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segunda-feira, setembro 17, 2012

Hollywood e a engenharia dos sonhos dos ratos do MIT

Coincidência? A vida imita a arte? Ou simplesmente o cinema hollywoodiano é um instrumento para tornar a agenda tecno-científica atual politicamente aceitável e natural para a sociedade? Uma dupla de pesquisadores do Departamento de neurociências do MIT anunciou em artigo publicado na “Nature Neuroscience” online o sucesso na manipulação do conteúdo de sonhos em ratos. Isso abriria a perspectiva de uma “engenharia dos sonhos”: o controle amplo das memórias através de bloqueios, seleção ou alteração. Isso faz lembrar uma série de filmes cujos roteiristas anteciparam ou simplesmente replicaram essa agenda de início do século: “Quero Ser John Malkovich”, “Vanilla Sky”, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, “Ciência dos Sonhos”, entre outros.

Foi publicado neste mês um artigo de Matthew Wilson e Daniel Bendor na edição on line da “Nature Neuroscience” intitulado “Biasing the Content of Hippocampal Reply During Sleep” (leia aqui o artigo). Os autores são, respectivamente, professor do Departamento de Neurociências e pesquisador do Instituto de Aprendizagem e Memória do MIT (Massachusetts Institute of Technology – EUA). No artigo descrevem o sucesso na manipulação dos conteúdos de sonhos de um rato. Segundo eles, a descoberta reforçaria a nossa compreensão de como a memória se consolida durante o sono, produzindo a perspectiva da criação de uma espécie de “engenharia do sonho”.

O cientista explorou a forma como o hipocampo do cérebro codifica os eventos na memória. A equipe de Wilson e Bendor treinou um grupo de ratos a percorrer um labirinto usando duas diferentes orientações sonoras, ao mesmo tempo em que eram gravadas as atividades neurais. Mais tarde, quando os ratos estavam dormindo, os pesquisadores registraram a mesma atividade neural (os ratos sonhavam com as atividades no labirinto do dia anterior). Os mesmos sinais sonoros de orientação foram tocados, quando os pesquisadores perceberam algo interessante: os ratos sonhavam com a mesma seção do labirinto correspondente ao sinal que era tocado.

Olhando para o futuro, os pesquisadores acreditam que este exemplo simples de “engenharia sonho” poderia abrir a possibilidade de um controle mais amplo do processamento da memória durante o sono - e até mesmo a noção de que as memórias podem ser selecionadas ou reforçadas, bloqueadas ou alteradas. Wilson e Bendor também apontaram para a possibilidade de se desenvolver novas abordagens à aprendizagem e à terapia comportamental através de tipos semelhantes de manipulação cognitiva.

terça-feira, julho 03, 2012

Filme "Eva": o que você vê quando fecha os olhos?

A chamada “senha sagrada”, a pergunta “o que você vê quando fecha os olhos?”, é uma bomba lógica e fatal para os robôs no filme espanhol “Eva” (2011), usada em situações extremas quando o robô deve ser imediatamente “desligado”. Com temática semelhante a “I.A.” (2001) de Spielberg, o diretor Kike Maíllo evitou os clichês dos mundos sombrios, pós-apocalípticos e distópicos para colocar a questão em um futuro próximo ao focar os robôs dentro do problema central da inteligência artificial: a lógica linear e binária dos robôs não consegue entender os paradoxos lógicos como o que está contido nessa pergunta fatal. Sem vida interior os robôs somente enxergam a escuridão. Isso até tentarem fazer um robô especial que seja capaz de ver a Luz da consciência, mas com perversas consequências. Filme sugerido pelo nosso leitor Fábio Hofnik.

“EVA” é um desses filmes difíceis de serem resenhados porque qualquer coisa que se escreva sobre ele corre o risco de transformar-se em um grande spoiler, matando a graça da narrativa. Isso porque o filme consegue realizar uma coisa que é o sonho de todo roteirista: uma narrativa bem amarrada a partir de um gancho perfeito. No caso de “Eva” o gancho é uma pergunta denominada por um dos personagens como “a senha sagrada”: “O que você vê quando fecha os olhos?” Uma pergunta que somente pode ser formulada a um robô em casos extremos, quando não resta outra alternativa. Em quais casos extremos? Quando robôs irremediavelmente se danificam, algumas vezes a ponto de ameaçarem seres humanos. Ao ouvir a pergunta, o robô imediatamente entra em colapso e desliga.

