sexta-feira, outubro 08, 2010

Filme "Os Famosos e os Duendes da Morte": a Ponte para a Gnose

Esse filme é uma das raras incursões da produção do cinema nacional no imaginário arquetípico gnóstico. A narrativa bebe nas águas basilidianas ao caracterizar o protagonista como o Viajante que através do silêncio, melancolia e introversão busca o estado alterado de consciência da suspensão: a busca de uma ponte (simbólica e literal) entre esse mundo e a iluminação.

- As vezes eu tenho nojo de mim. Queria que tudo acabasse de uma vez!
- Como? A ponte? (diálogo do protagonista no MSN)


Em uma cidadezinha gaúcha habitada por descendentes alemães vive um jovem absolutamente deslocado, melancólico, a maior parte do tempo em silêncio. Fugindo do cotidiano entediante do lugarejo, o garoto se enclausura no seu quarto onde se conecta com o mundo exterior por meio da internet, sob o codinome de Mr. Tambourine Man. Como na música, ele é influenciado pela melancolia das canções de Bob Dylan. Tenta expressar seu descontentamento com a vida por meio de contatos virtuais. Incapaz de expressar suas angústias para a sua mãe viúva e para os amigos, tem as ferramentas da internet como uma opção existencial.

Mas um mistério assombra a narrativa. Entre seus sonhos, devaneios e alucinações ronda a imagem de uma garota (que na internet assina como Jingle Jangle, outra referência a Bob Dylan), tal qual um fantasma. Com a chegada de um homem misterioso que retorna à cidade após um acidente há anos atrás, a atmosfera do filme passa a beirar o realismo fantástico. Alucinações e realidade começam a se misturar. Tudo parece girar e convergir para a ponte de ferro da cidade, o elemento emblemático da narrativa: local não só de uma série de suicídios que ocorrem no vilarejo como, também, peça-chave do simbolismo final ao qual o filme pretende chegar.

“Os Famosos e os Duendes da Morte”, o primeiro longa-metragem de Esmir Filho (diretor de curtas como o famoso hit da Internet “Tapa na Pantera”), inspirado no romance de Ismael Canepele (“Música para Quando as Luzes se Apagam”) é mais do que um drama intimista adolescente que tenta emular tramas como as do filme "Paranoid Park" de Gus Van San. Mais além, “Os Famosos...” é mais um exemplo de como o cinema apresenta as formas de constituição da subjetividade contemporânea por meio de recorrentes personagens míticos da tradição do gnosticismo. Uma tradição que parasita literatura e cultura, garantindo as constantes ressurgências dos elementos gnósticos ao longo da história.

Em postagens anterioras (veja links abaixo) descrevemos que os personagens fílmicos do cinema contemporâneo parecem se constituir em torno sempre de três tipos de protagonistas arquetípicos: o Detetive, o Viajante e o Estrangeiro. Uma sensação atravessa esses três personagens: prisioneiros dentro de um cosmos hostil, estrangeiros dentro do seu próprio país, um mal estar que perpassa toda a experiência humana como uma estranha sensação de deslocamento, de não fazer parte de uma totalidade, pressentida como corrompida e inautêntica.

O protagonista adolescente de “Os Famosos...” é o arquétipo do Viajante, cuja subjetividade é marcada pelo silêncio, melancolia e Jogo. Ele não entre em confronto ou choque violento, apenas observa tudo em um estado de suspensão (para o pensador gnóstico Basilides,filósofo gnóstico do início da era cristã, importante estado alterado de consciência capaz de fazer o indivíduo alcançar a suspensão de todo o pensamento, o grau zero da linguagem, para, então, se alcançar a iluminação e Deus – a gnose).

