sábado, outubro 02, 2010

"Almas à Venda": corpos e almas tentam resistir ao mundo tecnognóstico dos negócios

Se as idéias do management começaram a ser concebidas há um século, sua motivação mais profunda (a Tecnognose e as tecnologias do espírito) vem desde o século XVII com o racionalismo de Descartes. "Almas à Venda" (Cold Souls, 2009), de forma irônica e com humor negro, tematiza criticamente como o mundo dos negócios (management + tecnologias do espírito) invade nossa última morada que tenta resistir: a alma.


A “alma do tempo” e o “tempo da alma”. É nesse jogo de palavras que Alessandra Ageda (no seu texto “Tio Vânia de Anton Tchekov, com direção de Celso Frateschi” no site Cineminha) sintetiza as reflexões da peça teatral Tio Vânia de Anton Tchekov: o que fazer com o tempo que nos resta? A questão sobre o que fazer com nossas vidas, nossos desejos, não se restringe apenas a um assunto de foro íntimo. Nossas questões do íntimo da alma são atravessadas pela alma do tempo, trazendo imanência (concretude, história etc) a uma entidade metafísica que aspira transcendência: a alma.

O filme Almas à Venda (Could Souls, 2009) é uma comédia dramática instigante e com uma ácida ironia apresentando como “alma do tempo” atravessa a forma como lidamos com os problemas da alma. E qual é a alma do nosso tempo? A hegemonia das ideias do management, com conceitos vindos do mundo dos negócios. O cálculo das relações custo-benefício como forma de pensar generalizada que vai do mundo corporativo até nossos amores e amizades, trazendo a necessidade do ajuste fino das nossas almas a esse paradigma de performance e desempenho. A fim de nos adaptarmos ao management, entra em ação toda a agenda científica tecnognóstica das tecnologias do espírito (neurociências) que, como vimos em postagens anterioras (veja links abaixo), procuram fazer uma verdadeira cartografia e topografia da mente, na esperança de localizar a fonte última das nossas motivações, sentimentos, emoções e impressões. E o cinema, de "Vanilla Sky" até “A Origem” vem refletindo essa agenda, ou a “alma do nosso tempo”

“Almas à Venda” não apenas reflete essa agenda atual como faz uma reflexão crítica com muita ironia e non sense. O filme faz lembrar produções como “Quero Ser John Malkovich” e “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, mas vai além na crítica. Enquanto os filmes anteriores são verdadeiras fábulas (narrativas com características genéricas e ahistóricas), em Almas à Venda o contexto histórico, econômico e político é bem delineado: o mundo globalizado e o neo-liberalismo dominado pelo paradigma da financeirização onde qualquer coisa (ações, títulos, carros, pessoas, sentimentos e até a alma) tem que ser submetida aos princípios da liquidez e mercantilização totais.

O filme começa com uma epígrafe impactante, que sintetiza bem a alma do nosso tempo: “A Alma localiza-se em uma pequena glândula no centro do nosso cérebro”, Rene Descartes, The Passion of Souls, 1649. Em seguida, vemos Paul Giamatti fazendo o papel do ator ... Paul Giamatti nas cenas iniciais, tentando interpretar o personagem Tio Vânia em um ensaio da peça homônima de Tchekov. A peça está prestes a entrar em cartaz e ele enfrenta dificuldades com o papel: progressivamente sua vida pessoal confunde-se com a do personagem e, por isso, está atormentado e amargurado com a vida.

Seu agente indica um artigo na revista New Yorker sobre um serviço que seria a solução dos seus problemas: o “Armazém de Almas”, uma clínica na qual seus pacientes podem retirar sua alma e estocá-la e, até, substituir por outra alma de um doador anônimo. Sem a alma, Paul se descobre um homem mais leve, assertivo e sem angústia.

Mas se achava que tinha encontrado a solução para suas angústias e tormentos, Paul encontra mais problemas: sem a alma não consegue interpretar Tio Vânia ou fazer sexo com sua esposa. Consternado, retorna à clínica e decide experimentar a alma de um poeta russo. Mas logo percebe que essa alma é nobre e complexa demais para ocupar seu corpo e não consegue dar conta de toda a sua complexidade. Decide, então, reaver sua própria alma, estocada no depósito.

Desesperado, descobre que ela foi roubada e levada para a Rússia em um empreendimento sem escrúpulos e cruel: um empresário com ares de mafioso mantém um negócio em São Petersburgo de aliciamento cruel de doadores e tráfico de almas que são enviadas para os Estados Unidos no interior do corpo da “mula” Nina.