Em um futuro bem próximo, Alex Garel (Daniel Brühl – “Adeus Lênin” e “Bastardos Inglórios”) é um famoso programador de robôs que retorna à sua cidade natal dez anos depois para reencontrar sua antiga Universidade de Robótica e seu amor Lana (Marta Etura), pesquisadora e professora da Universidade, mãe de uma menina chamada Eva. Agora casada com o irmão de Alex (David Garel – Alberto Ammann), cria-se um triângulo amoroso que irá se tornar no tenso pano de fundo do projeto que envolverá todos: a criação de uma nova linha de robôs livres e autônomos.

Em busca de uma personalidade infantil ideal para servir de modelo para desenhar um inédito programa de personalidade para esse novo robô, Alex encontra na menina Eva a criança perfeita: inteligente, perspicaz e criativa.

quinta-feira, junho 14, 2012

Uma Disneylândia mortal no filme "Westworld"

Uma Disneylândia hightech para adultos milionários onde todos podem realizar suas fantasias de sexo e violência. Reproduções de mundos do passado habitados por ciborgues programados para serem assassinados ou seduzidos. Do mesmo autor do  livro "Jurassic Park", o filme "Westworld - Onde Ningém Tem Alma" (1973) de Michael Crichton parece prenunciar a necessidade ideológica de um mundo onde os parques temáticos esconderiam a infantilidade que já estaria em toda parte. Coincidentemente, esse clássico surge dois anos depois da inauguração da Walt Disney World nos EUA e do "Nixon Shock", conjunto de decisões do então presidente que criaram as bases da transformação do mundo financeiro em um verdadeiro cassino.

Imagine uma Disneylândia para adultos onde cada mulher e cada homem pudesse viver suas fantasias ao salgado preço de mil dólares por dia. Isso é Délos, o estado da arte dos parques temáticos onde todos podem viver suas fantasias em três mundos: o Romano, o Medieval e o “Westworld”, um mundo que reproduz o velho Oeste da fronteira dos EUA. Todos esses mundos são habitados por ciborgues armados com revólveres ou espadas, mas programados para perder em duelos ou serem seduzidos pelos visitantes.

“Westworld”, onde nada pode dar errado... exceto quando uma estranha forma viral de erro na programação das máquinas começa a produzir disfunções generalizadas no parque e, gradualmente, os ciborgues começam a adquirir autonomia e passam a se vingar dos milionários turistas. Todos liderados por um insólito Yul Brynner robótico que revive seu famoso personagem pistoleiro do filme “Sete Homens e Um Destino” (1960) e que persegue obsessivamente um dos turistas com sede de vingança.

quinta-feira, maio 31, 2012

Vídeo "Paranoia Tecnológica"

O que aconteceria se, de repente, todos os equipamentos de comunicação de sua casa deixassem de funcionar: celulares, computador, notebook, Ipads, Iphones e assim por diante? Provavelmente, o usuário rotineiro desses dispositivos de comunicação seria tomado pela ansiedade, medo, sensação de vazio e, por fim, a paranoia. Esse é o tema do curta “Paranoia Tecnológica”, de Gabriela Pagliuca, aluna do curso de Jornalismo. O vídeo fez parte do trabalho de conclusão da disciplina Estudos da Semiótica que leciono no curso da Escola de Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (UAM/São Paulo) cujo tema era “Obsolescência Planejada”


A narrativa do curta procurou traduzir em imagens algumas ideias discutidas em torno das relações cada vez mais fetichistas que temos com os gadgets tecnológicos: investir os objetos tecnológicos de um valor imaginário onde eles teriam o poder, por si só, de criar uma comunhão ou relacionamentos da mesma magnitude das relações face-a-face. O poder do modem, a velocidade da conexão, a atualização dos aplicativos ou a alta performance da placa de vídeo ou do processador seriam investidos de um valor fetichista onde a potência tecnológico seria igual à possibilidade de produzir gratificação, afetos e reconhecimento.

