detritos passou a ser a nossa tarefa histórica onde a própria espécie humana passou a produzir-se a si própria como detrito e a levar a cabo em si mesma esse trabalho de dejeção. É o sintoma de um sistema que tenta extirpar o Mal ao reciclar os restos ao convertê-los em mercadorias. A ideologia de raciclagem é la pièce de résistance do discurso ecologicamente correto.
Peço desculpas aos leitores pelo tema tão desagradável neste humilde blog especializado em cinema, cultura pop e gnosticismo. Mas, acreditem, se usarmos o método de investigação do agente Kevin de “MIB – Homens de Preto” (discutido em postagem anterior – veja links abaixo) onde ele buscava a verdade sobre os extraterrestres em tabloides sensacionalistas, veremos que essa bizarra notícia é muito mais do que um fato pitoresco do mundo científico. Pelo caráter de artefato experimental é um sintoma do destino final do discurso ecológico, convertido agora em fundamentalismo tecnomístico.
Se no passado o discurso ecológico denunciava a poluição e a destruição do meio ambiente como efeitos da lógica reprodutiva e de exploração do capital, agora a agenda da necessidade de reciclagem dos restos produzidos pela civilização industrial e de consumo torna-se a pedra de toque de um reformismo ambientalista. Seu objetivo é não só o ideológico (as intenções altruístas e socialmente corretas do capital), mas, principalmente, a reciclagem econômica: transformar os “restos” em novas “commodities” para o mercado.
Mas antes de tudo vamos à notícia. Segundo matéria da redação da revista “Galileu”, o cientista japonês Mitsuyuki Ikeda teria criado “uma terceira via para quem é vegetariano e não gosta de carne de soja: carne feita de excremento humano”. Segundo Ikeda, o objetivo é que a carne seja comercializada regularmente e vire um produto disponível a todos.
sábado, março 19, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
O filme "Mistério da Rua 7" (Vanishing on 7th Street, 2010) representa uma nova tendência hollywoodiana: a construção de um novo fundamentalismo moral baseado no pensamento ecologicamente correto. No caso desse filme, uma bizarra mistura de antiga lenda da época da colonização norte-americana, demônios indígenas e o pensamento místico ecológico da Teoria Gaia.
Todo filme com temática apocalíptica guarda uma lição de moral: por que a humanidade chegou a esse ponto? Como exemplares da espécie humana, qual a culpa dos indivíduos sobreviventes para a catástrofe que ocorreu? E, principalmente, qual lição pode se tirar de tudo que ocorreu para que não cometamos os mesmo erros no futuro?
O filme “O Mistério da Rua 7” partilha dessa mesma premissa moral com uma novidade: a mescla do subgênero ficção científica pós-apocalipse com o terror. O resultado é um surpreendente encontro entre a religião e o pensamento ecologicamente correto que encobre a velha estrutura clichê moralista da narrativa hollywoodiana: quebra-da-ordem-e-retorno-a-ordem, isto é, a punição dos personagens que ousam quebrar a ordem moral, política, social e, no caso desse filme, o pensamento ecologicamente correto.
sexta-feira, março 04, 2011
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Precisamos encarar o atropelamento dos ciclistas do grupo Massa Crítica em Porto Alegre como um sintoma dessa verdadeira bomba tecnológica que, ao criar uma relação inorgânica e virtual com o espaço, o ambiente e o Outro, propicia a indiferença, amoralidade e violência.
Indignação é a mínima reação civilizada que podemos ter diante das imagens do atropelamento proposital de 20 ciclistas durante a passeata do grupo Massa Crítica na noite da última sexta em Porto Alegre. Para pessoas como eu que utilizam diariamente a bicicleta como meio de transporte, a notícia da prisão do responsável (que, segundo consta, detém uma ficha de antecedentes de violência e contravenções no trânsito) não é motivo de alívio ou de sensação de justiça feita.
As imagens bizarras de ciclistas sendo jogados para o alto com suas bicicletas retorcidas contém algo de incômodo que não está apenas no conteúdo das imagens, mas no fato delas se constituírem em sinais de uma espécie de sismógrafo do movimento mais profundo, de uma história subterrânea que vai além da eficácia de leis, regras éticas ou legislações de trânsito que protejam ciclistas no caos motorizado.