Determinado, Paul vai à Russia com ela para recuperar sua alma. No final do filme, Paul retorna à clínica onde descobre que a instituição foi vendida para um fundo de investimento.

Sensibilizado pelo drama pessoal da “mula” Nina (um corpo sem alma que carrega almas alheias no esquema do tráfico internacional) tentar reaver a alma dela no depósito. Descobre ser impossível porque os acionistas do fundo estão avaliando os “ativos” e definindo novas políticas de preço com base no risco associado ao investimento realizado.

Non sense total! O que torna a atmosfera surreal do filme é a absoluta naturalidade como os personagens lidam com a questão do “Armazém de Almas”: sem espanto, tudo verossímel, natural e rotineiro, como mais um exemplo de criatividade e empreendedorismo no mundo dos negócios.

Onde está a alma?

A epígrafe que abre o filme com a citação de Descartes é a chave para entender a “alma do tempo” e toda a crítica corrosiva do filme. É inacreditável perceber que a agenda tecnognóstica atual procura materializar por meio das tecnologias contemporâneas (neurológicas, fisiológicas, digitais e computacionais) um anseio secular do imaginário científico racionalista expresso na frase de Descartes no século XVII.

O Gnosticismo cabalístico nutre uma profunda aversão ao corpo, ao biológico e ao existencial, considerados limitações para as potencialidades do Eu. Em cada livro de auto-ajuda, em cada linha de textos motivacionais, esconde-se essa percepção profunda de que somente por meio dos códigos do management poderemos nos libertar desses resíduos corporais. Se nossos sentimentos e emoções, na verdade, não passam de complexas reações bio-químicas, poderiam, então, ser rastreadas, localizadas e isoladas em áreas do cérebro. Finalmente, todos os esforços filosóficos, teológicos e esotéricos estariam terminados com uma simples cartada tecno-científica: a localização física da alma.

“Corpos à Venda” leva esse tema ao paroxismo, criando situações tragicômicas e, muitas vezes, de absoluto humor negro (como o fato de Paul ver, decepcionado, que a sua alma extraída tem aspecto de um grão de bico e, mais tarde, num restaurante, sem a sua alma, recusar uma salada de grão de bico).

A ironia do filme é de grande felicidade ao aproximar Tchekov e Rússia ao drama de Paul Giamatti (será que o filme é auto-biográfico?). Talvez a Rússia seja um dos países que mais dramaticamente experimenta as mazelas das políticas radicais do Neo-Liberalismo trazidas ao país com o fim do Comunismo: a privatização total do Estado e da vida pública por meio de cartéis mafiosos narco-financeiros. De um lado a história e o sentimento da alma russa do passado em Tchekov. Do outro, a atualidade do capitalismo narco-financeiro sem escrúpulos que mercantiliza e trafica qualquer coisa.

Paul Giamatti é vítima de um negócio que prospera a partir de uma descoberta tecnognóstica desejada, no mínimo, desde o século XVII. Um negócio que vai ao encontro do anseio do cidadão comum influenciado pelo paradigma do management: quem não quer ser mais leve e assertivo para conduzir sua vida sem culpas, mágoas ou arrependimentos?

Mas “Almas à Venda” confronta tudo isso com o Gnosticismo Alquímico: a alma não deve ser simplesmente descartada, mas confrontada num processo alquímico de transformação. Ao ser extraída, Paul se recusa a olhar sua alma “por dentro” através de óculos especiais. Ele quer apenas se livrar dela. No final do filme, ao reencontrar sua alma e tentar re-implantá-la, ela resiste. Paul, então, é obrigado a olhá-la por dentro, resultando numa sequência em que a sucessão de imagens metonímicas e simbólicas são apresentadas como a redenção e compreensão finais dos dramas da sua alma. Nada mais freudiano, nada mais europeu e nada mais anti-americano.

Por trás do paradigma management da alma do nosso tempo esconde-se essa agenda tecnognóstica da tecnologias do espírito: o descarte de almas para a libertação das potencialidades do nosso Eu. O pior é que isso vira mais um mercado a ser explorado pelo empreendedorismo e criatividade dos “novos padres” do mundo dos negócios.

Ficha Técnica
  • Título: "Almas à Venda" (Cold Souls)
  • Diretor: Sophia Barthes
  • Roteiro: Sophia Barthes
  • Elenco: Paul Giamatti, Dina Korzum, David Strathairn, Emily Watson, Armand Schultz
  • Produção: Samuel Godwyn Films
  • Europa Filmes (Brasil)
  • País: EUA, França
  • Ano: 2009

Trailer de "Almas à Venda"



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