Com a obsolescência acelerada e planejada pelos fabricantes desses gadgets, a necessidade pelo consumo de cada “novo” aplicativo, atualização ou simples descarte do que já possui torna-se um imperativo que se transforma numa espécie de imposição moral: você sente-se culpado se estiver desatualizado.

O que acaba produzindo uma relação de vício e compulsão semelhante à dependência química tal como revelado por pesquisa recente pela Universidade de Maryland, EUA , sobre os sintomas dos usuários em situações de privação de tencologias de comunicação  ou a pesquisa da Universidade de Bergen, Noruega, sobre a chamada “Escala de Vício pelo Facebook” (sobre isso veja a postagem anterior nos links abaixo).

Confira o vídeo a seguir:

domingo, abril 29, 2012

Somos todos Estrangeiros no filme "O Homem Que Caiu na Terra"

Um filme desafiador, abstrato e místico de uma época em que diretores idiossincráticos procuravam fazer grandes filmes. “O Homem Que Caiu na Terra” (The Man Who Fell To Earth, 1976) do diretor Nicolas Roeg estrelado por David Bowie é o ápice de uma cena pop onde grandes bandas de rock como Van Der Graaf Generator, Genesis e King Crimson (e o próprio Bowie de personagens musicais como Star Man e Ziggy Stardust) construíam longas suítes místicas e de inspiração ocultista, que expressavam a condição humana do “Estrangeiro”: tal como o protagonista no filme, o homem sente-se nesse mundo como um exilado, um alien que sonha em retornar para o seu verdadeiro lar, mas é desviado dos seus propósitos por meio do poder entorpecedor da TV e do gin.

O personagem do Estrangeiro é um dos temas arquetípicos da nova mitologia pop a partir do pós-guerra: Rebeldes sem causa, “heroin heroes”, punks gritando “no future”, ácido e música techno em “raves” associadas ao “trance” (transe) com conotações espiritualista ou “new age” são representações midiáticas dessa sensação de alienação, estranhamento e deslocamento em relação ao país, família e amigos.

O Estrangeiro é aquele que não se sente em casa em lugar algum. Procura sempre esquecer o seu passado, sua história, o que é. Passa a maior parte do tempo em silêncio, fechado no seu drama, tenso, crispado. Quieto observa o mundo cair em pedaços. 

Esse verdadeiro arquétipo contemporâneo é o núcleo espiritual de toda tendência midiática que explora a melancolia adolescente nas mais variadas tendências em moda, comportamento, filmes e videoclipes: dark, punk, gótico, emo etc.

A cultura pop e o rock’roll irão celebrizar o personagem do estrangeiro, tornando-o o motor da criatividade poética que destila desde as dores do amor incompreendido até o sentimento de estranhamento em um mundo frio e cruel. Dos rebeldes sem causa da década de 1950 aos rebeldes com causas políticas dos anos 1960, o centro espiritual é o mal estar do jovem em uma sociedade que prolonga a adolescência o máximo possível por causa de um mercado de trabalho que não consegue absorver a todos rapidamente. O resultado é um jovem que não é criança e nem adulto, à margem e alheio aos controles sociais.

Mas é na década de 1970 que esse sentimento de estrangeiro ganha suas expressões mais refinadas na cultura pop quando o rock começa a se inspirar no ocultismo e misticismo para criar letras, músicas e marcantes álbuns conceituais. Compositores como Peter Hammil do Van Der Graaf Generator (longas suítes místicas como em “The Plague of the Lighthouse Keepers” onde o homem é comparado a um guardião de um farol perdido no fim do mundo) ou a longa composição de Peter Gabriel do Genesis chamada “Supper is Ready” (todo um lado de um LP) sobre a eterna luta espiritual entre o Bem e o Mal.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

A "Religião das Máquinas" no Filme "13° Andar"

O sucesso de crítica e de público de “Matrix” (1999) acabou, à época, eclipsando o filme “13° Andar” (The Thirteenth Floor, 1999) , considerado muito superior. Embora guardassem aspirações bastante similares (discutir a condição humana diante das tecnologias de simulação e virtualização), “13° Andar” substituiu a profusão de referências e diálogos filosóficos de “Matrix” (uma estratégia desesperada para justificar lutas marciais, ação e bullet-times) por uma narrativa que por si mesma instigava essas questões filosóficas. Porém, ambos os filmes se tornaram documentos do imaginário tecnocientífico dominante no final de século XX onde associava a tecnologia computacional com uma motivação mística por transcendência espiritual, uma verdadeira “religião das máquinas”.