Sua introversão e silêncio são extravasados pelas suas incursões pela Internet (Jogo, no sentido lúdico). O jogo faz o protagonista criar uma interzona entre ficção e realidade, criando o desejado estado de suspensão, em torno da qual gira toda a experiência sinestésica que o filme quer criar para o espectador: um relato sensorial marcado pela fotografia que quer marcar texturas e formas fluidas com muita contra-luz, cores estouradas e a alta definição de imagens como a dos dedos sujos que tocam a pela alva de Jingle Jangle ou os belíssimos takes dos seus cabelos finos ao vento, sob a luz do sol, na ponte.

Sempre a ponte de ferro, o grande simbolismo que caracteriza o protagonista o Viajante nesse filme. Estar no meio da ponte (imagem recorrente no filme) é o estado de suspensão. De lá, muitos do vilarejo saltam para a morte. Tal como em filmes como "Vanilla Sky" (2002) e "Vidas em Jogo" (The Game, 1997), o salto para o vazio é mais uma representação imagética desse estado de suspensão que busca a gnose, o “salto de fé”, mesmo sabendo, como diz o jovem protagonista, que nada existe depois.

Numa das sequências que se aproxima do final, o protagonista está no carro com o “estranho” que retornou à cidade, para dar “umas bandas” e não ter que ir para a chata feste junina da cidadezinha. Eles atravessam a ponte. A sequência é propositalmente alongada, dando a impressão falsa de erro de continuidade. O “estranho” é aquele que, no passado, teve um trágico envolvimento com Jingle Jangle. O protagonista tem um inexplicável fascínio por ele que o conduz através da ponte. Com esse proposital erro de continuidade, a narrativa sublinha ainda mais o estado de suspensão do protagonista. Ele, ansiosamente, busca uma “saída” (como diz o estranho forasteiro, falando sobre o que ele também buscava quando mais jovem) de toda aquela sensação (“Às vezes tenho nojo de mim. Queria que tudo acabasse de uma vez!”, digita no MSN o protagonista em certa altura da estória).

Sua “saída” está na ponte de ferro, para onde vai caminhar na sequência de significado aberto que encerra o filme.

“Os Famosos e os Duendes da Morte” é um dos raros filmes brasileiros a fazer uma incursão por narrativas místicas gnósticas. Diferente dos filmes gnósticos norte-americanos como "Show de Truman", "Vanilla Sky", "A Passagem" etc. onde temos roteiros que buscam uma espécie de gnosticismo pop para as massas, aqui temos um gnosticismo Cult.

A mão pesada da direção parece querer encher de simbolismos todos os vazios dos enquadramentos do filme. Tal como em filmes como O Fabuloso Destino de Amelie Poulin, parece que, em cada elemento do plano, o diretor que colocar aqui e ali detalhes para que o espectador busque simbolismos. Esta estilização extrema muitas vezes dá um quê de artificialismo, como se o filme pretendesse vir às telas desde o início como “Cult”.

Erik Wilson (“The Secret Cinema: Gnostic Visions in Film”) afirma que essa fase Cult (gnosticismo somente para um público intelectualizado) predominou nos anos 60 e 70 através de filmes como Zardoz (Zardoz, 1974) ou o Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, 1976) e que, na atualidade, entramos na fase pop do gnosticismo quando alcança o mainstream hollywoodiano por meio de roteiristas como, por exemplo, Charlie Kauffmann.

De qualquer forma, “Os Famosos...” é um filme ousado e bem vindo ao trazer para a produção cinematográfica brasileira o principal elemento narrativo gnóstico: o aprisionamento do protagonista não apenas por uma realidade política ou social hostil, mas por uma condição metafísica que envolve todas as outras.

Ficha Técnica:
  • Título: "Os Famosos e os Duendes da Morte"
  • Diretor: Esmir Filho
  • Roteiro: Esmir Filho baseado no romance de Ismael Caneppele
  • Elenco: Ismael Caneppele, Tuane Eggers, Henrique Larré
  • Produção: Dueto Filmes, Casa de Cinema de Porto Alegre, Dezenove Som e Imagem
  • Distribuição: Warner
  • País: Brasil
  • Ano: 2009



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