Este episódio captado em imagens que repercutiram na mídia internacional é um desses sintomas mais visíveis da armação de uma verdadeira bomba tecnológica: a lenta constituição de um novo paradigma que rege as relações do homem com a tecnologia (tecnologias “tecnognósticas”) que virtualiza as relações com as ferramentas e cria uma relação inorgânica com o meio ambiente.
segunda-feira, outubro 11, 2010
Wilson Roberto Vieira Ferreira
Rompendo com a tradição romântica do cinema que vê o universo onírico sempre submetido ao píncípio da realidade, em "Sonhando Acordado", Michel Gondry anarquicamente inverte a fórmula, ao apresentar os sonhos subvertendo a realidade. Ao partir do princípio freudiano da "teoria das sentinelas", Gondry mantém sua crítica às "tecnologias do espírito" apresentada no filme anterior "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças"(2004).
Ao escrever e dirigir “Sonhando Acordado” (La Science dês Rêves, 2006), o francês Michel Gondry continua afiado em seu posicionamento crítico em relação às chamadas “ciências do espírito” (neurociências e toda a gama de subprodutos de técnicas e terapias que prometem felicidades e realização pela autoprogramação da mente).
Se em “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004) ele satiriza as tecno-ciências que pretendem trazer a felicidade mediante o apagamento das memórias “ruins”, para que prossigamos em frente sem culpas ou mágoas, em “Sonhando Acordado” Gondry foca na defesa do sonho diante de toda tentativa da realidade em domesticá-lo para atender às suas finalidades.
Stéphane Miroux (Gael Garcia Bernal) faz um rapaz que retorna à Paris sob a promessa de sua mãe que lhe arranjara um emprego supostamente criativo como ilustrador. Stéphane, segundo sua própria definição, nunca consegue terminar nada a que se propõe e vê nesse novo emprego uma chance de se firmar na vida. Mas o emprego é uma chatice e nada criativo, na verdade apenas fazer past up para produção de calendários populares com mulheres nuas. Ao mesmo tempo, começa a flertar com a nova vizinha, Stephanie (Charlotte Gainsbourg). Com a ajuda desajeitada do colega de trabalho Guy (Alain Chabat), tenta conquistá-la, mas sem resultados.
O problema de Stephane é que ela “sonha acordado”, na verdade ele vive em constantes sonhos lúcidos que misturam sonho e realidade, dificultando a interação com as pessoas. Consciente do problema, inicia uma espécie de investigação (a “ciência do sono”, do título original) com direito inclusive a um talk-show onírico onde discorre sobre receitas de sonhos, recebe convidados, tudo na tentativa de descobri um porquê.
A primeira sequência do filme é impagável: o talk-show da Stephane TV, dentro da cabeça do protagonista, onde Stephane apresenta em um estúdio com câmeras de papelão e parede de caixas de ovos. Ele procura encontrar os ingredientes dos sonhos, resultando na fórmula que será base da sua “ciência do sono” que tenta entender e aplicar ao longo do filme:
“Como podem ver, é a combinação de ingredientes complexos. Primeiro, inserimos os pensamentos. Logo, acrescentamos um pouco de reminiscências do dia misturadas a algumas lembranças do passado. De duas pessoas. Amor, amizade, relações, e todos esses tipos, com canções ouvidas durante o dia e coisas que viram. E também, com um toque pessoal... Certo, certo. Acho que já é um... Já funcionou, sim! Sim...”
E vai jogando todos os ingredientes numa panela como um programa de receitas culinárias.
Ao longo da narrativa, quanto mais tenta controlar os sonhos para se adaptarem às exigências da realidade, mais realidade e sonho se confundem, agravando os problemas do protagonista. Entre as suas invenções malucas para entender o porquê dos sonhos e as complexas relações da mente com o encadeamento dos fatos inventa uma máquina de controlar o tempo que antecipa e atrasa alguns segundos da vida e uma técnica de controlar o sono REM com fios fixados nas órbitas dos olhos.
Dentro das cenas dos seus sonhos (engenhosamente elaboradas em animações stop motion com papelão, papel-machê, céus com algodão e água em papel celofane) ele tenta controlar os elementos da fórmula descrita no talk-show da abertura do filme, porém, cada vez menos bem sucedido.