Se o historiador francês Marc Ferro estiver correto, todo filme é uma representação da sensibilidade ou do imaginário de determinada época, tornando, especialmente o cinema de ficção, um excelente caminho para a história psicossocial, nunca atingida pela análise de outros tipos de documentos (Veja FERRO, Marc. Cinema e História, São Paulo: Paz e Terra, 1992.

No final da década de 1990, dois filmes marcaram o ápice de um ciber-imaginário marcado pelo crescimento especulativo da Internet, tecnologias computacionais e realidade virtual: “Matrix” e o “13° Andar”, ambos lançados em 1999.

A partir do lançamento bombástico do Windows 95 toda a imprensa especializada e produções acadêmicas foram tomadas por duas tendências distintas: primeiro, pelo espírito messiânico que via nas tecnologias virtuais o potencial para revolucionar a economia real e, ao mesmo tempo, o crescimento das técnicas motivacionais ou de auto-ajuda explicitamente baseados em modelos computacionais (o cérebro e o próprio Self como um software reprogramável). E, segundo, o espírito distópico que via na virtualização do real uma armadilha na qual a humanidade cairia ao esquecer as demandas da realidade.

Porém, essas duas visões distintas guardavam algo em comum: o ciber-misticismo. Os filmes “Matrix” e o “13° Andar” representaram essa síntese de final de século ao unir através do cibermisticismo esses dois enfoques opostos dos mundos tecno-empresarial e acadêmico. Ambos os filmes aproximam tecnociência e misticismo ao apresentarem a tecnologia computacional como mediação possível para a transcendência espiritual.

quarta-feira, agosto 24, 2011

Filmes que Escaneiam a Mente e a Nova Engenharia Social

Filmes e jogos controlados diretamente pelas ondas cerebrais do usuário através da nova plataforma de mídia interativa "Myndplay". A realidade supera a ficção: enquanto você se diverte um scanner realiza uma cartografia mental para que o usuário faça o controle das suas própria emoções. Forma de engenharia social onde comportamentos e atitudes desejáveis para Organizações e Indústria do entretenimento serão reforçados através da intervenção direta em determinadas regiões do cérebro .

O cientista político canadense Arthur Kroker conta uma irônica experiência em ciber-sexo de um jovem hacker americano em Berlin.  Ele e um colega francês criaram um traje especial para o corpo imergir numa experiência de sexo à distância. Uma perfeita máquina de ciber-sexo que possibilitaria uma relação sexual virtual entre Paris e Berlin. O experimento foi divulgado e atraiu uma multidão nas duas cidades. Pessoas vetorizando seus corpos, supostamente sentindo toques e penetrações de seus parceiros remotos como fossem experiências presenciais.

Mas algo curioso aconteceu. Ao final do segundo dia um ciber-parceiro de Paris mandou uma mensagem dizendo que estava tendo um problema com os códigos: uma falha na programação estava fazendo o programa funcionar em “loop”, em um feedback fechado. O que significava que em dado momento o usuário não estava mais fazendo sexo com algum parceiro remoto, mas com suas próprias sensações digitalizadas em “looping”. E os participantes estavam adorando! Em síntese, a experiência europeia de ciber-sexo converteu-se em um evento autístico, uma ciber-masturbação (Veja KROKER, Arthur. Hacking the Future. New York: St. Martin Press, 1996)

Essa experiência bizarra foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao ler a notícia dos “filmes que escaneiam a mente” (clique aqui para ler a notícia). Na verdade, uma nova plataforma de mídia, a Myndplay, cuja tecnologia incorporara um scanner cerebral à experiência cinematográfica de forma que, de acordo com o estado emocional do espectador, narrativa do filme acaba sendo alterada. Dependendo de quão tenso ou relaxado o espectador estiver, através de sensores de eletroencefalograma o espectador instantaneamente interfere nos pontos interativos da narrativa.

segunda-feira, junho 20, 2011

A Disneyficação da Realidade no filme "Substitutos"


Através da ironia, o filme "Substitutos" (Surrogates, 2009) representa todo um submundo da cultura pop onde, do suicído à virtualização humana, o paradigma é o mesmo: a neutralização ou simplesmente a eliminação do fator humano por andróides ou mundos virtuais como forma de salvar o próprio planeta. Em outras palavras, despachar o homem para mundos virtuais enquanto a realidade é "disneyficada".

Em uma sequência do filme “MIB-Homens de Preto” (Men in Black, 1997) o agente Kevin (Tommy Lee Jones) introduz o novato agente James (Will Smith) na organização governamental MIB que controla as atividades de extraterrestres no planeta Terra. Kevin para diante de uma banca de jornais e começa a folhear tabloides com bizarras manchetes sensacionalistas. “Vamos ver os últimos relatórios”, diz Kevin.  Percebendo a estranheza de James, Kevin responde: “são as melhores fontes do planeta... às vezes também se encontra algo no New York Times”, reponde para um perplexo James que não entende como uma complexa agência governamental procure pistas em tabloides populares.

Dentro dessa espécie de “zub-zeitgeist” da cultura (representado por toda uma literatura de HQs, magazines, pulp fictions e gêneros fílmicos como sci-fi, horror e fantasia e seitas religiosas e tablóides) encontramos uma bizarra seita religiosa de Boston, EUA, chamada Church of Euthanasia. Seu lema é “Salve o Planeta, mate-se”. Suicídio, aborto, canibalismo e sodomia seriam as únicas formas de salvar o planeta do desastre ecológico ao evitar a procriação da raça humana, considerada o verdadeiro parasita da Terra.

Fundada em Massachusetts, a Igreja se define como “uma organização sem finalidade lucrativa devotada a restaurar o equilíbrio entre humanos e as espécies remanescentes sobre a Terra”. A Igreja ganhou a atenção da opinião pública ao publicar em seu web site instruções de “como matar-se por asfixia e gás helio”. As páginas foram retiradas do ar logo após uma mulher de 52 anos se matar seguindo as instruções, o que resultou em ações legais contra a igreja.

Tudo muito bizarro, mas se começarmos a seguir o método de investigação do agente Kevin descrito acima, veremos que toda essa espécie de submundo da cultura pop contemporânea reflete (de uma forma hiperbólica ou distorcida) algo de mais sério e real: uma agenda tecnocientífica contemporânea ou, para a nomenclatura desse humilde blog, uma “agenda tecnognóstica”.

sexta-feira, abril 22, 2011

O "Efeito Zumbi": fármaco-conservadorismo na chamada "Geração Y"?

Banalização do consumo de antidepressivos e inibidores de apetite estaria criando uma nova forma de conservadorismo: o fármaco-consevadorismo? O chamado "efeito zumbi" (efeito colateral desses medicamentos caracterizado pelo mix de euforia, apatia, perda da capacidade crítica e sensação de irrealidade) estaria criando indivíduos meramente replicadores de clichês conservadores nas redes sociais?  


Com a experiência de usuária assídua de redes sociais na Internet, minha esposa Tatiane fez recentemente uma interessante constatação e levantou uma hipótese. Primeiro a constatação: a crescente banalização do consumo de medicamentos antidepressivos e inibidores de apetites entre jovens na faixa dos 20 anos. Nas redes sociais trocam-se informações e experiências sobre estes medicamentos como se trocassem receitas culinárias ou links de vídeos do Youtube.
Ao mesmo tempo, Tatiane tem observado nessa faixa etária um mix de conformismo e apatia em relação aos problemas políticos ou do dia-a-dia (trânsito, enchentes, violência etc) combinado com conservadorismo político e moral.
Agora a hipótese: seria esse mix de apatia e conservadorismo uma decorrência de um chamado “efeito zumbi” desses medicamentos? Explicando melhor, sabendo que os efeitos comportamentais desses medicamentos vão desde a euforia até sonolência e sedação, isso não afetaria as avaliações cotidianas do indivíduo resultando em perda da capacidade crítica, incapacidade de se indignar e apatia gerando um novo tipo de “conservadorismo” baseado na mera replicação de clichês políticos conservadores e até de direita ? Estaríamos diante de um novo fenômeno de, por assim dizer, “fármaco-conservadorismo”?
Pesquisadores como o psicanalista francês Christophe Dejour e o historiador norte-americano Richard Sennett constataram que os problemas psíquicos como depressão, esquizofrenia, ansiedade são sintomas não apenas decorrentes da “vida moderna nas grandes cidades”, mas de um específico tipo de moderna organização do trabalho de empresas dos setores financeiros e de serviços.
Indo mais além na hipótese descrita acima, sabendo-se que o Estado de São Paulo (o estado onde é mais presente a tendência da des-industralização pela expansão dos setores financeiros e de serviços) é, atualmente, um dos estados de maior conservadorismo político (a perpetuação dos governos tucanos por 20 anos seria um exemplo), poderíamos estabelecer uma relação de causalidade entre o fármaco-conservadorismo e o conservadorismo político?
Hipótese meramente paranoica e conspiratória? Ou estaríamos diante de um novo conservadorismo das classes médias, desta vez não mais explicada por instâncias ideológicas, morais ou religiosas, mas, agora, resultante de uma fármaco intervenção que resulta em controle (intencional ou efeito colateral) comportamental e psíquico?
Vamos reunir algumas informações que talvez ajudem a corroborar com essa hipótese.