Como vimos em postagens anterioras (veja links abaixo), essa é a ambição da atual agenda tecnognóstica: escanear, mapear e, no final, apresentar uma cartografia e topografia da mente para aplicação prática de controle e a mais fácil inserção de programações, ideias e memes nas mentes. Em referência a esta ambição tecnognóstica, as falas de Stephane são carregadas de termos que lembram física quântica e neurociências: “é simplesmente uma aplicação da teoria do caos”, “Causalidade Paralela Sincronizada”, “vínculo complexo” etc.
Suas invenções são ironizadas pela vizinha Stephanie como, por exemplo, quando o protagonista apresenta óculos para ver tudo em 3-D: “Mas a vida já não é em 3-D?”, pergunta Stephanie diante da inutilidade da invenção.
Freud e os mecanismos de defesa do sono
A originalidade do filme “Sonhando Acordado” está em apresentar um novo viés no confronto Sonho X Realidade, velho tema da história do cinema: tudo sempre gira em torno do choque ou confronto entre as duas esferas e dos mecanismos conspiratórios da Realidade (Estado, Governos, Cientistas etc) mobilizados para dominar e derrotar o mundo onírico. Por exemplo, os filmes de Terry Gilliam (“Brazil, o Filme”, “O Pescador de Ilusões” ou o recente “O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus”) insistentemente abordam esse tema comum, resultando numa abordagem romântica onde o mundo onírico e da imaginação sempre perde no confronto com o mundo frio e cruel da racionalidade.
Ao contrário, “Sonhando Acordado” apresenta a reação dos sonhos onde, através de um engenhoso mecanismo de defesa, vai incorporando os estímulos da realidade exterior até incorporá-la dentro da lógica onírica, conduzindo à vitória final.
Esse “mecanismo de defesa” é a chamada “teoria das sentinelas”, apresentada por Freud na abertura do seu livro “A Interpretação dos Sonhos” e, por muito tempo, ignorado. Desse livro de Freud, o que sempre foi colocado em destaque foi a interpreção simbólica dos sonhos por meio das condensações e deslocamentos. Mas o que primeiro chamou a atenção de Freud foram conteúdos dos sonhos que tinham a ver com elaborados mecanismos de proteção do sono contra fatores perturbadores internos (desde dores de cabeça ou preocupações) ou externos (barulhos de trovões ou sons de relógios despertadores).
Por exemplo, se o despertador toca é muito comum o sonho disfarçar a campainha de alarme, tecendo com ela um história qualquer...Você está na igreja, com os sinos tangendo; ou então num escritório, onde um telefone estridente reclama que o atendam". Dado o estímulo, o sonho cria o cenário, fornece atores e adereços para as cenas, tudo isso extraído das experiências e impressões do dia-a-dia de quem está dormindo. O sono é uma necessidade fisiológica e o sonho tenta protegê-lo.
Parece que Gombry inspirou-se nessa característica dos conteúdos dos sonhos para apresentar a reação do universo onírico frente a invasão da realidade. Como grita, a certa altura do filme, a personagem Stephanie: “Anarquia para os Celofanes!” para defender a supremacia dos sonhos sobre a Realidade. Quanto mais a narrativa avança, os sonhos vão se sobrepondo à realidade, dando uma continuidade onírica a cada evento do mundo real. Quando, por exemplo, Stephanie abre a torneira e sai água em papel celofane. A cada estímulo externo, o mundo onírico responde incorporando-o para dar a continuidade dentro do sonho, até dominar a realidade e o protagonista cair no sono final.
A “ciência do sono” é derrotada na vã esperança de tornar produtivas as relações do protagonista no mundo real (no amor, no trabalho, na família). É a defesa do sonho e do inconsciente frente ao assalto das tecnologias do espírito tecnognósticas. Portanto, ANARQUIA PARA OS CELOFANES!
Ficha técnica
Filme: Sonhando Acordado (La Science dês Rêves)
Direção: Michel Gondry
Roteiro: Michel Gondry
Elenco: Gael Garcia Bernal, Charlotte Gainsbourg, Alain Chabat, Miou-Miou
Produção: Gaumont, France 3 Cinema, Partizan Films
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Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus.
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