domingo, abril 03, 2011

Para Cada documentário como “Trabalho Interno”, Hollywood responde com vários “Sem Limites”

O filme “Sem Limites” (Limitless, 2011) a princípio representa uma reação ideológica à tendência de documentários críticos à financeirização global trazida pelo modelo neoliberal ao narrar a estória de um protagonista “neuro-yuppie” (legítimo representante da chamada “Geração Y) que vê seu cérebro turbinado por “smart pills” e enriquece no mercado financeiro. Um novo modelo de self made man, não mais legitimado por modelos éticos ou morais protestantes, mas, agora, fundamentado no paradigma neurocientífico.

Eddie Morra (Bradley Cooper) quer ser um escritor, mas nunca consegue começar seu livro. Vive maltrapilho em um pequeno apartamento sujo e empilhado de lixo. Enquanto isso, sua ex-esposa (Lindy, Abbie Cornish) é bem sucedida e recentemente promovida ao cargo de editora. Seu cotidiano se arrasta entre bares, ruas e a tela de seu laptop para a qual olha sem conseguir iniciar a primeira linha de seu livro. Um “looser”.   Até que um dia encontra nas ruas Vernon (Johnny Whitworth), seu ex-cunhado, que lhe apresenta uma nova droga chamada NZT, capaz de fazer seu usuário ter acesso a 100% das informações do cérebro, indo além dos 20% da média das pessoas.

Após experimentar a droga e ter uma experiência extra-corpórea, tudo na sua mente fica claro e limpo. A matiz da fotografia do filme adquire um tom avermelhado, o ritmo de Eddie fica frenético e é capaz de escreve um livro em quatro dias e aprender línguas em poucas horas. Acessando qualquer fragmento de informação no seu cérebro, é capaz de aprender qualquer coisa e adquirir habilidades que antes ignorava que pudesse ter. Por exemplo, é capaz de em poucos segundos aprender golpes de luta marcial apenas em relembrar imagens fragmentadas dos filmes de Bruce Lee dos anos 70.

Torna-se um mega-cérebro anabolizado, um super-homem da era da informação. Se no livro no qual se baseia o filme (“Dark Fields” de Allan Glyn) temos uma irônica reflexão de uma mudança cultural americana em um país onde figuras como Bill Gates e Steve Jobs são celebradas como novos heróis, o mesmo não acontece na adaptação de “Sem Limites”: o tom torna-se apologético, um elogio às “smart pills” e a toda cultura terapêutica onde o aprimoramento pessoal se baseia na fármaco dependência (prozacs, valiums etc.).

segunda-feira, março 07, 2011

Documentário “O Século do Ego”: cartografias da mente de um sujeito fractal

Documentário da BBC "The Century of the Self" (2002) descreve a irônica jornada de como a revolução de psicoterapeutas e filósofos nos anos 60 e 70 contra as idéias de Freud sobre o inconsciente (acusadas de terem se tornado instrumentos do mundo do Markenting, Publicidade e Propaganda Política para fins de manipulação) resultou no oposto: o surgimento do sujeito fractal, vulnerável, isolado e, acima de tudo, ganancioso.

Em postagens anterioras (veja links abaixo) viemos desenvolvendo o conceito de cartografia e topografia da mente como uma tendência dentro da agenda tecnognóstica que, a partir da confluência das neurociências, ciências cognitivas, cibernética e Inteligência Artificial, procura fazer um mapeamento do funcionamento do cérebro para desvendar o enigma da mente e da consciência. Em termos práticos, criar modelos simulados do cérebro para sua virtualização, monitoramento e controle para fins mercadológicos e políticos.

Partindo da constatação que o cinema hollywoodiano reflete a agenda tecnocientífica das últimas décadas, em nossos estudos sobre os filmes gnósticos na produção cinematográfica norte-americana recente percebemos uma tendência introspectiva dos protagonistas: narrativas em que se descreve como o protagonista torna-se prisioneiro do seu próprio mundo mental (memórias, traumas, sonhos, projeções, etc.) e como ele realiza um mapeamento desse território onírico para encontrar o caminho de saída de conspirações e tramas.

De filmes como “Vanilla Sky” (talvez o primeiro nessa linha) até o recente “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton, vemos estórias com geografias alegóricas de mundos mentais, cartografias da mente coletiva (como a série “O Prisioneiro”, 2009) e elaboradas topografias da mente por meio de sonhos dentro de sonhos ("A Origem", 2010).

Tendo essa discussão como contexto, o documentário da BBC  “O Século do Ego” (The Century of the Self, 2002) trás preciosas informações históricas sobre as origens desse verdadeira tendência de endocolonização dos indivíduos pela Ciência, Publicidade e Marketing. A série é dividida em quatro episódios: episódio 1: “Máquinas da Felicidade”; episódio 2: “Engenharia do Consenso”; episódio 3: “Há um Policial Dentro da Sua Cabeça e Devemos Destruí-lo”; episódio 4: “Oito Pessoas Bebericando Vinho em Kettering”.

A série (240 minutos no total) inicia descrevendo como as ideias de Freud foram traduzidas nos EUA através de sua filha, Anna Freud, e pelo seu sobrinho, Edward Bernays (o inventor da profissão de Relações Públicas) como técnicas para controle das massas na era da democracia: a teoria do inconsciente trazida para o cerne do mundo da propaganda e do marketing. É a era da produção em massa e do conformismo em uma sociedade de consumo cujo leque de opções para o mercado era limitado.

sábado, fevereiro 19, 2011

O Álibi Sci-fi Retro do Projeto MARS500: os objetivos bem terrestres de uma missão espacial

Para além do álibi sci-fi retro (viagens tripuladas a Marte), na verdade o Projeto MARS500 atende indiretamente a dois objetivos: agenda tecnognóstica do assalto à mente e consciência humanas e, segundo, o reforço da mitologia sobrevivencialista dos reality shows. 

Depois de uma viagem de oito meses, no dia 14 de fevereiro desse ano o russo Alexandr Smoleevsky, o italiano Diego Urbina e o chinês Wang Yue finalmente pousaram na superfície de Marte às 13h00, horário de Moscou, e deram os primeiros passos no terreno marciano. Após essa saída do módulo de serviço, eles irão se aventurar mais duas vezes pela superfície do planeta: dias 18 e 22 de fevereiro.

É o ponto alto do projeto MARS500 patrocinado pela ESA (Agência Espacial Européia) em parceria com o Instituto de Problemas Biomédicas de Moscou. Apenas um detalhe: tudo faz parte de um projeto que pretende simular uma viagem a Marte, lançado no primeiro semestre de 2009. Composta por uma tripulação de seis pessoas (três russos, um italiano, um chinês e um francês), toda a missão ocorre no interior de uma instalação de 500 metros cúbicos no Instituto de Problemas Biomédicos onde, desde junho de 2010, os seis homens estão confinados. O plano é que fiquem dentro dessa nave simulada até novembro de 2011.

O objetivo do programa MARS500 é estudar os efeitos mentais, psicológicos e físicos em um grupo que, numa viagem real a Marte, ficaria encerrado por longos meses em alojamentos compactos. O programa limita-se unicamente ao estudo desses efeitos, já que, na superfície da Terra é impossível simular a gravidade zero (a não ser por breves momentos).


quinta-feira, fevereiro 03, 2011

A Mídia e os Cientistas "Cavalo de Tróia"

Quem não conhece a origem da expressão “cavalo de Tróia”? Diz a narrativa lendária que as legiões gregas deixaram o artefato de madeira oco, abrigando soldados gregos em seu ventre, junto às muralhas de Tróia. Os troianos acreditaram ser um presente dos gregos como sinal de rendição. Durante a noite os gregos deixaram o artefato e abriram os portões da cidade, que foi facilmente invadida, incendiada e destruída.

Atualmente essa expressão é famosa pela associação com códigos maliciosos (“worms”) que infestam computadores. 


Mas também podemos aplicar essa expressão “cavalo de Tróia” a um recorrente fenômeno do encontro entre a ciência e a mída. Mais precisamente, a exposição de cientistas na mídia onde expressam seus posicionamentos políticos “progressistas” ou “de esquerda”. Pela sua projeção midiática, passam a ser celebrados pela a intelectualidade e simpatizantes dessa ala política. Alguns passam a ser mais conhecidos pelas suas declarações políticas do que pela pesquisa cientifífica. Mas há algo contraditório: apesar dos posicionamentos midiáticos progressistas, os fundamentos das suas pesquisas científicas são conservadores, para não dizer reacionários em alguns casos.

quarta-feira, janeiro 26, 2011

Jaron Lanier e a Religião das Máquinas do Vale do Silício

Para o cientista de computadores Jaron Lanier, criador do conceito de "Realidade Virtual", uma nova religião criada a partir da cultura da engenharia computacional seria a idéia corrente no Vale do Silício, Califórnia, e princípio orientador para a criação da Inteligência Artificial e Internet. Para Lanier seria a criação de um dogma digital: o "computacionismo" ou o "totalitarismo cibernético".

Sempre nos telejornais aparecem notícias pitorescas sobre os últimos desenvolvimentos em Inteligência Artificial (IA): máquinas que sorriem, um programa que pode prever os gostos humanos musicais, robôs que ensinam línguas estrangeiras para crianças etc. Este fluxo constante de histórias nos sugere que as máquinas estão se tornando cada vez mais inteligentes e autônomas? Devemos considerá-las criaturas ao invés de ferramentas?

Não na opinião do cientista de computadores Jaron Lanier. Para ele, isso está não só alterando a maneira como pensamos os computadores. Também está alterando de forma errada os pressupostos de como pensamos nossas vidas: a criação de um dogma digital com o seu credo – o “computacionismo” ou “totalitarismo cibernético” – uma religião das máquinas que, ao encarar os computadores como criaturas, inversamente passamos a interpretar a mente e a consciência como fossem um computador. E o centro dessa nova religião com os seus messias está no Vale do Silício, Califórnia.


sexta-feira, janeiro 21, 2011

Do Projeto Biosfera 2 ao reality show "Big Brother": a Ecologia Maléfica

O que há em comum entre o fracasso científico do Projeto Biosfera 2 em 1991 e o atual sucesso do gênero reality show? A ecologia maléfica. Das baratas e ervas daninhas que destruíram o Biosfera 2   à crueldade, preconceito e violência dos reality shows, ambos mantêm um vínculo secreto: a prospecção da mente e da consciência.

Em 26 de setembro de 1991 quatro homens e quatro mulheres entraram numa gigantesca estrutura geodésica de vidro e metal com 12.000 metros quadrados, em Tucson, Arizona, em pleno deserto, para ali ficarem trancafiados por dois anos. Era o projeto Biosfera 2, abrigando 3.800 espécies animais e vegetais e simulações dos cinco principais biomas do planeta Terra , com o propósito de entender como a biosfera planetária funciona e como o ser humano interage com os ecossistemas. Foram monitorados por dois mil sensores eletrônicos e assistidos por 600 mil pagantes em todo o mundo.

Alguns meses depois, em 15 de fevereiro de 1992 sete jovens entre 18 e 25 anos entraram no prédio 565 da Broadway Street, em Nova York, para ali permanecerem por três meses com diversas câmeras acompanhando suas vidas e seus relacionamentos. Era o início daquele que é considerado o primeiro Reality Show da TV mundial, o “The Real World” (Na Real) da MTV norte-americana.

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